Alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal na manhã desta quinta-feira (10), a empresária Karina Ferreira da Gama é a dona da produtora Go Up, que produz o filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), além de manter contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo.
- ONG da produtora de filme de Bolsonaro apresentou R$ 4 milhões em notas canceladas ou para si própria em contrato de wi-fi com Prefeitura de SP.
Antes de se envolver com a família de Flávio Bolsonaro (PL), Karina da Gama era promotora de literatura cristã e participou da campanha do deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também é produtor executivo do filme.
Em um prazo de apenas dois anos, a ONG fundada por ela – o Instituto Conhecer Brasil (ICB) – passou de uma pequena entidade que realizava eventos de literatura cristã com ajuda de emendas de vereadores evangélicos de São Paulo para dona de um contrato milionário de instalação de serviço de wi-fi gratuito na cidade de São Paulo.
Atualmente com 46 anos, Karina é oriunda da Brasilândia, na periferia da Zona Norte de São Paulo, e morava numa casa simples, que inclusive é alvo de um processo de usucapião na própria Prefeitura de São Paulo.
Ela sempre foi evangélica e prestava pequenos serviços de audiovisual e promoção de eventos para igrejas da região.
Polícia Civil faz buscas em ONG e na prefeitura de São Paulo.
Só que em junho de 2024, pouco meses antes da eleição municipal que reelegeu o prefeito Ricardo Nunes (MDB), a entidade de Karina foi a única empresa que apareceu para atender o chamamento público da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi nas periferias da cidade.
Após vencer o certame de candidato único e abocanhar o contrato, a ONG terceirizou os serviços de instalação desses equipamentos e contratou várias pequenas empresas que costumam fornecer sinal de internet em favelas e áreas periféricas da cidade.
O acordo era que a empresa instalasse os 5 mil pontos de internet no período de, no máximo, 12 meses. Só que a empresa não conseguiu cumprir a meta e o contrato passou por três aditivos contratuais de data, que esticaram o prazo de instalação até 2029.
ONG da produtora de filme de Bolsonaro é alvo de operação da Polícia por desvio de recurso.
Até o momento, apenas 3. 200 pontos foram instalados na cidade. A promessa é a de que a meta seja cumprida até o final deste ano. Mas o contrato diz que.
A investigação da Polícia Civil foi aberta a pedido do Ministério Público. No inquérito da operação desta segunda (1°), a promotora Marina Pedersolli diz que o contrato com a gestão Nunes tem indícios de "possível direcionamento do chamamento público, ausência de capacidade técnica da entidade contratada, suposto sobrepreço nos valores pagos pela Administração Municipal, antecipação de repasses públicos e pagamentos por serviços supostamente não executados.
A autoridade policial também menciona suspeitas de pulverização dos recursos públicos por meio de subcontratações com empresas privadas, além de possível utilização de valores oriundos do contrato público para financiamento de produção cinematográfica vinculada à investigada Karina Gama", escreveu Pedersolli.
A ONG de Karina e a produtora do filme Dark Horse (Azarão, em português) - que fala da vida do ex-presidente Jair Bolsonaro – funcionam no mesmo endereço na Avenida Paulista, Centro de SP.
O local também é sede da empresa GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural Ltda, que também pertence à Karina Gama.
Em entrevista nesta quinta-feira (1°), o prefeito Ricardo Nunes disse que o chamamento público para a escolha da ONG “ficou aberto durante trinta dias”.
O prefeito disse que uma ONG foi escolhida para prestar o serviço porque precisava de mapeamento das comunidades carentes da cidade.
Por meio de nota, a Secretaria de Inovação e Tecnologia disse que “colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações”.
Esse valor incluiu a compra de equipamentos, links de conexão, intermediação com as lideranças comunitárias e a mobilização de equipes para instalação. Ao término do primeiro ano de vigência do Termo de Colaboração, foi realizada uma readequação para a continuidade da operação e manutenção dos 3.
A gestão municipal também afirmou que "é equivocada a informação de que aditivos foram feitos para a prorrogação de prazo para a instalação de 5. 000 pontos, assim como, não procede a afirmação de que a administração municipal pagou por 5 mil pontos de wi-fi.
A gestão Nunes também afirmou que "a decisão de firmar uma parceria com uma organização social para a expansão do Programa WiFi Livre em 2024 justificou-se pela natureza da nova fase do projeto: instalação de pontos de internet em áreas vulneráveis da cidade como favelas e comunidade, o que exige uma experiência de cunho social na atuação junto a territórios periféricos, algo que não havia sido feito até então no programa.
Antes de optar pela parceria com uma OSC, a Prefeitura fez um chamamento voltado a empresas privadas, mas não houve interessados. O termo de parceria firmado com o ICB permite a subcontratação de serviços de telecomunicações em conformidade com os procedimentos e requisitos legais aplicáveis", declarou a nota.
A administração municipal reafirmou o que disse o prefeito Ricardo Nunes declarou que "a forma de seleção da entidade foi por Chamamento Público, que ficou aberto por 30 dias para a participação de quaisquer entidades interessadas, e seguiu rigorosamente a Lei Federal nº 13.
019/2014, marco regulatório das parcerias da administração pública com organizações sociais.
O ICB atendeu integralmente aos requisitos de habilitação estabelecidos no Chamamento Público, apresentando toda a documentação necessária para comprovar sua capacidade técnica, regularidade jurídica e aptidão para celebrar a parceria.
Portanto, é errado falar em licitação nessa situação. Cabe ressaltar que os apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do Município em relação ao chamamento público em 2024 foram todos sanados à época, e a própria Corte concordou com a continuidade do processo", disse.
Em conversa com o g1 por telefone em 20 de maio, ela afirmou que desconhece as notas mencionadas nesta reportagem, "mas não tem controle se um fornecedor contratado anula uma nota.
As notas fiscais do próprio instituto glosadas, fui eu mesma que apontei para a prefeitura os problemas, e eles estão sendo resolvidos na prestação de contas que estou preparando para entregar do bimestre”.
A dona da ONG informou, ainda, que o ICB e as três firmas que estão no nome dela funcionam no mesmo endereço para que possa “manter o controle sobre as empresas”.
Nesta segunda-feira (1°), a reportagem procurou a ONG para comentar a operação, mas também não recebeu retorno.
Em números
- Chamamento público da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi nas periferias da cidade
- O acordo era que a empresa instalasse os 5 mil pontos de internet no período de, no máximo, 12 m
- 00 pontos, assim como, não procede a afirmação de que a administração municipal pagou por 5 mil pontos de wi-fi
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