Ir para o conteúdo
Mundo

Call of Duty imagina Coreia do Norte invadindo o Sul, mas qual a chance de isso realmente acontecer?

Na nova continuação da série de jogos Modern Warfare, líder norte-coreano fictício decide fazer incursão militar

7 min de leitura
Mundo — imagem padrão

O trailer da mais recente sequência da franquia de videogames Call of Duty começa mostrando jovens recrutas sul-coreanos no que parece ser uma patrulha de rotina.

  • Existem indicações de que a Coreia do Norte poderá invadir o Sul algum dia.
  • Qual é a probabilidade de uma invasão.
  • Por que ainda seria difícil para o Sul se defender da Coreia do Norte.

Momentos depois, um ataque de mísseis da Coreia do Norte atinge o sul da península, reiniciando os combates entre os dois países —que firmaram um armistício em 1953.

O trailer de Call of Duty: Modern Warfare 4 teve 22 milhões de visualizações no dia do seu lançamento, em maio. Ao todo, ele já foi visto 61 milhões de vezes e o lançamento está marcado para 23 de outubro.

Os críticos acusam o jogo de transformar um conflito não resolvido em entretenimento. Outros apreciam o fato de que ele seja contado do ponto de vista dos soldados sul-coreanos.

Mas será que a Coreia do Norte poderia realmente lançar o tipo de invasão mostrado no jogo.

O final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) levou à divisão da península coreana. E, cinco anos depois, no dia 25 de junho de 1950, o Norte invadiu o Sul, dando início à Guerra da Coreia (1950-1953).

A guerra foi mais do que um conflito regional. Ela foi uma batalha entre as superpotências da Guerra Fria (1947-1991).

A Coreia do Norte fazia parte do bloco oriental, liderado pela União Soviética (1922-1991). E a Coreia do Sul era aliada dos Estados Unidos e dos demais países do Ocidente.

As forças do Norte avançaram rapidamente, capturando a capital sul-coreana, Seul, em três dias. E, em questão de semanas, elas já haviam deslocado as forças da Coreia do Sul e da ONU, lideradas pelos Estados Unidos, até um perímetro defensivo em volta da cidade portuária de Busan, no sudeste do país.

Mas o conflito se inverteu em favor do Sul em setembro de 1950, quando o general americano Douglas MacArthur (1880-1964) liderou um desembarque surpresa em Incheon, perto de Seul.

Nos anos que se seguiram, os dois lados batalharam até chegarem a um sangrento impasse e à assinatura de um armistício, no dia 27 de julho de 1953.

O cessar-fogo suspendeu os combates, mas não foi um tratado de paz. A Coreia do Norte, a China e o Comando da ONU, liderado pelos Estados Unidos, assinaram o armistício, mas a Coreia do Sul se recusou.

O acordo definiu uma linha de cessar-fogo perto de onde estava a linha de frente, criando a zona desmilitarizada com 4 km de largura, que permanece até hoje sendo uma das fronteiras mais fortemente protegidas do mundo.

Mais de 70 anos depois, as duas Coreias permanecem tecnicamente em guerra. Houve vários confrontos em terra e no mar, mas os dois países evitaram o retorno ao estado de guerra total.

Pelo menos três milhões de pessoas morreram durante os combates, fazendo da Guerra da Coreia um dos conflitos mais mortais da era moderna.

Após o armistício, a Coreia do Norte, através dos seus líderes anteriores, passou décadas reafirmando seu desejo de reunificar pacificamente a península, mas nos seus próprios termos.

Mas Pyongyang endureceu sua posição em janeiro de 2024, quando o atual ditador do país, Kim Jong-un, declarou ao Parlamento nacional que a Coreia do Norte abandonou a reunificação como objetivo nacional.

A Constituição do país foi alterada e passou a descrever a Coreia do Sul como "adversário primário e invariavelmente o principal inimigo" do Norte. E destaca que os dois Estados devem ser tratados como separados e hostis.

Os Estados Unidos mantêm cerca de 28,5 mil soldados na Coreia do Sul, como parte da sua aliança com Seul.

Qual é a probabilidade de uma invasão.

Autoridades e especialistas militares ocidentais e sul-coreanos praticam jogos de guerra, exercícios militares e avaliações de inteligência há décadas. Seu objetivo é determinar a probabilidade de uma invasão e como ela poderia ocorrer.

Em 2023, a Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos (um grupo de organizações e agências de inteligência federais americanas) publicou um relatório, afirmando que a Coreia do Norte provavelmente utilizaria seu crescente arsenal de mísseis balísticos e nucleares para exercer sua influência regional e como forma de dissuasão, não para lançar uma ofensiva em larga escala.

Markus Garlauskas é ex-oficial de Inteligência Nacional dos Estados Unidos para a Coreia do Norte. Agora, ele faz parte do centro de estudos Conselho do Atlântico, com sede na capital americana, Washington.

Ele afirmou que, se Pyongyang realmente atacasse seu vizinho do sul, provavelmente seria em "escala limitada", com mísseis e a ameaça de escalada nuclear.

A China e a Coreia do Norte são os únicos países do leste asiático que possuem armas atômicas. Acredita-se que, ao todo, nove países do mundo possuam armas nucleares.

Além das suas armas nucleares, a Coreia do Norte possui um exército muito maior do que o Sul. Estima-se que Pyongyang conte com 1,2 milhão de soldados, contra os 450 mil de Seul.

O Norte também detém mais tanques e peças de artilharia e um arsenal de mísseis maior que o Sul.

Ainda assim, "eu teria cautela ao menosprezar as vantagens da Coreia do Sul no poderio aéreo", afirma o professor Fyodor Tertitskiy, da Divisão de Estudos Internacionais da Universidade da Coreia, em Seul.

Na verdade, calcula-se que o orçamento de defesa da Coreia do Sul seja maior do que toda a economia norte-coreana.

A Coreia do Norte também conta com uma estrutura militar rígida e centralizada, projetada para evitar golpes contra o seu líder supremo, não para ser eficiente, segundo Tertitskiy.

Ele explica que, para isso, muitas decisões das unidades do Exército Popular Coreano exigem a aprovação de autoridades políticas ou de segurança.

Esta situação reduz a capacidade dos comandantes de agir de forma independente, em velocidade adequada para um cenário de batalhas, explica o professor.

Existe também a questão do envelhecimento dos equipamentos militares norte-coreanos.

A Coreia do Sul estimou em 2018 que o Norte possuía cerca de 810 aeronaves de combate, mas muitas delas são modelos da era soviética. Mesmo os mais modernos jatos de combate de Pyongyang, do modelo MiG-29, foram adquiridos décadas atrás, segundo Seul.

Mas analistas afirmam que a Coreia do Norte pode ter se beneficiado do envio de tropas para lutar ao lado das forças russas na guerra na Ucrânia.

Estima-se que 16 mil soldados norte-coreanos tenham participado da guerra na Ucrânia e que muitos deles tenham sido mortos ou feridos.

Mas os analistas destacam que os sobreviventes podem levar para casa experiências valiosas, como o uso de drones, um aspecto cada vez mais importante na guerra moderna.

Em números

  • O trailer de Call of Duty: Modern Warfare 4 teve 22 milhões de visualizações no dia do seu lançamento, em mai
  • Ao todo, ele já foi visto 61 milhões de vezes e o lançamento está marcado para 23 de o
  • Os Estados Unidos mantêm cerca de 28,5 mil soldados na Coreia do Sul, como parte da sua alia
  • Estima-se que Pyongyang conte com 1,2 milhão de soldados, contra os 450 mil de Seul

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…

Leia também

Mais em Mundo