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Eles se apaixonaram e violaram a lei para ter certeza de que não eram irmãos

Um casal francês queria ter filhos, mas ambos foram concebidos com doação de esperma e os testes de DNA são ilegais na França. Como é possível ter certeza de qu

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BBC News, Vá para o conteúdoNotícias.

O problema surge quando você não sabe quem é o seu doador e começa a imaginar que é qualquer pessoa.

Arthur Kermalvezen foi concebido com esperma de um doador e passou anos vendo possíveis pais em todos os lugares aonde ia.

Imaginei que poderia ser meu professor, as pessoas que via no ônibus, e ficava com muita raiva porque é impossível viver assim", ele diz.

Adulto, ele se apaixonou por Audrey, que também foi concebida com doador, em Paris, na França. Foi ali que a questão ficou ainda mais delicada.

Audrey descreve o momento em que se conheceram como "amor à primeira vista". Mas seria esta conexão uma atração amorosa ou genética.

Quando eles nasceram, havia apenas dois bancos de esperma em Paris e muitos homens faziam múltiplas doações. Por isso, havia a possibilidade real de que eles fossem meios-irmãos.

E, antes de construírem sua vida juntos, Arthur e Audrey precisavam saber se havia um relacionamento genético entre eles. Mas as leis da França que regulamentam os testes genéticos e o anonimato dos doadores dificultavam muito a obtenção desta resposta.

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Por isso, companhias especializadas como a 23andMe, Ancestry e MyHeritage não disponibilizam seus kits na França.

A lei existe desde 1994. Seus defensores afirmam que ela impede o fornecimento de dados genéticos sensíveis para empresas comerciais e evita disputas familiares causadas por resultados inesperados.

Mas Arthur destaca que a França é o único país da Europa que criminaliza o uso desses testes.

O encontro do casal durante o ativismo.

Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas.

Os pais de Audrey contaram sobre sua concepção quando ela tornou-se adulta. Mas antes disso ela já havia se formado advogada, com especialização em bioética e direito.

Por isso, ela sabia muito bem que a legislação francesa, há mais de 30 anos, garantia o anonimato dos doadores, mesmo após a morte. Mas Audrey havia sido concebida em 1979, quando a legislação ainda não existia.

Indo atrás de outras pessoas concebidas por doadores antes de 1994, ela encontrou Arthur. Ele havia escrito um livro detalhando seu desejo de saber mais sobre suas origens biológicas.

Audrey conta que ficou surpresa ao ver como ele expressava exatamente os sentimentos que ela própria tinha dificuldade para articular.

Ambos tinham famílias amorosas, mas eram tomados por questões sobre as pessoas desconhecidas que ajudaram a gerar sua própria existência.

Quando eles se encontraram pessoalmente, a química foi imediata. Aí surgiu o problema: eles precisavam saber a verdade sobre seus pais, mas nenhuma pessoa com poder para isso estava disposta a revelar esta informação.

O teste concluiu que não havia relação entre eles. Mas o casal não sabia ao certo se o médico era de confiança. "Receávamos que ele fosse um charlatão", conta Audrey.

Eles consideraram utilizar um kit de teste doméstico para confirmar o resultado. Mas, como advogada, Audrey estava determinada a agir dentro da lei.

Por isso, em 2010, ela lançou uma série de questionamentos jurídicos ao sistema francês. Ela queria saber se o seu doador ainda estava vivo e, caso estivesse, se ele ainda gostaria de permanecer anônimo.

Será que ela poderia ter acesso a informações sobre quantas doações ele havia feito e se Arthur poderia estar entre seus meios-irmãos, sem identificar o doador.

Todos seus esforços fracassaram. Em 2015, a corte administrativa mais importante da França rejeitou seu recurso final.

Pouco depois do nascimento do seu primeiro filho, um médico concordou em investigar quais informações poderiam existir sobre seus respectivos doadores.

Segundo a lei francesa, um médico tem total acesso a este tipo de informação sobre seus pacientes, mas não pode repassá-las para eles.

O médico descobriu que seus doadores nasceram em anos diferentes. Por isso, eles não poderiam ser o mesmo homem.

A informação mudou a vida do casal, mas eles só ficaram sabendo porque um médico concordou em desrespeitar as normas.

É muito estranho", diz Audrey. "Isso significa que o médico pode saber mais do que eu sobre mim mesma.

Mesmo com este novo dado, Arthur ainda receava que eles pudessem ser primos ou relacionados de outra forma. Por isso, após anos de resistência, eles finalmente fizeram um teste de DNA doméstico.

Os ativistas afirmam que a proibição francesa pouco impediu as pessoas de realizar testes domésticos. O grupo ativista DNA Pass calcula que bem mais de um milhão de franceses já fizeram estes testes.

Muitas pessoas encomendam os kits a amigos em países onde eles podem ser obtidos legalmente, ou usando serviços de remessa em países vizinhos.

O teste não encontrou relação entre eles.

Os resultados do teste de DNA logo abriram novas portas.

Depois de passar 30 anos imaginando como seria o seu pai, Arthur finalmente fez contato com seu doador de esperma no dia de Natal, em 2017.

Mas Audrey foi quem teve o maior choque.

Entre suas coincidências de DNA, havia uma mulher chamada Sophie, que ela havia representado na Justiça. As duas mulheres haviam lutado por direitos legais similares.

Descobri que Sophie, uma mulher cujo caso defendi na Justiça, era minha irmã biológica", conta Audrey.

Audrey e Arthur levaram seu teste de DNA ao lado de outros oito ativistas concebidos por doação de esperma, em busca de acesso às suas origens.

Dos 10, quatro compartilhavam o mesmo doador: Audrey, seu irmão Peter, Sophie e o irmão de Sophie, David. O resultado comprova o risco real de que o casal tivesse o mesmo doador de esperma.

Muitos anos depois, um teste genético mostrou relação com um americano, levando Audrey ao seu doador, um homem já falecido chamado Philippe.

A mãe de Audrey escreveu uma carta para a família de Philippe, agradecendo pelo seu "presente", descrito por ela como "imensurável.

A família dele recebeu a visita de Audrey. "Todos tinham lágrimas nos olhos", relembra ela. A irmã dele nunca soube que ele era doador.

A descoberta trouxe a Audrey respostas que ela buscava há décadas. Ela soube de detalhes sobre o histórico médico da sua família biológica, viu fotografias e uma antiga filmagem de Philippe.

Posso vê-lo no vídeo, observar como ele andava e ouvir a sua voz", ela conta.

Juntos, a campanha jurídica de Audrey e o livro de Arthur trouxeram mudanças para as leis francesas de concepção com doadores.

Agora, as pessoas concebidas depois de abril de 2025 podem ter acesso a informações que identifiquem seus doadores, quando atingirem a idade adulta.

Mas a França, por enquanto, permanece sendo um dos poucos países da Europa onde os testes de DNA domésticos são proibidos. Com isso, a luta de Audrey continua.

Toda pessoa tem o direito de conhecer suas origens e saber a sua história", defende ela.

Ouça (em inglês), neste link, o episódio do programa The Gift, da BBC Rádio 4, que deu origem a esta reportagem.

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Fontes

Informação baseada em material público de BBC Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • BBC Brasillink

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