Ir para o conteúdo
Eleições 2026 Verificado pela ULTRA

Globo cancela último debate presidencial após decisões do TSE e do STF; entenda o caso Renan Santos

Lula faltou, o TSE vetou o púlpito vazio, Flávio desistiu e Gilmar Mendes mandou incluir Renan Santos. A emissora alegou insegurança jurídica e cancelou o confronto a três dias da eleição.

11 min de leitura
Globo cancela último debate presidencial após decisões do TSE e do STF; entenda o caso Renan Santos

● ELEIÇÕES 2026

O debate estava marcado para as 21h30 de Brasília (20h30 em Mato Grosso do Sul) desta quinta-feira (1º/10). O cancelamento foi anunciado pela Globo às 20h39 de Brasília.

Os candidatos que foram à TV Globo, no Rio de Janeiro, chegaram a ocupar a sala de imprensa e o cenário estava montado. Às 20h39 de Brasília desta quinta-feira (1º/10), menos de uma hora antes do início, a emissora anunciou que o último debate presidencial antes do 1º turno estava cancelado.

A decisão veio depois de uma sequência de decisões judiciais nas horas anteriores. A primeira, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio reservado a Lula (PT), que já havia avisado que não iria. A segunda, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a emissora incluir Renan Santos (Missão) no lugar do presidente. No meio delas, Flávio Bolsonaro (PL) também desistiu.

Entenda em 5 pontos

  • Lula não iria. O presidente avisou a Globo na quarta (30/9) que faltaria. Pelas regras assinadas por todos os partidos, inclusive o PT, o púlpito dele ficaria vazio, com placa de identificação.
  • O TSE derrubou o púlpito vazio. A pedido da coligação de Lula, a ministra Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito e as perguntas ao ausente.
  • Flávio desistiu. O candidato do PL anunciou que não iria mais, alegando "censura imposta ao evento pelo TSE".
  • O STF incluiu Renan. O ministro Gilmar Mendes mandou a Globo colocar Renan Santos (Missão) na vaga de Lula, derrubando decisão do presidente do TSE.
  • A Globo cancelou, citando "insegurança jurídica" e "interferência indevida" na liberdade de organizar debates. O 1º turno termina sem nenhum confronto entre os dois líderes das pesquisas.

Em nota, a Globo afirmou que "as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais". A emissora agradeceu aos candidatos que compareceram: Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo).

Os debates presidenciais do 1º turno de 2026

4debates marcados por emissoras e consórcios
1realizado (Band, em agosto), sem Lula, Flávio e Zema
3cancelados: consórcio (14/9), Record/Estadão (27/9) e Globo (1º/10)
0confrontos entre Lula e Flávio na TV

Fonte: levantamento da Folha de S.Paulo. O debate da Band teve o menor número de participantes desde 1989.

Como o debate caiu, hora a hora

Linha do tempo: como o debate caiu

23/9Globo divulga a lista de convidados pelo critério legal: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). Renan Santos fica de fora.
29/9O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, aceita o argumento do Novo de que vale a bancada atual (cinco deputados), e não a de 2022. Romeu Zema entra no debate.
30/9O Missão pede ao TSE a inclusão de Renan na vaga de quem faltasse. A campanha de Lula avisa a Globo, à tarde, que ele não irá.
30/9 e 1º/10Nunes Marques nega o pedido de Renan: as regras permitiam convidá-lo, mas não obrigavam. No STF, Cármen Lúcia não analisa a ação do Missão por considerar o instrumento inadequado.
1º/10, tardeA pedido da coligação de Lula, a ministra Estela Aranha (TSE) suspende o item da ata que previa o púlpito vazio e as perguntas ao ausente.
1º/10, noiteFlávio Bolsonaro anuncia no X que não vai ao debate, citando "censura imposta ao evento pelo TSE".
1º/10, 19h37Gilmar Mendes (STF), a pedido do Solidariedade, anula a decisão de Nunes Marques e manda a Globo incluir Renan na vaga de Lula.
1º/10, 20h39A Globo anuncia o cancelamento do debate.
1º/10, 20h45Lula dá entrevista ao Flow Podcast. Mais tarde, Flávio faz live no YouTube, e Renan discursa para apoiadores na porta da Globo, no Rio.

Horários de Brasília. Em Mato Grosso do Sul, uma hora a menos.

