Partidos árabe-israelenses tiveram um desempenho recorde nas eleições desta terça-feira (27), posicionando-se como fiel da balança na disputa que pode encerrar o mandato do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu.
O bloco liderado por Netanyahu terá 53 cadeiras. O bloco de oposição de Gadi Eisenkot conquistou, por sua vez, 48. Para formar um governo, é necessário obter 61 dos 120 assentos do Parlamento.
A conta final, portanto, pode passar pelos árabes. O partido Ra’am e a aliança Lista Conjunta ficaram, somados, com 19 —seu melhor número na história.
O sucesso dos partidos árabes, no contexto mais amplo da guerra em Gaza, incomodou imediatamente o país. Moshe Feiglin, que lidera o partido de colonos Zehut, pediu a anulação dos resultados e a investigação de uma suposta interferência do Qatar.
As autoridades qataris, entretanto, negam ter exercido qualquer influência.
Os números indicam o quão cruciais foram essas eleições para os cidadãos árabes de Israel", afirma Arik Rudnitzky, da Universidade Tel Aviv. Rudnitzky estuda há décadas os árabe-israelenses, que representam cerca de 20% da população do país.
Ele credita o sucesso árabe à campanha eficaz do Ra’am e da Lista Conjunta. Ambos "apresentaram mensagens políticas simples e claras", afirma. Partidos árabes dedicaram-se, no passado, a deslegitimar uns aos outros.
Agora, na sua avaliação, eles evitaram o fogo amigo.
Também ajudou o fato de que cada uma das forças árabes mirou em uma parte diferente do espectro político. O Ra’am dizia estar aberto a formar um governo com partidos judeus, enquanto a Lista Conjunta se propunha a apoiar um eventual governo, mas sem integrar uma coalizão.
Assim, puderam convencer eleitores árabes em ambos os campos. "Ainda existe um debate na sociedade árabe-israelense sobre participar de um governo. Esse segue sendo um assunto bem controverso", diz Rudnitzky.
Do ponto de vista dos partidos judaicos de oposição, há também uma discussão. Parte apoia a ideia de se aliar ao bloco árabe. Mas outra parte se opõe, o que lhes impediria de obter a maioria dos assentos.
Ainda não está claro se todas essas posições se manterão, agora que o pleito foi realizado e apurado. O resultado não oferece um caminho claro para a formação de um governo no curto prazo.
Para alcançar a maioria com seu bloco atual, a oposição precisaria do apoio dos árabes.
A aliança com o Ra’am e com a Lista Conjunta ganhou, pois, urgência. Tanto que, segundo a liderança do Ra’am, o próprio Likud —o partido de Netanyahu— já começou a sondá-los sobre a possibilidade de apoio.
Isso mesmo depois de Netanyahu ter feito declarações consideradas racistas durante o pleito, alertando seus apoiadores sobre o risco de um alto comparecimento de árabes.
Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional, conhecido por suas posições extremistas, pediu que seus seguidores votassem para garantir que Israel continuasse a ser um Estado judeu.
Em rede social, ele escreveu que a agência de segurança Shin Bet deveria ordenar ainda nesta quinta a detenção de dirigentes que, segundo ele, têm envolvimento com recursos ilegais do Qatar.
O principal fator que move Netanyahu é o medo", afirma Rudnitzky. O primeiro-ministro explorou o temor entre seus eleitores conservadores para que comparecessem às urnas na terça, usando também o argumento da segurança nacional.
Tentou fazer com que temessem as consequências, o que resultou na deslegitimação dos eleitores árabes.
A estratégia talvez tenha dado errado, no sentido de que também pode ter mobilizado eleitores árabes com base no medo.
As eleições foram celebradas sob a sombra dos ataques israelenses contra Gaza, descritos por alguns órgãos internacionais e governos como um genocídio. Apesar disso, Rudnitzky diz que a prioridade desses partidos ainda é garantir uma série de melhorias na vida dos árabes que vivem em Israel.
Não há uma plataforma incisiva em relação à questão palestina mais ampla.
Cita, em especial, a alocação de mais recursos para a infraestrutura e o combate à violência em regiões de maioria árabe no país. "A prioridade é resolver a crise socioeconômica, não a solução de dois Estados", diz, referindo-se à fórmula política que levaria à criação de um Estado palestino ao lado de Israel —uma possibilidade cada vez mais distante.
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