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Laila Garin é fenômeno em cena como Edith Piaf com atuação sobrenatural que equilibra drama e música na

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Laila Garin é fenômeno em cena como Edith Piaf com atuação sobrenatural que equilibra drama e música na

Foi nessa data que a extraordinária atriz carioca estreou, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), o musical de teatro “Piaf – A vida de uma estrela da canção”, com texto da dramaturga inglesa Pam Gems (1925 – 2011) traduzido para o português por Millôr Fernandes (1923 – 2012) e encenado sob a direção de Flávio Rangel (1934 – 1988).

Alguns números musicais do espetáculo ficaram eternizados no álbum ao vivo editado pela gravadora Som Livre ainda naquele ano de 1983 – disco que atestou a capacidade de Bibi de atingir a mesma densidade dramática do canto de Piaf.

O sucesso foi tanto que o repertório de Piaf jamais saiu da voz e dos roteiros de Bibi – até porque, em 1992, a artista estreou show com esse repertório e o apresentou com regularidade até 2014.

Contudo, o fato é que, a partir deste ano de 2026, Edith Piaf também adquire no Brasil a voz e o rosto de Laila Garin, atriz também extraordinária que sustenta as três horas de duração do musical “Piaf – Eu não me arrependo” com atuação sobrenatural.

Auxiliada por um também excepcional trabalho de caracterização, a atriz baiana – de ascendência francesa por parte de pai – é a alma e o motor que acionam a engrenagem do espetáculo produzido pela Aventura a partir de ideia de Sérgio Módena, diretor do musical em cartaz no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro (RJ), até 1º de novembro.

Com dramaturgia original de Newton Moreno e Alessandro Toller, o musical “Piaf – Eu não me arrependo” repisa os principais passos da vida da estrela da canção francesa criada entre as prostitutas de um bordel, os integrantes de trupe circense e as ruas de Paris, onde cantava em troca de moedas até ser descoberta em 1935 nas esquinas do bairro Pigalle por Louis Leplée (1883 – 1936) e levada para cantar no cabaré de Leplée, personagem vivido pelo ator Bernardo Berro.

Edith Piaf viveu os 47 anos de vida na corda bamba – se permitindo uma liberdade então negada às mulheres – entre abandonos, amantes, doses fartas de álcool, dores, gozos, traições, triunfos e o vício em morfina na fase final em que mal se aguentava de pé no palco, mas se manteve em cena, mostrando inesgotável capacidade de superação enfatizada no texto.

Impressiona a capacidade de Laila Garin de, sem mimetizar Piaf, traduzir em cena todos os estados da alma desassossegada e do corpo da resiliente cantora.

Com trabalho de corpo que sensibiliza o espectador, sobretudo a atriz quando reproduz o estado de decadência física de Piaf, Garin equilibra drama e música na corda bamba da vida folhetinesca da cantora.

Feito sob a direção musical de Cláudiz Elizeu, o canto em francês da atriz é perfeito, penetrante, não raro arrepiante e sempre embebido de sentimento que jamais dilui o rigor técnico da interpretação.

O primeiro grande número da atriz é “Millord” (Marguerite Monnot e Georges Moustaki, 1959), música cantada na noite em que Piaf se viu obrigada a se prostituir para custear o enterro da filha recém-nascida.

Na liberdade poética da dramaturgia, “La vie en rose” (Louis Gugliemi e Edith Piaf, 1945) é a canção que representa a esperança no momento em que Piaf encara o nazismo alemão para livrar prisioneiros franceses do jugo do país inimigo.

Já “Hymme à l'amour” (Marguerite Monnot e Edith Piaf, 1950) é o brado de transcendência quando Piaf fica profundamente ferida com a morte do grande amor da artista, o pugilista francês Marcel Cerdan (1916 – 1949), falecido aos 33 anos em desastre de avião no qual embarcou a pedido de Piaf (Patrick Amstalden interpreta Cerdan no espetáculo).

Entre a ternura da chanson de amor “À quoi ça sert l'amour” (Michel Emer, 1962) – cantada por Garin em dueto com Gabriel Vicente, ator que interpreta Theo Sarapo (1936 – 1970), marido de Piaf no fim da vida da cantora – e a tristeza que embala as reflexivas memórias de “Bravo pour le clown” (Louiguy e Henri Contet, 1953), Laila Garin é uma Edith Piaf memorável em interpretação com cacife para figurar em qualquer futura antologia de grandes atuações do teatro brasileiro.

Quando Piaf / Laila faz o balanço da vida turbulenta através do canto de “Non, je non regrette rien” (Charles Dummont e Michel Vaucaire, 1956), a efusiva ovação recebida pela artista ao fim do número atesta a intensidade e a profundidade do mergulho de Garin no mundo de Piaf.

Agora Edith Piaf é uma estrela que, no Brasil, também tem a voz e o rosto de Laila Garin.

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