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PEC da Segurança chega ao plenário do Senado: o que muda no combate às facções e a briga pela maioridade penal

8 min de leitura
PEC da Segurança chega ao plenário do Senado: o que muda no combate às facções e a briga pela maioridade penal
Reprodução

Com o fim da escala 6x1 aprovado na noite desta quarta-feira (14), o Senado tem uma nova proposta pronta para o plenário, e ela mexe com o tema que mais preocupa o brasileiro. A PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025) concluiu a votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) pela manhã e agora depende de dois turnos de votação, com pelo menos 49 dos 81 senadores em cada um.

É uma das reformas mais amplas já propostas para a área. Ela coloca na Carta o Sistema Único de Segurança Pública, endurece a punição a chefes de facções e milícias, abre caminho para polícias municipais e blinda o dinheiro da área contra cortes. A 11 dias do 2º turno presidencial, ela também virou arena de disputa entre governo e oposição.

49 votos

Mínimo exigido em cada turno no Senado

487 x 15

Placar do 1º turno na Câmara, em março

28%

Apontam a violência como maior preocupação do país (Quaest, set.)

81

Emendas apresentadas por senadores na CCJ

Quando o plenário vota?

Ainda não há data confirmada. O presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), disse que conversou com Davi Alcolumbre (União-AP), que demonstrou disposição de começar a análise logo depois da 6x1:

“Ele [Davi Alcolumbre] está com toda boa vontade para que, logo depois que aprovarmos o fim da escala 6x1, começarmos a apreciar a PEC da Segurança Pública. Nós podemos começar a apreciar até mesmo amanhã essa matéria.”

Otto Alencar (PSD-BA), presidente da CCJ · à Agência Senado

O líder do MDB, Eduardo Braga (AM), chegou a reunir assinaturas para um calendário especial, o mesmo instrumento que permitiu votar a 6x1 em dois turnos na mesma noite. No fim da noite, porém, segundo o R7, governistas passaram a defender que a votação fique para a próxima semana. Até as 22h desta quarta, a pauta oficial do plenário para quinta-feira (15), publicada nos dados abertos do Senado, não incluía a PEC.

O que muda se a PEC for aprovada

01

SUSP na Constituição

O Sistema Único de Segurança Pública, uma espécie de “SUS da segurança”, passa a ter status constitucional, com forças-tarefa conjuntas, compartilhamento de provas e sistemas integrados entre União, estados e municípios.

02

Mão pesada contra facções

Líderes e integrantes de facções, milícias e grupos paramilitares ficam sujeitos a regime mais rigoroso: presídio de segurança máxima, restrição à progressão de regime e confisco de bens sem indenização.

03

Polícias municipais

Municípios poderão criar polícias para o policiamento ostensivo e comunitário, sujeitas ao controle externo do Ministério Público, sem sobreposição com a guarda municipal.

04

PRF em trilhos e rios

A Polícia Rodoviária Federal passa a atuar também em ferrovias e hidrovias federais. A Polícia Federal ganha competência ampliada em crimes interestaduais e internacionais.

05

Dinheiro protegido

Fundos Nacional de Segurança Pública, Penitenciário e de aparelhamento da PF ficam protegidos de bloqueio. Vai para a área 10% do superávit do Fundo Social do pré-sal, de forma gradual entre 2027 e 2029.

06

Controle e transparência

Criação do Sistema de Políticas Penais e de corregedorias e ouvidorias autônomas nos órgãos de segurança, além de proteção a denunciantes e suas famílias.

Fontes: Agência Senado, ficha da PEC 18/2025 no Senado e InfoMoney.

Um país que mata menos, mas ainda mata muito

Sirene vermelha acesa no teto de uma viatura policial à noite
Mesmo com a menor taxa de assassinatos da série histórica, o Brasil registrou mais de 40 mil mortes violentas em 2025. Foto: cottonbro studio / Pexels

A PEC chega ao Senado num momento paradoxal. Os números de 2025 são os melhores da série histórica, mas o Brasil ainda perde mais de 40 mil pessoas por ano para a violência.

Mortes violentas por 100 mil habitantes no Brasil

2012
27,7
2024
20,6
2025
19,1

Em 2025 o país registrou 40.775 mortes violentas intencionais, 8,2% a menos que em 2024 e a menor taxa desde o início da série, em 2012. Mas a letalidade policial subiu 5,4% e os feminicídios, 4%.

Fonte: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), via Agência Brasil e Folha de S.Paulo.

As cidades mais violentas do país em 2025

1ºMaranguape (CE)
100,3
2ºEunápolis (BA)
85,1
3ºMaracanaú (CE)
80,7
4ºPorto Seguro (BA)
71,2
5ºSimões Filho (BA)
68,1

Taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes, cidades com mais de 100 mil moradores. Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.

