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Agronegócio

Fim da escala 6×1: o Congresso aprovou, mas quem sustenta a mudança?

A mudança na jornada atende a uma demanda legítima, mas exige um projeto econômico que sustente emprego, renda e produtividade

4 min de leitura
Fim da escala 6×1: o Congresso aprovou, mas quem sustenta a mudança?

Há uma razão simples para a força política da mudança da escala seis para um: quem trabalha seis dias e descansa apenas um sabe quanto custa ficar longe da família e deixar a própria vida para depois.

Essa realidade precisa ser reconhecida por quem discute o assunto no Congresso, nas empresas ou na campanha eleitoral.

O Senado aprovou a proposta de mudança por 75 votos a favor e um contrário, nos dois turnos. O texto, já aprovado pela Câmara, segue para promulgação e prevê duas folgas semanais, sem redução salarial.

A jornada máxima cai de 44 para 42 horas após 60 dias da promulgação e chega a 40 horas ao fim de uma transição de 14 meses.

O tamanho da votação também permite uma leitura política. Na reta final da eleição presidencial, contrariar uma proposta com esse apelo significa assumir um desgaste que poucos estão dispostos a enfrentar.

Vejo nessa quase unanimidade uma combinação de convicção, pressão social e cálculo eleitoral. Seria ingenuidade imaginar que o voto do trabalhador estivesse fora dessa conta.

Isso não diminui a legitimidade da reivindicação. Obriga, porém, a cobrar dos políticos a mesma disposição para enfrentar aquilo que continuará pesando na vida do trabalhador depois da eleição.

Um dia adicional de descanso tem valor. Permite acompanhar os filhos, cuidar da saúde, estudar ou simplesmente se recuperar. Para quem vive espremido entre o trabalho e o deslocamento, esse tempo faz diferença.

Mas a qualidade de vida depende também do que o salário compra. Se a renda não cobre as despesas, existe o risco de a nova folga virar mais um dia de trabalho em outra atividade.

O direito estará assegurado; a necessidade de complementar o orçamento continuará presente.

É aí que, na minha avaliação, o debate precisa avançar. Defendo que o país crie condições para que o trabalhador possa aproveitar o descanso, com emprego e renda suficientes para sustentar a família.

Manter o salário e reduzir as horas eleva o custo da hora trabalhada. O efeito sobre cada negócio dependerá da organização, da produtividade e da necessidade de contratar para cobrir os novos horários.

Empresas maiores e pequenos estabelecimentos terão capacidades diferentes de adaptação.

Há atividades que não param aos domingos, na cidade e no campo. Uma criação precisa ser alimentada, o leite precisa ser ordenhado e uma operação contínua exige equipes de revezamento.

Garantir o descanso nesses casos exige planejamento e negociação que considerem a realidade de cada atividade.

O empresário também tem responsabilidade. Rever processos, investir em tecnologia e organizar melhor as equipes são caminhos para aumentar a produção por hora e melhorar as condições de trabalho.

A redução da jornada pode estimular esse esforço, mas seu resultado não será igual nem imediato em todos os setores.

O que me preocupa é ver tanta disposição para aprovar uma medida popular e tão pouca para enfrentar os problemas que dificultam sua sustentação. O Brasil precisa de um projeto que enfrente o desequilíbrio das contas públicas, reduza a pressão sobre os juros e preserve o poder de compra dos salários.

Com estabilidade, investimento e qualificação, fica mais viável produzir melhor, remunerar melhor e distribuir os resultados do crescimento. É esse compromisso que eu gostaria de ver com a mesma força no Congresso.

Ele exige continuidade e decisões que nem sempre rendem aplausos na campanha.

O voto não encerra a responsabilidade.

A mudança da escala seis por um merece ser tratada com seriedade. Quem votou a favor assumiu uma responsabilidade que vai além da promulgação. Depois de disputar o reconhecimento pela folga, governo e Congresso precisam mostrar como vão ajudar o país a sustentar emprego, salário e crescimento.

O trabalhador continuará precisando dos três quando a eleição terminar.

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