BBC News, Vá para o conteúdoNotícias.
Role, Da BBC News Brasil em São Paulo.
Em meados de junho, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi questionado em uma live se o candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos, iria "dar trabalho" nessa eleição.
Qualquer pessoa que for morder uma parte do eleitorado do Flávio, que tiver esse potencial, vai ser turbinada por setores interessados em depois 'compor' o governo, ou indicar nomes para o governo", disse Eduardo Bolsonaro.
Então, é natural, o Renan Santos só está sendo o papel higiênico de gente da Faria Lima e de outros setores da sociedade. Mas não chega a assustar", completou o filho "03" de Jair Bolsonaro.
Ao menosprezar o impacto de Renan nas eleições de 2026, Eduardo revelou, no entanto, um movimento que avança sem alarde nos corredores de bancos, gestoras de recursos e corretoras de valores: o interesse crescente de parte do mercado financeiro no candidato de 42 anos, com ensino superior incompleto, e que concorre pela primeira vez a um cargo público.
Com seu partido recém-criado a partir do Movimento Brasil Livre (MBL) — grupo que ganhou notoriedade durante as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff —, Renan tem ganhado corações na Faria Lima com um discurso que mistura elementos do ultraliberalismo econômico do presidente argentino Javier Milei com um populismo policial inspirado no salvadorenho Nayib Bukele.
Em 1º de agosto, durante o ato de lançamento da campanha de Renan Santos em São Paulo, oncinhas-pintadas de pelúcia (animal que é mascote do novo partido) vestindo camisetas pretas com a frase "prendeu, matou" eram vendidas na mesa de souvenires.
O slogan — que vai na contramão da Constituição brasileira, que proíbe a pena de morte — também podia ser vista na camiseta de alguns dos apoiadores presentes, em sua maioria jovens, homens e pessoas brancas.
Renan tem atualmente cerca de 4% das intenções de voto no primeiro turno, atrás de Lula (41%) e Flávio (34%), e próximo a Ronaldo Caiado (5%) e Romeu Zema (3%), segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil.
A BBC News Brasil conversou nos últimos dias com economistas, gestores e CEOs do mercado financeiro, que confirmam a sedução de parte do setor pelo candidato que tenta se posicionar à direita de Flávio Bolsonaro (PL).
Mas reforçam que esse apoio não pode ser generalizado, e que a Faria Lima, como qualquer outro grupo social, é formado por pessoas diversas, com opiniões políticas variadas.
Equipes de resgate buscam sobrevivents após terremoto na Colômbia deixar 132 mortos e 700 feridos.
Eclipse solar e lunar: quando e como observar os dois fenômenos previstos para agosto.
Trump assina decreto para alterar imunização contra sarampo e reduzir número de vacinas para crianças.
Escova progressiva brasileira acabou com minha saúde.
Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas.
Com cerca de 5 km de extensão, a avenida Brigadeiro Faria Lima atravessa quatro dos principais bairros nobres da capital paulista: Pinheiros, Jardim Paulistano, Jardim Europa e Itaim Bibi.
Foi a partir dos anos 1980, mas sobretudo nos anos 1990, que a região emergiu como um novo polo econômico, concentrando sedes de bancos, fundos de investimento e instituições financeiras internacionais, que antes ocupavam principalmente os entornos da avenida Paulista.
A transição geográfica refletiu uma mudança maior da economia brasileira, com a perda de protagonismo da indústria, enquanto o setor financeiro ganhava força, em meio à abertura econômica dos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, privatizações, estabilização da moeda após décadas de hiperinflação, e expansão dos mercados de crédito e investimentos.
Assim, "Faria Lima" virou sinônimo de mercado financeiro no Brasil, ainda que muitos agentes desse mercado estejam em outros locais do país, como o bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, ou cidades americanas como Nova York, Miami, Chicago e Washington.
O economista Tony Volpon é um desses expatriados da Faria Lima. Ex-diretor do Banco Central (2015-2016), com passagem pelo banco UBS e pela gestora de investimentos WHG, ele vive atualmente na capital dos Estados Unidos, onde fundou um negócio de "tokenização" de imóveis (que transforma imóveis físicos em ativos digitais, que podem ser negociados como ações).
