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Musica Revisado por ULTRA AI

Entrevista: José Jr fala sobre destino, fé, música, medicina e o novo álbum “Linhas Invisíveis”

Cantor e compositor mineiro fala sobre espiritualidade, o ofício de médico, influências e mais

14 min de leitura
Entrevista: José Jr fala sobre destino, fé, música, medicina e o novo álbum “Linhas Invisíveis”

Com produção de Gabriel Bullara, o disco reúne 14 faixas que transitam entre MPB, folk, indie e pop, trazendo participações de Gustavo Bertoni (Scalene), César MC e Fellipe Fernandes.

Inspirado por nomes como Belchior, Cazuza, Caetano Veloso e Gal Costa, José constrói um álbum que aproxima o cotidiano das grandes questões existenciais, sem abrir mão da delicadeza e da força poética que marcam sua composição.

Nesta entrevista ao Tenho Mais Discos Que Amigos!, José Jr fala sobre a origem de Linhas Invisíveis, explica como medicina e a música se complementam em sua trajetória, comenta as colaborações do álbum, revela as influências que moldaram sua escrita, reflete sobre o peso dos números em tempos de streaming e ainda monta a prateleira de vinis que gostaria de dividir com seu novo trabalho.

Boa leitura! Ao fim da matéria, você ouve Linhas Invisíveis.

TMDQA!: Você acredita em destino? Como isso se reflete no seu trabalho atual.

José Jr: Eu realmente acredito nessa ideia de destino, ou de algo que transcende o controle humano e o mero acaso. Acho que esse disco só existe porque vivi experiências muito pontuais que mudaram a forma como eu enxergava a vida.

Uma delas foi uma viagem à Tailândia, que me marcou profundamente e despertou muitas reflexões.

Fico pensando em como pequenos acontecimentos podem alterar completamente o rumo da nossa história. Se alguma coisa tivesse acontecido de forma milimetricamente diferente, talvez quem eu sou hoje não fosse exatamente quem eu sou.

Esse pensamento sempre mexeu muito comigo.

E isso acabou se tornando o eixo central de Linhas Invisíveis. O álbum nasce dessa tentativa de compreender essa força que costura todas as coisas. Algo que vai além da nossa compreensão, além do tempo como a gente conhece — passado, presente e futuro.

Existe uma ordem, uma narrativa sendo construída, mesmo quando, do nosso ponto de vista limitado, tudo parece caótico.

Eu acredito que existe alguém orquestrando tudo isso de uma forma muito precisa. E, por mais que algumas situações pareçam uma catástrofe quando estamos vivendo, eu gosto de acreditar que, no fim, tudo encontra um sentido.

Acho que essa ideia de que a vida está sendo cuidadosamente amarrada por linhas que nem sempre conseguimos enxergar influenciou profundamente as canções e toda a construção desse trabalho.

TMDQA!: Linhas Invisíveis é um disco cheio de perguntas. O que você descobriu sobre si mesmo enquanto escrevia essas músicas.

José Jr: É engraçado, porque esse álbum foi escrito em tempos diferentes. Algumas músicas nasceram de coisas que eu estava vivendo naquele exato momento. Outras eu escrevi sem entender muito bem por que estava escrevendo aquilo.

Só que, durante o processo de produção, de edição e de acompanhar o álbum em todos os seus detalhes, eu comecei a perceber que algumas daquelas letras faziam sentido para coisas que eu ainda viveria.

Era como se eu tivesse intuído sentimentos e experiências que só chegaram depois.

Por isso, cada vez que eu escuto Linhas Invisíveis, eu descubro alguma coisa nova sobre mim. Não sinto que seja um álbum que eu já compreendi completamente. Pelo contrário, ele continua me revelando coisas.

Acho que é um disco que vai me acompanhar por muitos anos justamente porque ele fala tanto do presente quanto do futuro.

Também percebo que ele nasce de um lugar de mais maturidade. Ele fala sobre lidar com comparação, com a insatisfação, com o peso que a gente carrega e, ao mesmo tempo, encontrar beleza na própria caminhada, inclusive nas partes difíceis.

Eu sempre fui uma pessoa que sonhou em viver algo grandioso, em ter uma vida de impacto, e esse álbum também começa a desmontar um pouco essa necessidade, mostrando que talvez exista muito valor no caminho, e não apenas no destino.

