Deficitário e desprestigiado". Quando vi o título do artigo de Luís Curro, publicado pela Folha, pensei que ia ler algo sobre o Brasileirão masculino. Para minha surpresa, era um ataque gratuito a um alvo mais modesto: a Série A1 feminina.
Velho colega de Folha, o colunista deu-se ao trabalho de levantar que 162 dos 167 jogos do torneio deste ano deram prejuízo operacional, ou seja, realizá-los gastou mais do que arrecadou.
Alega ainda que ninguém sabe o nome da artilheira do recém-encerrado Brasileirão (observo: ninguém sabe tampouco quem é o artilheiro da Série B masculina). Tudo isso a menos de um ano da Copa do Mundo em território nacional.
Previsivelmente, a publicação suscitou os batidos comentários sexistas, em tempos de desfaçatez sem freios. "(O futebol feminino) Não tem graça. Não adianta." "É uma pena, mas há coisas que não emplacam mesmo.
A coluna usa os dados para argumentar... nada. Nenhum modelo alternativo é proposto, como se houvesse receio de levar o raciocínio às últimas consequências. Mas o texto parece ser contra um futebol feminino deficitário.
Deficitário, repito, também o é o futebol masculino, endividado e pendurado no vício das bets. Poderíamos vasculhar os borderôs das Séries B, C, e D, e até da Série A: Red Bull Bragantino, Mirassol, Vitória e outros dão prejuízo operacional constante como mandantes.
O que o artigo quer afirmar, suponho, é outra coisa: que o futebol feminino deveria se sustentar sozinho. Lamento informar, mas continuará sendo assim, inclusive depois da Copa.
E é isso mesmo, pelo tempo que for necessário. Nem tudo na vida é lucro.
Questionamentos sobre a viabilidade do futebol feminino costumam surgir de torcedores homens de clubes em má situação no Brasileirão masculino. Considerando que São Paulo e Corinthians decidiram o torneio feminino e lutam contra o rebaixamento no masculino, o esperneio é automático.
Em 2010, quando o Santos contratou Marta, fui à Vila Belmiro cobrir a apresentação. Na volta à capital, dei carona a Andreia Suntaque, goleira do time e da seleção.
Enquanto subíamos a Imigrantes, elogiei o Santos por investir no feminino. "Que nada", minimizou a calejada Andreia. "É só o time masculino ir mal que eles cortam tudo.
Até hoje é assim. Vide o vexame do Fortaleza, que, rebaixado no masculino em 2025, fechou o time feminino, alegando "ausência de verbas específicas e incapacidade financeira para manter a modalidade nos padrões exigidos.
Incapacidade financeira? Manter um time feminino deve custar uns 2% ou menos do orçamento do masculino. Mas ainda que fosse verdade, o critério financeiro não pode ser absoluto.
Incentivar o futebol feminino, entre outros benefícios, estimula um ecossistema que traz essa "minoria" - 51% da população - para o esporte, aumentando o faturamento também, vejam só, do futebol masculino.
Mais que isso, é um imperativo moral e social, depois de décadas de apagamento, preconceito e repressão.
Viva o futebol feminino, deficitário e corajoso.
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