Um dos mais vocais apoiadores de Renan Santos no mercado financeiro, Volpon conta que, no passado, foi "meio tucano" e que, em 2018, "namorou" Bolsonaro.
Porque eu via nele uma coisa disruptiva, eu gostava no Bolsonaro que ele não tinha vergonha de ser de direita", diz o economista.
Decepcionado com o ex-presidente após sua má gestão da pandemia e avanços limitados na agenda econômica, Volpon diz que se aproximou de Renan por identificar nele uma direita "não conservadora" nos costumes, e por ver no Missão uma alternativa de poder, se não para essas eleições, para 2030, quando Lula, pela idade ou por ter sido eventualmente reeleito em 2026, deverá ser carta fora do baralho eleitoral.
Vejo na direita que a fração do eleitorado que é 'Bolsonaro raiz' está diminuindo, porque as pessoas estão vendo que atrelar a direita aos psicodramas de uma família é ficar entregando resultado eleitoral para a esquerda, quando a esquerda é claramente minoritária no país nesse momento", opina Volpon.
Então, eu tenho a esperança de que o próximo ciclo eleitoral vai ser muito mais aberto, e aí eu acredito que o Renan e o Missão realmente podem ter um lugar muito mais forte.
O partido me lembra muito o que o PT fez nos anos 1980, no sentido que eles têm uma ideologia, têm proposta, têm uma militância aguerrida, e têm uma fluidez com novas mídias que é muito importante nesse momento — basta ver o exemplo de [Zohran] Mamdani em Nova York.
Volpon revela que tem apoiado o Missão financeiramente ("na pessoa física", diz ele), além de ajudar a abrir as portas do mercado financeiro ao candidato novato.
Na Faria Lima, tem uma preocupação muito maior do que na população como um todo com a questão fiscal — uma preocupação que eu compartilho. O governo Lula tem extrapolado muito a questão fiscal, então [o mercado financeiro] olha o Renan como uma nova possibilidade, algo em ascensão, quando os dois grandes políticos do país nesse momento [Lula e Bolsonaro] estão em franca decadência.
Os planos de Renan Santos para atrair votos de Flávio Bolsonaro: 'Sou o candidato da direita'28 abril 2026.
Como conquistar a Gen Z? As campanhas presidenciais testam suas armas12 junho 2026.
Além de Volpon, outro interlocutor frequente do candidato do Missão na Faria Lima é João Landau, fundador da Vista Capital, gestora de recursos carioca que tem Persio Arida (economista considerado um dos "pais" do Plano Real) como sócio conselheiro.
Na economia, estou cercado de conselheiros brilhantes, como o economista João Landau e meu correligionário Kim Kataguiri, que protocolou a PEC do Equilíbrio Fiscal", escreveu Renan, em artigo na revista Valete, publicação ligada ao MBL.
Filho de Elena Landau — ex-diretora de privatizações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que atuou como coordenadora econômica da campanha à Presidência de Simone Tebet em 2022 —, João Landau apresentou seu cenário para as eleições deste ano ao fim de julho, durante painel na Expert XP, evento que é uma espécie de "Lollapalooza do mercado financeiro", realizado anualmente pela corretora XP Investimentos.
Tenho minha teoria, apesar da dificuldade do momento, que o Lula está para perder essa eleição", disse Landau, em sua fala no evento, destacando que as pesquisas eleitorais costumam superestimar o voto da esquerda, não por serem enviesadas, mas devido à crescente abstenção, que é mais frequente entre os eleitores de baixa renda e escolaridade — justamente, a base de Lula.
O teto de Lula é muito mais baixo do que se imagina", afirmou Landau. "Mas, do outro lado, Bolsonaro, que perdeu a eleição por 1 ponto [em 2022], leu os 17 capítulos de como perder uma eleição.
O filho [Flávio] está no segundo livro de como perder uma eleição ganha, então tem uma dificuldade muito grande. Mas eu tenho mais convicção de que Lula perde do que o mercado.
