Aos 63 anos, aposentada já vendeu 100 exemplares de sua coleção e mantém o espaço no Jardim Seminário.
Quem passa pelas ruas do Jardim Seminário, em Campo Grande, pode ter percebido uma movimentação diferente no bairro. Placas anunciando um bazar de bonecas novas e seminovas, com preços que variam conforme a peça, chamam a atenção de quem circula pela região.
Marlene Mielo Colombo, de 63 anos, aposentada e ex-bancária, vende parte de seu acervo de 300 bonecas em um bazar no Jardim Seminário, em Campo Grande. Na infância, ela brincava com espigas de milho por falta de dinheiro.
Antes da venda, restaura e higieniza as peças. Cerca de 100 já foram vendidas em um mês. O bazar funciona às sextas à tarde e aos sábados pela manhã, na Rua Ciro Macuco, 7.
Por trás dos anúncios está Marlene Mielo Colombo, de 63 anos, que decidiu colocar à venda parte de seu acervo pessoal de 300 bonecas. O que parece apenas um bazar esconde uma história de infância marcada pela falta de dinheiro, mas também pela criatividade e pelo amor às bonecas.
Aposentada, Marlene trabalhou durante 30 anos como bancária e hoje dedica parte do tempo aos trabalhos manuais. Entre suas atividades estão a confecção de bonecas de pano, a decoupage em MDF e a costura criativa.
Mas a relação com as bonecas começou muito antes da aposentadoria. Ainda criança, ela sonhava em ter brinquedos da marca Estrela, mas a realidade financeira da família nem sempre permitia realizar esse desejo.
Sem condições de comprar as bonecas que a filha tanto queria, o pai encontrou uma alternativa no que tinha à disposição. Em vez de brinquedos de plástico, Marlene ganhava espigas de milho, que se transformavam em personagens de diferentes aparências.
Mesmo com a simplicidade dos brinquedos improvisados, Marlene guardou o carinho por cada um deles. A primeira boneca de verdade chegou quando ela tinha apenas 3 anos, presente do avô.
O interesse pela restauração surgiu da curiosidade e da vontade de aprender. Marlene conta que sempre gostou de trabalhos manuais e que a mãe, que era costureira, teve influência nesse caminho.
Ainda menina, observava como ela trabalhava com tecidos e linhas, aprendendo a fazer pequenos detalhes à mão. Com o tempo, passou a costurar sozinha e também buscou cursos para aperfeiçoar suas habilidades.
A paixão por bonecas ganhou força em 2014, quando Marlene se interessou ainda mais pelo artesanato. Entre suas preferidas estão os modelos antigos da Estrela, principalmente as bonecas maiores e aquelas que imitam bebês.
Embora tenha passado a infância desejando esses brinquedos, a aposentada afirma que nunca teve uma Barbie. O encanto sempre esteve nas bonecas tradicionais, especialmente nas que marcaram outras gerações.
Desapego – Mesmo com tantas peças acumuladas, decidir vender parte da coleção não foi fácil. Marlene admite que demorou para aceitar a ideia de se desfazer dos brinquedos que guardou durante anos.
A falta de espaço em casa, porém, acabou pesando na decisão. “Sim, eu demorei muito pra tomar essa decisão, mas eu vi que vale a pena. Porque tem que chegar uma hora que você não tem mais onde guardar.
Pra que ficar guardando se outras pessoas podem ser felizes com essas bonecas?”, questiona.
A reação das crianças que visitam o bazar ajudou Marlene a perceber que a decisão fazia sentido. Segundo ela, os pequenos ficam encantados ao encontrar modelos diferentes, muitos deles semelhantes aos brinquedos que fizeram parte da infância de seus pais e avós.
O movimento é maior aos sábados, quando mais pessoas procuram o espaço para conhecer e comprar as bonecas.
Apesar do desapego, algumas peças continuam fora de negociação. Marlene guarda com carinho uma boneca Beijoca e outra conhecida como Bate-Palminha, modelos que marcaram sua infância, entre as décadas de 1960 e 1970.
São lembranças das quais não pretende se desfazer, independentemente do interesse de possíveis compradores.
Entre os brinquedos antigos que ainda conserva está a Magali, boneca da Turma da Mônica. Marlene conta que chegou a ter outros personagens da coleção, mas, com o passar dos anos, restou apenas uma das peças.
Cada exemplar tem características próprias, desde os olhos e cabelos até os mecanismos que permitiam que algumas bonecas chorassem ou emitissem sons.
Além de vender as peças da própria coleção, Marlene também recebe bonecas de outras pessoas para avaliação e restauração. Ela faz o serviço mediante orçamento, conforme o estado do brinquedo e o trabalho necessário.
Entre os cuidados estão a higienização, a confecção de roupas e pequenos reparos que ajudam a recuperar a aparência original.
O bazar também se tornou uma oportunidade de mostrar o trabalho manual que desenvolve desde que deixou a carreira bancária. Acostumada a lidar com linhas, tecidos e acessórios, Marlene encontra na recuperação dos brinquedos uma maneira de manter viva uma habilidade que começou a aprender observando a mãe.
Agora, aos 63 anos, Marlene prefere imaginar que as bonecas poderão fazer parte de outras infâncias, em vez de permanecerem guardadas em casa.
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