Não demorou muito depois da revelação de que ministros do Supremo Tribunal Federal estavam entre os convidados para a festa do banqueiro Daniel Vorcaro no Madame Satã —a infame lista com 20 homens e 120 mulheres— para que as redes sociais notassem uma ausência: a da ministra Cármen Lúcia, a única mulher na atual composição da corte.
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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres.
Na turbulenta e histórica sessão do tribunal nesta terça-feira (16), a ministra se manifestou só uma vez. "Eu estou nesta sessão, como talvez muitos de meus colegas, em estado de profunda consternação e tristeza", declarou Cármen Lúcia, em meio aos impropérios rebuscados que trocavam os colegas.
Não é prudente fazer um julgamento da moral da ministra e debater se ela iria ou não iria a eventos se convidada pelo banqueiro, se é ou não mais ética que os demais membros da Corte, principalmente porque a atual crise demonstra os perigos de alçar figuras políticas ao patamar de santo ou herói.
Há uma explicação estrutural para o aparente isolamento da ministra, fundamentalmente ligada a uma questão de gênero. Há tempos, pesquisadoras vêm apontando que a presença de mulheres na política —seja em cargos eletivos como o Congresso, seja em cargos de indicação política, como o STF— não é suficiente para que elas sejam detentoras de poder dentro desses espaços.
Um dos motivos para isso é que a política continua sendo feita fora dos ambientes institucionais, em situações produzidas para um público masculino e para o qual essas mulheres não são convidadas.
Existe uma grande diferença entre a conversa formal que um ministro pode ter no gabinete ou num almoço, seja com um de seus pares, seja com outro ator político, e a relação forjada durante horas informais de convivência num fórum no exterior, numa degustação de uísque ou numa boate com seis "suíças" para cada convidado.
A personagem Peggy (interpretada por Elizabeth Moss), recém-promovida a redatora publicitária, descobre que não está sendo convidada para participar das festas com clientes e decide aparecer em uma delas, em um clube de striptease.
Ao chegar, é recebida com olhares de surpresa pelos colegas e termina sentada no colo do empresário que eles tentam agradar. Aí chegamos a uma questão do tipo ovo-ou-galinha.
Se as mulheres não estão nesses espaços informais de poder, onde as decisões são tomadas, elas dificilmente têm poder de pautar a agenda e ampliar a presença feminina na instituição.
Não à toa, apesar dos clamores de sua base, o presidente Lula (PT) preferiu indicar homens nas três últimas vagas abertas ao STF, todos de sua confiança.
Por outro lado, se a presença delas não é relevante em termos numéricos, torna-se impossível desmantelar essa estrutura sexista que tem como representação mais caricata a festa de Halloween e o "avião para as quengas.
No Congresso, onde são menos de um quinto das parlamentares, embora sejamos mais de metade da população, a dinâmica se repete. Neste momento, não há nenhuma mulher líder de partido, federação ou bloco partidário na Câmara dos Deputados.
Nunca houve, nos 200 anos de história do nosso Parlamento, uma presidente mulher da Câmara ou do Senado. Cabe à eleitora e ao eleitor romper esse ciclo vicioso.
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