A vantagem dessa eleição, acrescentou Landau, é que há outros três candidatos.
O Caiado está no banco de reservas, o Zema vem 'mineirinho' por fora, e eu tenho um viés pelo Renan, que eu acho que é uma novidade que tem no país, e que as pessoas subestimam o tamanho do MBL, que é maior do que a campanha do Flávio", afirmou.
O Renan é um CEO e tem uma militância muito engajada, então é uma novidade muito diferente que temos hoje.
Segundo uma pessoa do mercado financeiro com conhecimento da relação entre Landau e Renan Santos, eles se aproximaram após o gestor carioca se desfiliar do Novo, depois que o partido se tornou "completamente bolsonarista.
Landau então se aproximou de Kim Kataguiri, à época deputado federal pelo União Brasil, conhecendo assim o MBL e Renan, a quem o economista reputa uma inteligência fora do comum.
Ainda de acordo com essa pessoa, Landau ajudou na fundação do Missão e tem colaborado financeiramente com o partido, assim como outros agentes do mercado financeiro, que preferem não ser expostos em seu apoio ao candidato.
Eu diria que a Faria Lima está completamente 'Renanzada', tem uma onda de empresários, agro e Faria Lima interessados no Renan", diz a fonte.
Entusiasta do candidato do Missão, o gestor, que conversou com a BBC News Brasil de forma reservada, justifica o radicalismo do postulante à Presidência, da economia à segurança pública.
O cara [Renan] é radical porque ele acha que o Brasil chegou no limite. 'Eu quero fazer um ajuste fiscal no Brasil', tem que ser um ajuste fiscal radical. A discussão do 'prendeu, matou' é estranha.
É estranha, mas você precisa de um bode expiatório para unir o país.
Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, não compartilha do entusiasmo de alguns dos seus pares por Renan Santos. Ele vê com desânimo o cenário eleitoral de 2026, considerando Lula favorito "por um fio de cabelo", e não descarta a possibilidade de a campanha de Flávio Bolsonaro desmoronar ou se tornar muito fraca, com a emergência de algum novo escândalo.
Neste cenário, Sobral vê em Renan a terceira via "mais viável.
A terceira via que parece ter alguma tração — e eu não sei se vai ser nessa eleição ou vai ser em outra — é essa que o Renan Santos representa, de um cara que é um verdadeiro outsider, que briga com os dois lados, que nunca teve cargo político, e que está levando a agenda de propostas mais para o lado desses caras que foram bem-sucedidos eleitoralmente na região", analisa Sobral.
Ele cita os exemplos de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e José Antonio Kast, no Chile, além de Milei e Bukele.
Então, a fórmula para ganhar eleição da esquerda na América Latina está dada. Não sei se chegou a hora disso no Brasil, mas, se tem alguma coisa nova nessa eleição que pode (ou não) virar voto, é essa candidatura do Renan.
Se o sucesso de Renan nas urnas ainda é uma incógnita, no mercado financeiro, Sobral confirma a onda. "A Faria Lima abraça fácil essas coisas. Se o cara é novo, aparece xingando todo mundo do meio político e falando que vai fazer um ajuste fiscal, as pessoas abraçam, e tem gente ligada à Faria Lima aparentemente trabalhando com o cara ou indicando nomes para ele.
O gestor do mercado financeiro, que conversou com a BBC News Brasil de forma reservada e que tem proximidade com a campanha de Renan, confirma isso.
No time econômico, o Kim [Kataguiri], que é o superministro, já tem dez nomes que aceitaram [compor um eventual governo] — grandes nomes do mercado financeiro", diz a fonte, sem nomear quem seriam esses dez nomes "de peso.
Ricardo Campos, CEO e CIO (diretor-executivo e de tecnologia) da Reach Capital, ironiza o peso do apoio da Faria Lima nas eleições.
A Faria Lima gosta [de Renan Santos], mas de que adianta a Faria Lima gostar? Tem 53 pessoas na Faria Lima", brinca.
