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Política Revisado por ULTRA AI

Matriz e filial

Caiado oferece credenciais de uma história política institucional, mas repete quase linha por linha as alegações bolsonaristas sobre a trama do golpe

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Pela sua trajetória política e postura pessoal, Ronaldo Caiado não é um bolsonarista. Mas, por suas declarações de campanha, é um bolsonarista. A estratégia de, simultaneamente, ser e não ser deposita o sucesso de sua candidatura num imponderável: a hipotética implosão da candidatura do herdeiro de Jair.

Não sei. Eu não estava lá dentro. Não estava convivendo lá dentro", respondeu Caiado à indagação de jornalistas sobre a natureza golpista do 8 de Janeiro. É um argumento estranho para qualquer indivíduo dotado de alguma cultura.

Sabemos bastante sobre a Lua e a Idade Média, mesmo sem experiência pessoal. O que ele sugere? Que o único juiz capaz de julgar os implicados naqueles atos seja algum participante deles.

É questão de interpretação", alega sobre o 8 de Janeiro. Sim, claro. Mas, no âmbito judicial, quem interpreta são os juízes, não candidatos ou presidentes.

Eu vou anistiar todo mundo e ninguém vai falar nesse assunto mais", completou, esclarecendo que seu perdão beneficiaria não apenas os idiotas úteis da baderna golpista como, ainda, seus autores intelectuais, inclusive Jair.

Caiado exibe-se como candidato da ordem, mas promete, como seu ato inaugural no Planalto, anular as sentenças do tribunal supremo. A desmoralização da lei em nome dos interesses de figurões da política tem longa tradição entre nós.

É o regime da desordem institucional oligárquica.

Todo o discurso de Caiado sobre democracia e golpismo revolve em torno de uma tensão dilacerante. De um lado, ele oferece as credenciais (verdadeiras) de uma história política institucional.

De outro, repete quase linha por linha as alegações bolsonaristas sobre a trama do golpe e suas implicações judiciais.

Para além de evasivas constrangedoras, seu argumento baseia-se num paralelo entre a anulação da sentença de condenação de Lula e sua proposta de anistia a Bolsonaro e a corja cívico-militar de conspiradores.

Há, aí, um equívoco lógico cristalino: o sistema judicial não pode operar por meio de compensações. Um erro, se existiu, não autoriza outro. Contudo, o fundo da questão é outro.

No caso da Lava Jato, o STF oscilou como pêndulo descontrolado. Inicialmente, "in Fux we trust", chancelou praticamente sem análise quase todas as decisões de Sergio Moro.

Depois, face às revelações do conluio ilegal entre juiz e procuradores, declarou a nulidade do processo. Não foi bonito, mas o sistema de Justiça seguiu seu curso.

Na democracia, pode-se criticar as conclusões dos juízes supremos (apesar da ira autoritária de Alexandre de Moraes), porém ninguém (nem mesmo um presidente eleito) tem legitimidade para desafiá-las.

Quando Caiado insiste em trocar a anulação pela anistia, converte a Justiça em objeto de jogatina das elites políticas.

Pacificação nacional", clama Caiado, recobrindo com um diáfano véu retórico sua tentativa de cooptar o bolsonarismo para sua pretensão eleitoral. Nesse passo, envereda pelo atalho clássico da conciliação por cima, uma tradição patrimonial brasileira que, no fim, alimenta tanto a corrupção quanto tentativas de violação da ordem democrática.

Salvo um improvável desmoronamento da candidatura de Flávio, a operação de Caiado fracassará –e ele emergirá menor da aventura. É simples: entre a matriz e a filial, as pessoas sempre preferem a primeira.

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Fontes consultadas

  • Folha Poderlink

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