Um chiste que circula em círculos evangélicos: crente, para o PT, é que nem Copa do Mundo, existe só a cada quatro anos.
A tirada resume uma dificuldade crônica da esquerda em geral. Com a eleição logo ali na esquina, o partido do presidente Lula corre atrás para estreitar um fosso com as igrejas que tem se alargado nos últimos anos.
Em 2026, a movimentação parece ligeiramente mais organizada do que em campanhas anteriores. Há comitês, produção de conteúdo e uma aposta na primeira-dama Janja —que ao Fantástico já disse ser "aquela pessoa que me emociono na missa com a fala do padre, e também me emociono com o tambor, também me emociono com um hino de louvor a Deus.
O problema é que, diante da artilharia montada pela direita ao longo de anos, o PT ainda parece responder com chumbinho a um tiro de canhão. A estratégia para enfrentar a acusação de que "não gosta de evangélicos" tem um eixo claro: provar que respeita institucionalmente o segmento.
A orientação é enfatizar ações do PT voltadas aos evangélicos: sanção de datas comemorativas para a comunidade (música gospel, pastores e Marcha para Jesus) e da Lei da Liberdade Religiosa, que deu status de personalidade jurídica a igrejas no ano um de Lula no Palácio do Planalto.
Além disso, a campanha também tem reforçado o impacto dos programas sociais no segmento.
É uma tentativa de construir uma memória alternativa à narrativa bolsonarista segundo a qual a esquerda seria inimiga dos cristãos. Em vez de dizer que o partido pensa como os evangélicos, a mensagem é outra: o PT governa também para eles.
O saldo, porém, é insuficiente, e os números do Datafolha ilustram isso. A aprovação de Lula nesse segmento recuou de 37% para 30% de abril de 2025 a agosto de 2026 (a margem de erro é de três pontos para mais ou para menos).
Quando o instituto o opõe a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, o presidente mantém uma média estável de 3 a cada 10 votos nesse bloco religioso. Foi mais ou menos a votação que teve contra o pai de Flávio, Jair, em 2018 e 2022.