Foi uma das imagens mais marcantes da seca recorde na Amazônia, em 2023 e 2024: centenas de botos não sobreviveram à última ocorrência do fenômeno climático El Niño, que, associado ao aumento das temperaturas no planeta, levou à morte em massa de um dos animais mais simbólicos do bioma.
Agora, com o fenômeno voltando a se configurar com uma intensidade ainda maior, instituições, governos e comunidades locais se mobilizam para que a tragédia ambiental não se repita.
Da última vez, mais de 300 botos não resistiram a uma temperatura que chegou quase aos 41 ºC nos lagos Tefé e Coari, no Amazonas. O caso, com repercussão internacional, ilustrou um drama que se multiplicou em diversos outros lagos amazônicos, mais vulneráveis à alta dos termômetros, à seca e à redução dos níveis de oxigênio na água.
Milhões de peixes morreram, com impacto nos ecossistemas e também na alimentação e na economia locais, à base da pesca.
Os lagos são o ambiente mais vulnerável a esses eventos de seca, porque o rio tem um fluxo muito contínuo. Ele é fundo, não vai secar completamente. O rio, por ter essa turbulência, em uma velocidade alta, não esquenta da mesma maneira”, explica o pesquisador Ayan Fleischmann, engenheiro ambiental do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé.
Os alertas da Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à ONU, sobre a chegada de um novo El Niño, desta vez “muito forte”, ampliaram a vigilância na região, em um contexto em que os recordes de calor continuam a ser batidos.
A entidade antecipa que, nessas condições, pelo menos um ano entre 2026 e 2030 será o mais quente jamais registrado – marca que hoje é de 2024.
Não é só o El Niño que justificou isso. A gente teve outros elementos importantes na origem dessa seca, como o aquecimento de parte do Oceano Atlântico Tropical Norte, diferente do El Niño, que aquece parte do Pacífico”, acrescenta Fleischmann.
Tudo indica que agora vai ser um El Niño muito forte, mas que tende a afetar mais a seca do ano que vem [na Amazônia]. A gente está na expectativa de que não gere uma seca tão forte nesse período de seca de 26, entre setembro, outubro e novembro.”.
O pesquisador coordena o projeto Lagos Sentinela da Amazônia, lançado em 2025 para a prevenção de uma nova catástrofe ambiental em cinco principais lagos dos rios Solimões e Amazonas.
O programa conta com a participação ativa de cerca de 50 comunidades locais nos estados do Amazonas e Pará, que atuam na troca de informações – como alterações no comportamento dos animais – e na resposta imediata a eventuais anomalias.
O objetivo é identificar com antecedência quando a situação se aproximar de um estado crítico e coordenar a reação para proteger os ecossistemas e populações. O acesso à água potável é uma das consequências mais dramáticas para ribeirinhos e moradores de áreas de várzea em períodos de seca extrema.
Por enquanto, os níveis da água, da temperatura e da oxigenação estão normais, indica Fleischmann, depois de um ano em que as cheias até superaram os números habituais.
A gente tem em dois pontos do lago sensores automáticos de temperatura da água, oxigênio dissolvido, que medem esses parâmetros de dez em dez minutos em várias profundidades do lago.
Depois, em cinco comunidades, a gente tem temperatura de água sendo monitorada junto com as escolas das comunidades e também com sensores automáticos”, detalha.
Temos duas estações meteorológicas, que medem, de cinco em cinco minutos, o vento, a velocidade do vento, direção do vento, a chuva, a temperatura do ar, a umidade do ar.
A gente ainda tem seis pontos do lago que a gente monitora mensalmente, e aí já são mais de 30 parâmetros físico-químicos e biológicos. Ou seja, a gente chega nessa nova seca com uma análise bastante avançada de como é o estado do lago, a normalidade dele”, complementa.
O pesquisador sublinha que é impossível impedir uma nova mortalidade de botos, peixes e outros animais, uma vez que o aquecimento dos lagos não pode ser contido.
Entretanto, medidas como o redirecionamento das espécies para áreas menos afetadas se mostraram eficazes no último episódio de seca – algo que poderá se repetir, com o apoio técnico do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), habilitado para este tipo de operação.
Essa imprevisibilidade do clima é um fator presente agora. Isso traz, por um lado, muito medo, mas, por outro, traz uma certa tendência de mobilização em direção a uma adaptação maior”, salienta.
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