O relatório deste ano sobre o estado da democracia no mundo compilado pelo Idea (Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral), estabelece uma ligação direta entre a erosão democrática nos Estados Unidos causada por Donald Trump e movimentos autoritários em outros lugares no mundo —inclusive no Brasil.
De acordo com o documento da organização intergovernamental sediada na Suécia, o ataque do 8 de Janeiro em Brasília só foi possível porque, dois anos antes, trumpistas incentivados pelo presidente americano invadiram o Capitólio com o objetivo de reverter o resultado das eleições, vencidas por Joe Biden.
Para o secretário-geral do Idea, o costarriquenho Kevin Casas-Zamora, Trump é o "paciente zero" da "pandemia de negacionismo eleitoral" que atinge o mundo democrático há pelo menos cinco anos.
Em entrevista à Folha por telefone, Casas-Zamora falou sobre a interferência americana nas eleições brasileiras, sobre eventual erosão democrática em um governo Flávio Bolsonaro, e sobre a situação da democracia nos EUA.
O Idea aponta uma melhora no nível democrático do Brasil, avançando 12 posições na categoria "direitos" de 2025 para 2026. O que explica isso? A razão fundamental é a queda abrupta em muitos indicadores durante o governo anterior, em que houve fortes ataques contra a liberdade de imprensa, a independência judicial e a credibilidade do processo eleitoral.
Ou seja, a melhora do Brasil se dá graças a um efeito rebote.
O relatório deste ano também mostra avanços no Estado de Direito brasileiro —o país está na frente de Argentina, Colômbia, Índia e Hungria, por exemplo. Entretanto, críticos de direita afirmam que o Judiciário comete cada vez mais abusos sem respostas institucionais à altura.
Como o senhor responderia a essas críticas? Não quero me meter na política brasileira. Eu me limitarei a dizer que, vendo o que acontece nesse momento com o STF, há problemas no Judiciário do Brasil que merecem atenção.
Entretanto, é inegável que o Supremo brasileiro teve um papel fundamental na proteção da democracia, garantindo a integridade eleitoral quando o ex-presidente Jair Bolsonaro atacou as eleições.
O Brasil é um exemplo nesse sentido: acusações sem provas, que causam danos gratuitos à democracia em um país, devem ter um custo político para quem as levanta.
O Idea traça um paralelo claro entre a deterioração democrática nos EUA e o ataque do 8 de Janeiro no Brasil. Como os dois estão relacionados? Como o declínio americano afeta a América Latina.
No geral, tudo que acontece nos EUA tem impactos globais. Os paralelos entre o que aconteceu em Washington em 6 de janeiro de 2021 e o que houve no Brasil dois anos depois são óbvios, não requer muita explicação.
Existem muitos casos em que os eventos nos EUA acabam adotados por atores políticos em outros países. O mais evidente é o negacionismo eleitoral, que se tornou uma pandemia.
No mundo todo vemos políticos que, sem prova alguma, semeiam dúvidas sobre processos e resultados eleitorais críveis. O paciente zero dessa pandemia é o atual ocupante da Casa Branca.
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