Então eu ainda estou nesse processo de descoberta. Não consigo responder essa pergunta de forma definitiva, porque acho que Linhas Invisíveis continua me apresentando versões de mim que eu ainda não conhecia.

TMDQA!: Você divide sua vida entre a medicina e a música. Existe algo que um consultório te ensinou sobre compor que você nunca aprenderia em um estúdio.

José Jr: Com certeza. Eu nunca consegui enxergar essas duas partes da minha vida como compartimentos separados. Não existe um momento em que eu entro no consultório e deixo de ser músico, ou que eu subo num palco e deixo de ser médico.

Essas duas coisas convivem o tempo todo dentro de mim.

A arte influencia profundamente a maneira como eu exerço a medicina e como eu entendo o ato de cuidar. Ao mesmo tempo, conhecer o corpo humano e conviver tão de perto com o sofrimento, com a fragilidade e também com a esperança das pessoas mudou completamente a forma como eu componho.

Isso inevitavelmente atravessa tudo o que eu escrevo.

Acho que a medicina me deu uma dimensão muito concreta da existência. Ela humanizou até a minha espiritualidade. Trouxe corpo para coisas que, talvez sem ela, ficassem apenas no campo das ideias.

Por outro lado, a arte faz o caminho inverso: ela devolve um certo mistério para a medicina. Ela me lembra que nem tudo pode ser explicado por exames, diagnósticos ou protocolos.

No fim, uma coisa sustenta a outra. Eu não saberia dizer onde termina o médico e começa o músico, porque as duas versões de mim estão sempre conversando.

TMDQA!: Há ecos de Belchior, Cazuza, Caetano e até do pop internacional nas canções. Quais artistas foram companhia durante a criação de Linhas Invisíveis.

José Jr: Eu fico muito feliz quando as pessoas percebem ecos de Belchior e Cazuza nas canções desse álbum, porque são artistas que realmente me acompanharam durante todo o processo de criação de Linhas Invisíveis.

Eu admiro muito a forma como eles escrevem, essa capacidade de dizer tantas coisas dentro de uma mesma frase, quase como uma conversa, uma declamação. Acho que essa maneira de compor acabou me influenciando ao longo da vida e, nesse disco, talvez isso tenha ficado mais evidente.

Também ouvi muita Gal Costa nesse período. Sempre fui apaixonado pela interpretação dela, pela sensibilidade. Caetano Veloso é outro artista que me inspira profundamente.

Além das composições, eu fico fascinado pela genialidade da obra que ele construiu, pela coragem de experimentar e pela quantidade de música boa que produziu ao longo da vida.

Djavan também é uma referência muito importante para mim.

A verdade é que a gente vive em um país musicalmente muito rico. Quando você está cercado por artistas desse tamanho, é impossível não ser atravessado por eles.

De certa forma, só o fato de ser brasileiro já faz com que a gente carregue um pouco dessa herança.

Se eu tivesse que destacar quem esteve mais presente durante a criação desse álbum, provavelmente diria Belchior e Cazuza. Mas, no fim, acho que Linhas Invisíveis tem pequenos fragmentos de muitos artistas que me formaram ao longo da vida.

TMDQA!: A participação do Gustavo Bertoni surgiu de uma maneira imprevisível e se tornou uma das melhores surpresas do disco. O que ele trouxe para “Beira Rio” que só ele poderia trazer.

José Jr: A participação do Gustavo Bertoni foi, de fato, uma das grandes surpresas desse álbum. Quem nos conectou foi um amigo em comum, o Gabriel Eubank, que também é um dos produtores do disco.

Quando ele comentou que o Gustavo tinha um coração muito aberto para conhecer o projeto, eu fiquei animado.

Eu já conhecia o trabalho dele com a Scalene, mas ainda não tinha mergulhado na carreira solo. Então fui ouvir a discografia dele, e aquilo me deixou muito impressionado.

Ele é um artista extremamente versátil, tem uma identidade muito própria e uma voz que consegue ser delicada e intensa ao mesmo tempo.