A briga do púlpito vazio

A regra do candidato ausente não foi uma surpresa de última hora. Ela constava do item 7 da ata do debate, negociada com a Globo e assinada pelos representantes de todos os partidos convidados, inclusive o PT.

O que dizia o item 7 da ata, assinado pelo PT

"Candidato ausente. Se algum candidato convidado faltar ao debate, o seu lugar permanecerá vazio, com uma placa que o identifique pelo nome."

Na vez em que ele faria a pergunta, o lugar seria mostrado em destaque, e o mediador lembraria a ausência. Na primeira rodada de tema livre, cada candidato presente poderia usar 30 segundos para dizer o que perguntaria ao ausente, sem ofensas pessoais.

A ata foi assinada pelos representantes de todos os partidos convidados. Pelo PT, assinou o advogado Gabriel Fialho Filho, segundo a CNN Brasil.

Nesta quinta, a coligação de Lula, "Brasil Pronto Pra Mais", pediu ao TSE a suspensão desse item. A ministra Estela Aranha concordou. Para ela, a cláusula tinha "aparente intuito de compelir os candidatos a comparecer ao debate, renunciando à facultatividade de participação assegurada em lei". A ministra escreveu que, mesmo com o regulamento assinado, a participação continua opcional, e que a consequência da ausência deve ser apenas perder a chance de falar, sem punições que funcionem como coerção.

Para Flávio, a decisão foi "censura". Minutos depois, ele anunciou que também não iria. Mais tarde, em vídeo ao lado de aliados como Tereza Cristina, de Mato Grosso do Sul, Pablo Marçal e Adolfo Sachsida, disse que não compactuaria "com a censura e a interferência do Judiciário nas eleições" e fez uma transmissão ao vivo no YouTube no horário do debate.

Por que Renan Santos estava fora do debate

O caso de Renan Santos é o mais técnico da noite, e o que mais confunde. Ele não foi barrado por um único motivo, mas por uma combinação de lei, regulamento da emissora e decisões judiciais que se contradisseram ao longo do dia.

Por que Renan Santos ficou fora do debate

  1. A lei não garantia a vaga. A Lei das Eleições só obriga as emissoras a convidar candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional. O Missão, partido de Renan, tem um deputado federal.
  2. A regra da Globo era opcional. O regulamento previa que, se alguém desistisse, a emissora poderia chamar o candidato mais bem colocado na pesquisa Quaest de 28/9 entre os que não tinham vaga garantida. Renan, com 3%, era o primeiro da fila. Mas o texto dizia que o convite ficava "a exclusivo critério" da Globo, que não o chamou.
  3. O TSE negou. Kassio Nunes Marques reconheceu que Renan se encaixava no critério, mas concluiu que isso "não equivale a convite".
  4. O STF primeiro não analisou. Cármen Lúcia rejeitou a ação do Missão por entender que aquele tipo de processo não servia para discutir o convite a um candidato específico.
  5. Depois, o STF mandou incluir, mas era tarde. Gilmar Mendes, a pedido do Solidariedade, escreveu que, como Renan "atende ao requisito objetivo previsto no próprio regulamento do debate, sua exclusão não pode se dar ao talante da emissora". Para o ministro, a Globo criou uma expectativa legítima ao incluir o candidato nas sabatinas do Jornal Nacional. Pouco mais de uma hora depois, a emissora cancelou o debate.

Resumo: Renan não chegou a ser barrado no fim. Ele começou fora pela regra legal e por decisão da emissora, perdeu no TSE e em uma primeira tentativa no STF, ganhou na segunda, mas o debate deixou de existir.

Um detalhe chamou atenção nos bastidores: o pedido que deu vitória a Renan no STF não foi feito pelo Missão, mas pelo Solidariedade, partido presidido pelo deputado Paulinho da Força, que pediu a Gilmar Mendes que estendesse ao candidato os efeitos de uma decisão anterior sobre liberdade de expressão no período eleitoral. A decisão de Gilmar anulou a de Nunes Marques, presidente do TSE, em mais um episódio de atrito entre ministros das duas cortes nesta campanha.

Renan havia convocado apoiadores para um ato em frente à sede da Globo. Depois do cancelamento, discursou ali. Afirmou que participou de entrevistas no Jornal Nacional, no jornal O Globo e na GloboNews, mas que, quando chegou a discussão do debate, "ninguém mais respondia". E desafiou Flávio a debater "num bar, em qualquer lugar".

