Há imagens que a diplomacia não consegue apagar com comunicado. Uma delas é a das cadeiras verdes da Assembleia Geral se esvaziando enquanto Benjamin Netanyahu sobe à tribuna.
Em setembro de 2025, quando o primeiro-ministro de Israel discursou na ONU, a maioria das comitivas presentes no plenário se retirou — muitas antes mesmo do início da fala — em gesto de protesto à guerra na Faixa de Gaza. A delegação brasileira também saiu, conforme o padrão determinado pelo Itamaraty. Contagens da imprensa internacional falaram em mais de 100 diplomatas de dezenas de países. Autoridades israelenses, depois, listaram dezenas de ausências e saídas.
Não foi um debate. Foi um recado visual: o isolamento político de Tel Aviv no fórum mais simbólico do multilateralismo.
O que a debandada significa — e o que não significa
Na linguagem da ONU, sair da sala não muda uma resolução, não altera um veto, não libera refém nem cessa fogo. Mas comunica. Diz aos próprios eleitores, às redes e às chancelarias que há um limite para ouvir, em silêncio, quem comanda uma ofensiva considerada devastadora por amplos setores da opinião pública mundial.
Israel reagiu minimizando o peso do gesto e destacando que potências do Conselho de Segurança permaneceram. A leitura de Jerusalém: quantidade de cadeiras vazias não equivale a poder real. A leitura de quem saiu: presença física sem protesto também é uma escolha política.
No meio do salão, o contraste era quase teatral. Enquanto delegações deixavam o plenário, aplausos vinham de parte da plateia e de convidados — inclusive, segundo reportagens da época, de pessoas ligadas à própria comitiva israelense. Netanyahu falou sob vaias e sob um plenário rarefeito. Disse que a guerra em Gaza “ainda não havia terminado” e rejeitou o reconhecimento acelerado de um Estado palestino por países ocidentais.
O Brasil na fila da saída
A comitiva brasileira — então com diplomatas do país junto à ONU — deixou o salão quando Netanyahu chegou ao púlpito. Em edições anteriores, o mesmo gesto já havia sido adotado. Em 2025, parte dos diplomatas brasileiros no plenário usava o keffiyeh, o lenço associado à causa palestina: um detalhe visual que reforçou a mensagem sem precisar de microfone.
Por que o tema volta na Assembleia de 2026
Na 81ª sessão, aberta nesta semana em Nova York, o clima ao redor de Israel permanece inflamado. Lula, no discurso de abertura, cobrou responsabilidade pela tragédia em Gaza e defendeu a solução de dois Estados. O governo Netanyahu, às vésperas de novo pronunciamento agendado para 24 de setembro, partiu para o ataque retórico: chamou críticos de “papagaios” e acusou a ONU de “viés sistemático”.
Não se trata de prever o futuro segundo a segundo. Trata-se de reconhecer um padrão: quando Netanyahu sobe à tribuna, a Assembleia deixa de ser só um ritual de discursos e vira um termômetro do isolamento diplomático de Israel — medido em cadeiras vazias, keffiyehs e portas batendo.
Para o leitor comum, a pergunta que fica é simples e incômoda: se a ONU é o “templo da paz”, o que dizer de um templo que se esvazia quando um dos protagonistas da guerra toma a palavra?
Por Amin Feres, redator da ULTRA NOTÍCIAS. Fontes: g1; Estadão; Washington Post / agências; CNN Portugal; cobertura da Assembleia Geral 2025–2026.
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