É que 'a Faria Lima' vira um ente inanimado, mas é meia dúzia de gatos pingados que moram todos no Itaim. Quanto isso decide do voto no Brasil? É zero.
Mas tem defensores sim [de Renan], porque a verdade é que ninguém quer votar no Flávio, todo mundo quer o Tarcísio [de Freitas, do Republicanos]. Está todo mundo com muita raiva do Bolsonaro por causa disso também, porque tinha um candidato bom, e ele escolheu um outro, única e exclusivamente por egoísmo de preservar o nome da família", afirma.
Ninguém acredita em sã consciência que ele escolheu o Flávio porque era o melhor, ou com mais chance de ganhar.
Assim, Campos é parte do mercado financeiro que está de olho mais em 2030, do que em 2026.
Já tivemos aí, de 2002 a 2026, 18 anos de governo de esquerda, e eu acho que serão mais quatro. Mas, provavelmente, depois disso, dificilmente Lula faz um sucessor.
Então, quem pensa em Lula ganhar diz: 'Poxa, também não é o fim do mundo, porque talvez seja o último governo de esquerda.
Não está claro qual projeto Renan tem na cabeça.
Veterano no mercado financeiro, o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, não ficou muito impressionado com as três vezes em que esteve com Renan Santos.
O candidato do Missão participou, no começo de junho, de encontro com clientes da gestora, que contrata pesquisas eleitorais realizadas pela Quaest.
Crédito, Divulgação/Genial Investimentos.
Estive com Renan pelo menos umas três vezes, nesse período depois que ele se lançou [candidato] e, nas conversas que tive com ele, não entendi muito bem qual é a proposta que ele está pensando, para ser muito sincero", afirma.
Não está claro qual é o projeto que ele tem na cabeça, e como ele trata de tudo ao mesmo, acaba virando uma confusão. E não vejo um grande aumento na intenção de voto para o Renan nesse momento, nem um conjunto grande de pessoas no mercado financeiro entusiasmadas com Renan.
Essa também é a impressão de Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.
Muitas pessoas [no mercado financeiro] têm falado a respeito de sua viabilidade, mas não vejo como uma empolgação", afirma Sanchez.
Esse negócio de 'Faria Lima', 'o mercado financeiro', eu sempre faço questão de desmistificar. São pessoas diversas, que têm família, não são agentes malignos. Tem gente de direita, de esquerda, é um retrato bem fiel da cidade de São Paulo.
Terremoto na Colômbia: 'Tudo no meu apartamento se mexia; pela janela, eu via os prédios ao meu redor balançarem de um lado para o outro'Há 1 hora.
Sarampo volta a acender alerta no Brasil: quem precisa se vacinar? Veja perguntas e respostas sobre a doença10 agosto 2026.
Por que Brasil não sofre com grandes terremotos, ao contrário dos países vizinhos na América Latina10 agosto 2026.
Por que empresas de IA estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo10 agosto 2026.
Fino', dinheiro e coragem: como apps exploram 'provas de masculinidade' dos entregadores, segundo sociólogo10 agosto 2026.
Cármen Lúcia participa de evento gratuito da BBC em SP sobre desinformação6 agosto 2026.
A volta por cima dos irmãos Batista: como donos da JBS saíram da Lava Jato e voltaram aos holofotes, com participação até na diplomacia mundial9 agosto 2026.
O que é o 'turismo de nascimentos' que Trump quer barrar — e o quanto ele é comum? 10 agosto 2026.
As influencers que pregam a solidão como um estilo de vida: 'Não estamos sozinhas'9 agosto 2026.
6'O que os meus professores consideravam defeitos foi o que me levou para prosperar na vida.
9Terremotos em Colômbia, Japão e Venezuela: os tremores estão ficando mais comuns.
10Por que Justiça voltou a prender o ex-marido de Maria da Penha, mulher que inspirou lei contra violência doméstica.
Em números
- Equipes de resgate buscam sobrevivents após terremoto na Colômbia deixar 132 mortos e 700 feridos
- Com cerca de 5 km de extensão, a avenida Brigadeiro Faria Lima atra
Fontes
Informação baseada em material público de BBC Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.