Quem é Renan Santos

Um dos fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre), Renan Santos disputa a Presidência pelo Missão, partido criado pelo grupo. Ataca tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro e tem 3% das intenções de voto no Datafolha divulgado nesta quinta, empatado com Ronaldo Caiado e atrás de Augusto Cury (4%). Participou do único debate realizado no 1º turno, o da Band, em agosto.

O que disseram os candidatos

Do estúdio da Globo, Zema, Caiado e Cury culparam Lula pelo cancelamento e criticaram o Judiciário. Lula, no Flow Podcast, disse que há tempos questiona o modelo de debate da emissora e, perguntado pelo apresentador Igor Coelho sobre a ausência, respondeu: "Gosto mais de você do que da Globo".

"Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas."

Flávio Bolsonaro (PL), no X

"Você não pode levar uma pessoa que tem 49% a debater com o que tem 1%."

Lula (PT), no Flow Podcast, no horário em que o debate iria ao ar

"Flávio, eu estou na tua cidade, eu estou na tua casa. Se precisar ir a um bar, em qualquer lugar debater, eu vou."

Renan Santos (Missão), em discurso na porta da Globo

"Nós estamos vendo a Justiça a serviço do Lula."

Romeu Zema (Novo)

"O Lula provocou tudo isso. Ele foi provocado pelo Flávio na minha cidade, em Goiânia, dizendo vai lá que eu vou lhe enfrentar. E bateu em retirada."

Ronaldo Caiado (PSD)

"O teatro da política precisa de um psiquiatra?"

Augusto Cury (Avante), na sala de imprensa da Globo

A reação das instituições

Entidades de imprensa: ABERT (emissoras de rádio e TV), ANER (revistas) e ANJ (jornais) divulgaram nota conjunta classificando as decisões como "uma agressão à liberdade de imprensa ao forçar a condução do debate em desrespeito a regras acordadas há meses entre a emissora e os partidos".

Presidente do STF: Edson Fachin divulgou nota pedindo "serenidade, consciência e confiança nas instituições" aos mais de 158 milhões de eleitores e elogiando o trabalho da Justiça Eleitoral. A nota não cita o debate diretamente.

Um 1º turno sem confronto entre os líderes

Com o cancelamento, a campanha de 2026 termina o 1º turno sem nenhum debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, que somam 85% dos votos válidos no Datafolha divulgado nesta mesma quinta. Lula não foi a nenhum debate na campanha. Flávio havia faltado ao da Band e, nesta quinta, desistiu do da Globo.

Já aconteceu antes?

  • 2006: Lula, candidato à reeleição e líder nas pesquisas, faltou aos três debates do 1º turno, incluindo o da Globo, onde sua cadeira apareceu vazia. A eleição foi ao 2º turno, e ele debateu quatro vezes com Geraldo Alckmin.
  • 1998: Fernando Henrique Cardoso não participou de debates e venceu no 1º turno.
  • 2018: Jair Bolsonaro foi aos dois primeiros debates. Depois da facada em Juiz de Fora, não voltou a participar.
  • 2022: RedeTV e TV Aparecida cancelaram debates do 1º turno porque Lula e Bolsonaro não confirmaram presença.

Segundo a Folha, é a primeira vez desde 2006 que um dos líderes das pesquisas não vai a nenhum debate televisionado no 1º turno.

O que muda para o eleitor

  • O eleitor chega ao domingo (4/10) sem ter visto Lula e Flávio frente a frente nem respondendo aos demais candidatos.
  • Quem ainda está indeciso perde a última vitrine nacional de comparação de propostas. O horário eleitoral gratuito na TV também terminou nesta quinta.
  • Se houver 2º turno, em 25/10, a disputa entre os dois primeiros colocados volta a ser regulada pelas mesmas regras, e a pressão por um confronto direto tende a crescer.
  • Para comparar propostas, os planos de governo registrados por cada candidatura estão disponíveis no site do TSE, no sistema DivulgaCandContas.

Por Amin Feres, redator da ULTRA NOTÍCIAS, com informações da TV Globo, g1, Folha de S.Paulo, O Globo, CNN Brasil, Poder360, UOL e Projeto Comprova. A ULTRA NOTÍCIAS não apoia candidatos.

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…