Confesso que também fiquei curioso para entender como nossas vozes, que pareciam tão diferentes, iriam se encontrar. E, quando ele me mandou a gravação, eu lembro de pensar: “Meu Deus, era exatamente isso que essa música precisava.” Foi como se ele tivesse encontrado um lugar dentro da canção que eu nem sabia que existia.

Durante esse processo, a gente acabou se aproximando, conversou algumas vezes, fez chamadas de vídeo, e eu descobri não só um artista brilhante, mas também uma pessoa muito generosa.

Tenho um carinho enorme por ele e fico muito feliz por essa música ter registrado esse encontro.

E aproveito para fazer uma recomendação sincera: vale muito a pena conhecer o trabalho solo do Gustavo. É de uma riqueza impressionante.

TMDQA!: “Verde Gramado”, com César MC, amarra muitas das ideias do disco. Foi a música que fez você entender qual era, de fato, o álbum que estava construindo.

José Jr: Curiosamente, Verde Gramado foi a última música escrita para o álbum. O disco já estava praticamente fechado quando eu sentei com o violão e comecei a desenhar essa canção.

Eu já queria mais uma parceria no projeto e o César MC sempre foi alguém com quem eu imaginava trabalhar.

Enquanto eu escrevia, fui percebendo que havia alguma coisa interessante acontecendo. Era como se todas as ideias que estavam espalhadas pelo álbum começassem, finalmente, a conversar entre si.

Uma influência muito importante nessa composição foi um livro que mudou a forma como eu enxergava muitas coisas: O Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mãe. Existe uma fala do personagem Crisóstomo que me marcou profundamente.

Em determinado momento, ele entende que não precisa ser outra pessoa, não precisa viver a vida de um rei ou de uma rainha; ele só precisa acolher a própria porção.

Essa ideia me atravessou de um jeito muito forte.

Acho que a comparação é uma das coisas mais destrutivas que existem. A gente olha para a vida do outro e sempre encontra motivos para achar que a nossa é menor.

Verde Gramado é quase um convite para abandonar esse lugar e encontrar beleza naquilo que nos foi confiado. Nem sempre a vida vai parecer extraordinária, mas isso não significa que ela seja menos bonita.

Talvez seja justamente por ter sido a última música que ela consegue amarrar tantas narrativas do disco. Quando escrevi essa canção, eu acho que, mesmo sem perceber completamente, o universo de Linhas Invisíveis já estava muito claro dentro de mim.

Ela acabou costurando tudo aquilo que vinha sendo construído ao longo do álbum.

E o César trouxe uma camada que eu jamais conseguiria criar sozinho. Além da interpretação, ele escreveu a parte que canta, acrescentando novas perspectivas e tornando essa conversa ainda mais rica.

Tenho muito carinho por essa música. Talvez ela seja uma das faixas que melhor traduzem o que eu quis dizer com Linhas Invisíveis.

TMDQA!: Mesmo com números impressionantes de streams e público, você percebeu que existem pessoas por trás das estatísticas. Como você faz para não perder essa perspectiva em uma carreira cada vez maior.

José Jr: Sendo muito honesto, eu acho que ainda estou aprendendo a transformar esses números em algo concreto na minha cabeça. Paralelamente à música, eu vivo a rotina da residência médica, que é bastante intensa.

Então eu não sou aquele músico que está na estrada o tempo inteiro, fazendo shows e encontrando o público toda semana.

Grande parte da minha relação com a música ainda acontece através das plataformas. Você abre um aplicativo e vê milhões de streams, milhares de pessoas ouvindo, mas aquilo continua sendo um número numa tela.

Então é um exercício constante lembrar que ali existem pessoas de verdade.

E isso é muito bonito quando eu paro para pensar. Muitas dessas canções nasceram de lugares de bastante vulnerabilidade. Algumas só existem porque eu atravessei processos que, sinceramente, eu preferia não ter vivido.

E perceber que essas mesmas músicas encontram repouso na história de outra pessoa, ajudam alguém a atravessar um momento difícil ou simplesmente fazem companhia, é algo muito especial.

Os momentos que mais me trazem de volta para essa realidade são justamente os encontros. Quando alguém me aborda na rua, no hospital, depois de uma apresentação, ou até quando eu leio um comentário contando a história por trás de uma música, eu lembro que cada stream representa uma pessoa.

Cada número é um universo inteiro, com dores, alegrias e uma história completamente diferente da minha.

