Houve um tempo, há 30 ou 40 anos, pós-queda do Muro de Berlim, em que o liberalismo era tratado como a grande ideologia vitoriosa. O pluralismo, a limitação do poder estatal, a separação entre os poderes, os direitos individuais e algum grau de liberdade econômica, maior ou menor, pareciam características garantidas entre as sociedades democráticas.
Essa era chegou ao fim e o liberalismo perdeu sua hegemonia, afirma a cientista política francesa Marlene Laruelle. Diretora do Programa de Estudos sobre o Iliberalismo na Universidade George Washington (EUA), ela diz que o iliberalismo se tornou uma ideologia competitiva, representada no século 21 por líderes como Jair Bolsonaro, o americano Donald Trump e o húngaro Viktor Orbán.
Pautado por elementos como o exercício da vontade da maioria a despeito do sistema de freios e contrapesos, o apelo à homogeneidade da nação e a primazia dos valores conservadores, o iliberalismo não é apenas uma crítica ao modelo vitorioso até então, mas um novo projeto político, afirma Laruelle em entrevista por videoconferência à Folha.
A professora, que escreve um novo livro intitulado "Um adeus ao liberalismo", com previsão de publicação em 2027, acredita que a demanda por líderes iliberais continuará a existir até que o liberalismo e seus agentes sejam capazes de propor um novo horizonte político, que pressuponha a redução das desigualdades sociais.
Então é uma ideologia, e não apenas um dispositivo retórico? Sim. Geralmente usamos o populismo para definir o que está acontecendo, mas o populismo é, em grande parte, um recurso retórico.
Ou então usamos termos como autoritarismo e retrocesso democrático, que nos dizem o que está acontecendo com as instituições. Se você usa o termo iliberalismo, está falando de ideologia, da proposta política e de seu conteúdo.
Percebemos que há uma proposta que tem sua própria coerência e lógica, que traz consigo outro conjunto de valores e que está competindo com a democracia liberal.
Como se explica o fim da hegemonia liberal? O liberalismo costumava estar associado à prosperidade econômica e à ideia de que os grupos sociais iriam progredindo gradualmente em termos de direitos socioeconômicos.
Esse tipo de paralelo não funciona mais. Nos últimos 30 anos, temos visto um aumento da desigualdade socioeconômica em todo o planeta. Esse tipo de diferença entre crescimento econômico e justiça socioeconômica é uma espécie de promessa quebrada do liberalismo.
A segunda leitura diz mais respeito aos valores culturais. O fato de que o liberalismo, por muito tempo, foi entendido em termos da neutralidade das instituições, da Justiça, que permitiria às pessoas viverem seu próprio sistema de valores, mas que, gradualmente, se tornou muito progressista.
Uma parte da população apresentou uma espécie de reação conservadora.
Há um terceiro aspecto, que é o fato de estarmos entrando num momento pós-moderno, que se acelerou especialmente com as redes sociais. Esse individualismo extremo e essa espécie de atomização dos laços sociais fazem com que a desconfiança em relação às instituições, à ciência, ao jornalismo, acabe se intensificando.
Então, se você juntar todos esses elementos, de repente entende por que o liberalismo, no sentido mais tradicional, está perdendo sua hegemonia. [Ele] Se baseava no progresso, na racionalidade, no universalismo, e todos esses critérios estão, de certa forma, se desintegrando.
A sra diz que há uma crise de imaginação na política. O que quer dizer com isso? Com o fim do comunismo, há essa sensação de que o liberalismo venceu a batalha, de que é a única opção disponível, de que não há mais competição ideológica.
O liberalismo perdeu a capacidade de projetar qualquer futuro. Na melhor das hipóteses, podemos ter pequenos ajustes tecnocráticos e melhorar um pouco o Estado de bem-estar social.
É o que a tecnocratização neoliberal vem produzindo. Essa narrativa de que não há mais escolha, não há mais política.
Ele não consegue recriar nenhuma utopia, o que significa que apenas a extrema direita e a extrema esquerda trazem consigo a imaginação de algo diferente. Mas a esquerda está em minoria.
É a direita que tem conseguido reinventar um imaginário político para dizer: "Não, não está escrito que tem que ser assim". É realmente importante que as forças liberais não fiquem na defensiva, não defendam o "status quo", mas sejam capazes de imaginar algo atraente para os cidadãos.
A demanda por líderes iliberais chegou para ficar? Acho que sim. Não é que as pessoas não queiram democracia. Elas acreditam que a democracia funcionará melhor se tiverem esse tipo de líder.
As pessoas sentem que o liberalismo não está mais dando resultados no aspecto econômico e têm a sensação de não saber para onde ele está indo. Por isso, acredito que a proposta iliberal veio para ficar até que haja uma profunda transformação em nosso sistema político e no cenário internacional.
É um momento histórico, uma espécie de fase pela qual temos que passar.
Como o nacionalismo cristão se conecta à proposta iliberal? O nacionalismo cristão é uma espécie de interpretação iliberal da religião, porque não se trata apenas de uma interpretação muito estrita e literal.
Está se exigindo uma espécie de papel controlador do espaço público, querendo que os Estados Unidos se tornem um Estado religioso com uma única interpretação da religião.
Se você interpretar seu oponente político não como parte de um mecanismo normal de discordância em uma democracia, mas quase como uma oposição teológica, você estará praticamente destruindo o princípio da democracia, o que é potencialmente perigoso, pois pode abrir as portas para a violência política.
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…