Ir para o conteúdo
Mato Grosso do Sul

Após 11 meses na guerra da Ucrânia, jovem volta de surpresa e mãe conta angústia

4 min de leitura
Após 11 meses na guerra da Ucrânia, jovem volta de surpresa e mãe conta angústia

Sem contar que iria para a guerra, Rafael também manteve segredo sobre a volta “são e salvo” para Campo Grande.

Após dois anos longe da família e 11 meses na Ucrânia, Rafael Araújo Diniz, de 23 anos, chegou de surpresa a Campo Grande nesta sexta-feira (18). A primeira pessoa que procurou foi a mãe, a técnica de enfermagem Elidiane Chaves de Araújo, que durante meses conviveu com o medo de receber uma notícia ruim do filho.

Rafael Araújo Diniz, de 23 anos, natural de Campo Grande, retornou ao Brasil após 11 meses na Ucrânia, onde atuou em combate sem avisar a família. O jovem serviu na Defesa Territorial e na logística, enfrentando drones, minas, fome e sede extremas.

Ao chegar, surpreendeu a mãe no trabalho. Ele afirma não ter recebido remuneração e diz que a experiência mudou sua visão sobre a guerra.

Nascido em Campo Grande, Rafael havia passado um ano em Santa Catarina antes de viajar para a Europa. A família acreditava que ele seguiria para a Espanha. Segundo a mãe, foi pelas redes sociais que a irmã percebeu que o trajeto era diferente.

Depois, Rafael telefonou e contou que estava a caminho da Ucrânia. Na madrugada seguinte, enviou uma mensagem informando que já havia chegado ao país e pediu que respeitassem sua decisão.

A notícia alterou a rotina de toda a família. A mãe diz que passou meses sem conseguir se alimentar ou dormir adequadamente, recorrendo a medicamentos nos períodos em que não recebia notícias.

A irmã também adoeceu emocionalmente, enquanto o pai e a avó enfrentavam a angústia da espera.

Rafael afirma que comprou a própria passagem e viajou com a ajuda de amigos que já estavam na Ucrânia e serviam em uma brigada. Antes de seguir para a missão, passou por 15 dias de treinamento.

De acordo com seu relato, foram seis meses na Defesa Territorial, em trincheiras e posições próximas à linha de combate, tentando impedir o avanço das forças russas.

Depois, atuou durante um mês e 20 dias na logística. O trabalho incluía transportar suprimentos a pé, conduzir militares que substituiriam os que estavam nas posições, retirar feridos e resgatar corpos próximos à área de combate.

Rafael conta que a presença constante de drones obrigava o grupo a procurar abrigo repetidas vezes durante os deslocamentos.

Às vezes, a cada poucos passos, precisávamos nos esconder porque um drone poderia estar nos observando”, relatou.

Para ele, os drones estavam entre os maiores perigos enfrentados na guerra. Segundo Rafael, equipamentos de reconhecimento eram usados para localizar posições, que depois poderiam ser atacadas por drones FPV, do tipo kamikaze, ou pela artilharia.

A ameaça vinha, muitas vezes, sem que os combatentes conseguissem identificar de onde estavam sendo observados.

Fome e sede - Ela conta que as minas terrestres também provocavam medo. As mais preocupantes, segundo Rafael, eram as enterradas, por não haver segurança sobre onde pisar.

Além dos ataques, Rafael diz ter enfrentado fome, sede e privação de sono. Em uma das situações mais extremas, afirma ter permanecido nove dias sem água e comida ao lado de um companheiro.

Os dois dependiam de suprimentos transportados por um drone conhecido como “Babayaga”, mas as entregas nem sempre chegavam porque o equipamento podia ser abatido durante o trajeto.

Mortes - Rafael também relata ter perdido amigos em combate e presenciado companheiros chegarem ao limite psicológico. Alguns, segundo ele, ameaçaram tirar a própria vida; outros teriam atirado no próprio pé na tentativa de serem retirados da posição.

Nos momentos em que sentia medo de morrer, ele diz que procurava controlar a tensão repetindo um trecho bíblico de Isaías 41:10: “Não tema, pois estou com você”.

Mudança de visão - Apesar de afirmar que não se arrepende de ter viajado, Rafael diz que sua compreensão da guerra mudou. Quando deixou o Brasil, buscava experiência e oportunidades para o futuro.

A convivência com cidades destruídas e famílias obrigadas a abandonar suas casas, porém, alterou sua perspectiva.

Hoje, ele considera que o conflito não pertence aos brasileiros e avalia que estrangeiros nem sempre recebem reconhecimento proporcional aos riscos assumidos. Rafael também afirma que não recebeu remuneração durante o período em que esteve na Ucrânia.

Questionado se retornaria, respondeu que a constante evolução de drones e armamentos ainda despertaria seu interesse, mas ponderou que a tecnologia tornou o conflito cada vez mais perigoso.

Surpresa - Rafael conta que apenas um tio sabia que ele estava retornando. Foi para a casa dele que o jovem seguiu antes de preparar o reencontro com a mãe. A avó precisou ser avisada previamente para que o impacto da surpresa não colocasse sua saúde em risco.

Depois de abraçar a mãe no trabalho, Rafael ainda esperava a chegada do pai, que também seria surpreendido.

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…