O que o Senado mudou

O relator, senador Rogério Carvalho (PT-SE), manteve a espinha dorsal do texto da Câmara e acolheu, total ou parcialmente, apenas 4 das 81 emendas. A mudança mais visível foi a retirada do trecho que destinava dinheiro das apostas esportivas aos fundos de segurança, após emendas de senadores como Alessandro Vieira, Damares Alves, Mara Gabrilli, Alan Rick e Rogério Marinho. Segundo a InfoMoney, o relator defende evitar novas mudanças de mérito que obriguem o texto a voltar à Câmara antes da eleição.

Texto da Câmara

  • 30% da arrecadação das bets para os fundos de segurança e penitenciário
  • 10% do superávit do Fundo Social do pré-sal
  • Sem redução da maioridade penal, retirada em acordo com Hugo Motta

Parecer no Senado

  • Sai a destinação do dinheiro das bets
  • Fica o pré-sal, de forma gradual entre 2027 e 2029
  • 4 das 81 emendas acolhidas, total ou parcialmente

A bomba da maioridade penal

No mesmo dia em que a PEC foi liberada para o plenário, o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), protocolou a emenda 84. Ela reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos e permite responsabilizar adolescentes a partir de 14 anos em crimes hediondos, tortura, tráfico, terrorismo e organização criminosa. O texto retoma uma PEC apresentada por Flávio Bolsonaro em 2019, que está parada na CCJ.

“Quero ver Lula e o PT votarem a favor de uma punição mais dura para quem comete crimes hediondos, estupra, mata e aterroriza famílias brasileiras.”

Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e candidato à Presidência · segundo o portal TMC

Na justificativa, a oposição cita uma pesquisa Datafolha de junho segundo a qual 79% dos brasileiros apoiam a redução. A emenda já provoca fissuras na base: o senador Marcelo Castro (MDB-PI), aliado do governo, disse que votaria a favor.

“Eu sou a favor da redução da maioridade penal para os 16 anos. Se puder colocar e não haver nenhum inconveniente regimental, eu votaria a favor.”

Marcelo Castro (MDB-PI), senador da base do governo · em entrevista nesta quarta (14), segundo o portal GP1

Segundo o R7, o líder do PT, Camilo Santana (CE), também passou a recolher assinaturas para uma proposta própria sobre crimes hediondos. O tema já tinha travado a PEC na Câmara: em março, o relator Mendonça Filho retirou a redução da maioridade a pedido de Hugo Motta (Republicanos-PB), para não pôr todo o texto em risco.

“A PEC poderia ser aprovada aqui, mas morreria no Senado Federal.”

Mendonça Filho (União-PE), relator na Câmara, em março · ao explicar a retirada da maioridade penal, segundo o g1

Linha do tempo

2025

Governo envia a PEC ao Congresso, elaborada pelo então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski.

4 mar 2026

Câmara aprova em dois turnos: 487 a 15 no 1º e 461 a 14 no 2º, com relatoria de Mendonça Filho (União-PE). A redução da maioridade penal sai do texto.

2 set 2026

CCJ do Senado aprova o texto-base do relator Rogério Carvalho (PT-SE), que retira a destinação de dinheiro das bets.

14 out 2026

CCJ conclui a votação em cerca de 10 minutos e envia a PEC ao plenário. Oposição apresenta emenda para reduzir a maioridade penal.

Próximos dias

Plenário precisa aprovar em dois turnos, com 49 votos em cada. A data ainda está em negociação.

A eleição dentro do plenário

A segurança pública lidera as preocupações do eleitor. Em agosto, 33% apontavam a violência como o maior problema do país (Quaest). Em setembro eram 28%, ainda em primeiro lugar, segundo a pesquisa Quaest/Pax. Na mesma pesquisa, o trabalho do governo federal na área teve a pior avaliação entre os órgãos analisados. O governo Lula quer aprovar a PEC e, segundo o g1, pretende criar o Ministério da Segurança Pública depois da promulgação. A oposição, por sua vez, usa a maioridade penal para testar a base governista a poucos dias do 2º turno.

E Mato Grosso do Sul?

Na contramão da queda nacional, Mato Grosso do Sul foi um dos 7 estados em que as mortes violentas aumentaram em 2025, com alta de 4,9%, segundo o Anuário analisado pela Folha. Estado de fronteira com Bolívia e Paraguai, MS é diretamente afetado por dois pontos da PEC: a integração das polícias e a ampliação da atuação federal contra crimes interestaduais e internacionais.

Como fica a tramitação

  1. Sessões de discussão no plenário, que podem ser encurtadas com calendário especial.
  2. Votação em 1º e 2º turnos, com pelo menos 49 votos favoráveis em cada.
  3. Emendas aprovadas no plenário, como a da maioridade, exigem nova votação na Câmara.
  4. Aprovada nas duas Casas, a emenda é promulgada pelo Congresso, sem sanção ou veto do presidente.

Por Amin Feres, redator da ULTRA NOTÍCIAS. Informações: Agência Senado, dados abertos do Senado Federal, g1, InfoMoney, R7, Agência Câmara, Valor Econômico, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Agência Brasil, Folha de S.Paulo, Quaest, TMC e GP1/Metrópoles.

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