Por que o crescimento econômico não chega para todos? Famílias de MS relatam dificuldades.
- Famílias vivem, em média, com menos de R$ 700 por pessoa.
- O valor equivale a cerca de 1/3 da renda média dos municípios com maior renda per capita do estado.
- O município tem cerca de 1.400 oportunidades de trabalho, concentradas principalmente no setor público e no comércio.
- Três Lagoas possui mais de 400 empresas em seu parque industrial.
Segurança, saúde, educação, moradia, transporte e lazer estão entre os direitos sociais previstos na Constituição. Mas, na prática, o acesso a essas condições ainda é desigual em Mato Grosso do Sul e pode interferir diretamente na qualidade de vida e nas oportunidades de trabalho.
A desigualdade aparece de diferentes formas no estado. Há famílias que precisam sobreviver com benefícios sociais e trabalhos informais, enquanto municípios que passaram por forte industrialização concentram milhares de empregos.
🔎 Esta reportagem faz parte da série “Me Escute Porque Eu Decido”, exibida no MS2 entre os dias 7 e 11 de setembro. Os conteúdos integram a cobertura especial da TV Morena para as Eleições 2026.
Em Campo Grande, a realidade de uma família mostra como a falta de renda pode se tornar ainda mais difícil quando existem despesas permanentes com saúde. No bairro Sírio Libanês, Cléber Gonçalves Dutra, auxiliar de pedreiro, mora com a esposa e cinco filhos em um apartamento de pouco mais de 40 metros quadrados.
Os sete integrantes da família dividem dois quartos e um único banheiro. Os filhos mais velhos dormem em beliches, enquanto o caçula, de 8 anos, dorme com os pais.
Cléber deixou o trabalho como auxiliar de pedreiro há cinco anos para acompanhar o tratamento dos filhos. Todos têm diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), em diferentes níveis, e precisam de consultas e acompanhamentos na rede pública.
A principal fonte de renda da família é o Benefício de Prestação Continuada (BPC), recebido pelos quatro filhos mais velhos. Sem um salário para complementar a renda, o orçamento fica comprometido com despesas básicas, como alimentação, água, luz, internet e gás.
Coronel Sapucaia e a baixa renda per capita.
A dificuldade para encontrar emprego formal também aparece em Coronel Sapucaia, município localizado na fronteira do Brasil com o Paragaui.
Historicamente a cidade está entre os municípios de Mato Grosso do Sul com menor renda per capita mensal.
Jair Pereira, de 52 anos, trabalha de forma autônoma com instalação de antenas e pintura. Ele nunca teve carteira de trabalho assinada e depende de diárias para sustentar a família.
Em períodos de pouco movimento, pode passar semanas sem conseguir trabalho.
A falta de oportunidades também faz com que moradores deixem a cidade em busca de emprego. Para Jair, a principal necessidade é justamente conseguir trabalho.
Perguntado o que é preciso para a qualidade de vida melhorar, Jair responde: “É serviço.”.
Industrialização mudou realidade de Três Lagoas.
Enquanto algumas cidades enfrentam escassez de oportunidades, Três Lagoas passou por uma transformação econômica nas últimas décadas.
A região leste de Mato Grosso do Sul começou a receber novas indústrias no fim dos anos 1990, atraídas por incentivos fiscais. O processo ajudou a consolidar o chamado Bolsão como uma potência mundial na produção de celulose.
Atualmente, a cidade se tornou um dos principais polos industriais do estado.
É o caso de Eliabe Dias Silva, que vive em Três Lagoas com o pai e realiza trabalhos de forma informal. A renda vem principalmente das diárias.
Ele trabalha com pintura e aceita serviços na área de obras e em outros locais quando é chamado. Está sem emprego formal desde o fim do ano passado.
Eliabe procura oportunidades na Casa do Trabalhador e participa de entrevistas, mas afirma que nem sempre é chamado para assumir as vagas. “A gente vai na entrevista, mas eles não chamam para exercer o trabalho.” Mesmo assim, ele continua distribuindo currículos pela cidade.
Para o antropólogo Guilherme Passamani, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), melhorar a renda é necessária, mas não é suficiente para resolver a desigualdade social.
Segundo ele, uma parcela significativa da população recebe apenas um salário mínimo, valor que considera insuficiente para garantir uma vida digna.
Mas o problema, afirma, está ligado também à própria estrutura da sociedade brasileira. “A renda é a ponta do iceberg.”.
Na avaliação do professor, mudanças precisam envolver políticas de Estado que permaneçam mesmo com as trocas de governo. Passamani afirma ainda que a concentração de riqueza contribui para ampliar problemas como insegurança, desigualdade, saúde precária e dificuldades no acesso à educação.
Para o antropólogo, reduzir essas diferenças depende de uma mudança profunda na forma como a sociedade encara a desigualdade.
*Produção: Alysson Maruyama, Caio Tumelero, Gessé López, Michel Pena, Nádia Nicolau, Nicholas Vasconcelos e Rodrigo de Freitas. Imagens: Aldemir Romero, Fábio Rodrigues, Itamar Silva e Valdeir Pereira.
Assistente técnico: Nelson Bueno. Videografismo: Leandro Ricarte e Paulo Ribeiro. Edição de imagens: Paulo Ribeiro. Roteiro e direção: Jaqueline Bortolotto.
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