Acho que esse exercício vai ter que me acompanhar pela vida toda.

TMDQA!: Se alguém nunca ouviu José Jr. e só puder escutar uma faixa de “Linhas Invisíveis”, qual você escolheria e por quê.

José Jr: Sem sombra de dúvida, eu escolheria “Estrangeiro”. Essa é uma resposta muito fácil para mim.

Foi essa música que despertou, de certa forma, o desejo de fazer esse álbum. Ela foi uma das primeiras composições e também a primeira que a gente produziu. Então existe um carinho muito especial por ela.

Eu tenho muito orgulho da escrita dessa canção. Ela nasceu de dilemas muito pessoais, de perguntas que eu carregava há muito tempo. E o curioso é que ela não responde essas perguntas.

Ela não entrega certezas. O que ela faz é me conduzir para um lugar de confiança, mesmo quando eu não tenho todas as respostas.

Enquanto eu falo sobre ela, eu até me emociono um pouco, porque essa música representa muito de quem eu sou. Ela fala dessa angústia de tentar encontrar um lugar no mundo, de buscar significado, de querer entender o propósito da própria existência.

Mas, ao mesmo tempo, ela traz uma paz: a de perceber que talvez uma vida simples também seja uma vida extraordinária.

Acho que, se alguém ouvir apenas “Estrangeiro”, vai conseguir entender um pouco da pessoa que existe por trás desse álbum. Talvez ela compreenda alguns dos meus dilemas, das minhas perguntas e, principalmente, da esperança que atravessa todas elas.

Então, se eu pudesse indicar apenas uma faixa de Linhas Invisíveis, seria essa. Tenho um carinho imenso por essa música, e sinto que ela fala por si só.

TMDQA!: Você é um grande fã de discos de vinil. Se você tivesse que organizar uma prateleira com Linhas Invisíveis e mais 5 bolachões, quais seriam as melhores companhias para o seu trabalho.

José Jr: Eu simplesmente amei essa pergunta.

Eu tenho me aventurado no universo dos vinis já tem mais ou menos um ano e fiquei completamente fascinado. Eu gosto muito da ideia de colocar um disco para tocar e ouvir um álbum inteiro, do começo ao fim, sem pular nenhuma faixa.

Parece que você consegue mergulhar naquela obra de um jeito que o streaming dificilmente proporciona. Eu acho isso fascinante.

Inclusive, Linhas Invisíveis vai ganhar uma edição em vinil, e eu estou muito animado com isso.

Antes de responder, eu até parei a entrevista para olhar minha estante e escolher cinco discos. Foi muito mais difícil do que eu imaginava. Resolvi pegar apenas álbuns nacionais que eu tenho aqui em casa.

Se vocês me chamarem para uma segunda entrevista, prometo fazer uma lista internacional também (risos).

O primeiro é A Volta de Secos e Molhados, do Secos e Molhados. É aquele da capa icônica com os integrantes de cabeça em uma bandeja. Acho um disco absolutamente revolucionário.

Depois vem Alucinação, do Belchior. Talvez seja o meu álbum favorito da vida. Sei que parece uma escolha óbvia, mas eu realmente volto para esse disco o tempo todo.

Também não poderia faltar Clube da Esquina, do Milton Nascimento e Lô Borges. Eu tenho um carinho enorme por esse álbum e, como mineiro, seria uma honra imensa imaginar Linhas Invisíveis dividindo uma prateleira com ele.

O quarto é Minha Voz, da Gal Costa. Sou completamente apaixonado por esse disco. A interpretação da Gal sempre me emociona, e esse álbum me acompanha há muito tempo.

E, para fechar, Ideologia, do Cazuza. Nesse disco está “Faz Parte do Meu Show”, que é uma das minhas músicas preferidas dele. É um álbum que sempre me inspira quando penso em composição.

Foi muito difícil escolher só cinco, porque ficaram muitos de fora. Mas, olhando para essa prateleira, eu acho que Linhas Invisíveis estaria em ótima companhia.

E obrigado pela pergunta. Acho que deu para perceber que, quando o assunto é vinil, eu realmente me empolgo.

Fontes

Informação baseada em material público de Tenho Mais Discos Que Amigos, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • Tenho Mais Discos Que Amigoslink

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