Enquanto as câmeras se concentram em quem sobe à tribuna — Lula, Trump, e na sequência uma fila de chefes de Estado —, a Assembleia Geral da ONU é, sobretudo, uma grande agenda de decisões adiadas. A 81ª sessão, aberta em Nova York sob a presidência do embaixador Khalilur Rahman (Bangladesh), escolheu um tema quase um diagnóstico: “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma ONU que atenda a todas as pessoas”.
O Debate Geral dos líderes ocorre entre 22 e 28 de setembro. A previsão oficial apontava dezenas de chefes de Estado e de governo — mais de uma centena de autoridades de alto nível —, além de milhares de reuniões bilaterais e dezenas de eventos paralelos. Em outras palavras: o plenário é a vitrine; os corredores, o negócio.
Os assuntos que devem dominar a semana
- Guerras e paralisia do Conselho de Segurança — Oriente Médio (Gaza/Cisjordânia), Ucrânia e a sensação de que o veto trava qualquer resposta coletiva. É o pano de fundo de quase todos os discursos.
- Clima e transição justa — Depois de um ano em que a agenda climática perdeu espaço em fóruns como G7 e G20, segundo críticas ouvidas na própria Assembleia, a ONU tenta recolocar o tema no centro, com evento de alto nível sobre ação climática.
- Elevação do nível do mar — Reunião específica sobre um risco existencial para Estados insulares e costas densamente povoadas. Não é abstração: é mapa, seguro, migração e orçamento.
- Pandemias — Prevenção, preparação e resposta. A memória da Covid ainda é recente demais para o mundo fingir que “nunca mais”.
- Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — O “Momento dos ODS” testa se a Agenda 2030 ainda tem tração política ou virou discurso de vitrine.
- Inteligência artificial e big techs — Regulação, ética e poder de poucas empresas sobre informação, trabalho e democracia. Lula levou o tema à tribuna; outros líderes devem ecoar.
- Direito ao desenvolvimento e combate ao racismo — Aniversários simbólicos (Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento; 25 anos de Durban) que servem de palco para denúncias do Sul Global.
- Desarmamento nuclear — Sessão de alto nível no Dia Internacional pela Eliminação Total das Armas Nucleares, em um mundo que voltou a falar abertamente em corrida armamentista.
O que o leitor brasileiro precisa observar
Para quem acompanha de longe, três eixos importam de perto:
- Soberania e eleições — O Brasil entra na Assembleia a poucas semanas do pleito de outubro; a narrativa de não ingerência já foi colocada por Lula na abertura.
- Comércio e tarifas — Críticas ao “tarifaço” e ao enfraquecimento da OMC mostram que a disputa comercial virou linguagem de segurança nacional.
- Crime organizado transnacional — Cooperação policial, lavagem de dinheiro e fronteiras: tema doméstico com endereço internacional.
Perspectivas: o que pode sair — e o que provavelmente não sai
É realista esperar comunicados, coalizões pontuais e pressão simbólica. É pouco realista esperar, nesta semana, uma reforma profunda do Conselho de Segurança ou o fim imediato das guerras em curso. A Assembleia Geral tem voz; o poder de veto mora no andar de cima.
Ainda assim, a semana serve a um propósito que a opinião pública às vezes subestima: forçar líderes a dizer, em público e no mesmo microfone, o que defendem sobre Gaza, Ucrânia, clima e tecnologia. Quem se esconde atrás do silêncio também fica registrado.
Para a ULTRA, o critério de acompanhamento é claro: separar teatro de resultado, citar o que foi dito — e cobrar, depois, o que foi prometido.
Por Amin Feres, redator da ULTRA NOTÍCIAS. Fontes: ONU Brasil; ONU News; calendário oficial da 81ª AGNU; Exame; cobertura do Debate Geral 2026.
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