Apesar da onda anti-imigração que se espalha pelo mundo, o número de brasileiros vivendo no exterior não para de crescer e bateu um novo recorde em 2025. Foi para apoiar essa diáspora brasileira espalhada pelo mundo que a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.
O relatório consular anual do Itamaraty, divulgado no início de julho, contabilizou quase 5,3 milhões de imigrantes brasileiros no ano passado, 110 mil a mais do que em 2024.
Os dados oficiais do governo brasileiro não fazem distinção entre cidadãos em situação regular ou irregular. A contagem se baseia nas estimativas repassadas pelos consulados com base em cadastros e registros locais.
Mas a diáspora brasileira seria muito maior porque os chamados “clandestinos”, que não têm visto de residência, costumam evitar o registro oficial com medo de serem deportados.
Com o aumento do fluxo, os pedidos de assistência consular deram um salto de 55%, atingindo 95 mil atendimentos no ano passado. As demandas evidenciam a complexidade e a diversidade das situações vividas pelos imigrantes brasileiros.
Vulnerabilidade social, questões jurídicas, problemas psicológicos, choque cultural e falta de integração são algumas das dificuldades encontradas.
No ano passado, essa realidade foi ainda impactada pelo endurecimento das regras de imigração em vários países, como os Estados Unidos de Donald Trump, que deportaram milhares de brasileiros.
Para apoiar a diáspora brasileira espalhada pelo mundo, a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.
O projeto nasceu da percepção de que “a saúde mental, muitas vezes, não é priorizada durante o processo migratório”, explica a psicóloga. Segundo ela, os imigrantes geralmente estão concentrados em questões legais, financeiras e logísticas, o que faz com que o cuidado psicológico seja negligenciado.
A Navegantes tem uma equipe de 15 psicólogos e oferece atendimento psicoterapêutico intercultural online, sempre em português, em cerca de 40 países. Atualmente, atende regularmente 42 imigrantes.
Além das consultas individuais, também tem iniciativas coletivas em três áreas. O Guia de Bordo, em parceria com a BRASA (Rede Global de Estudantes Brasileiros no Exterior), é voltado para jovens que estudam no exterior.
O Projeto Farol é direcionado a empresas e expatriados, e a Comunidade CAIS reúne cerca de 200 mulheres migrantes de língua portuguesa. O objetivo do projeto é combater o isolamento e fortalecer redes de apoio.
A brasileira Dayanne Lopes Vieira, cientista de dados natural de Vitória, Espírito Santo, vive na França há nove anos. Hoje, ela é casada com um francês e mãe de uma menina de 3 anos.
Sua trajetória como imigrante foi marcada por desafios de adaptação cultural, profissional e emocional. Os primeiros anos foram difíceis devido às diferenças no ambiente de trabalho e à sensação de solidão.
Dayanne participou de reuniões de apoio da Comunidade CAIS. “Eu tive alguns apoios ao longo da minha estadia aqui na França. Quando eu busquei ajuda na Comunidade CAIS foi mais porque eu queria me conectar com mulheres, eu queria me conectar com mulheres que também eram imigrantes”, detalha.
A paulista Larisse Milato, profissional de marketing, vive fora do Brasil há 13 anos e é paciente da Navegantes há bastante tempo. Depois de passar pela Alemanha, onde teve muitas dificuldades de integração, Larisse mora há pouco mais de um ano em Paris.
Ela divide sua vida entre a França e a Arábia Saudita, onde o marido trabalha.
Para Larisse, o diferencial da Navegantes é o acompanhamento psicológico especializado para brasileiros que vivem no exterior. “O grande diferencial é que elas sabem o que estão fazendo e podem te ajudar, porque já viveram as dificuldades que um imigrante passa.
Eu não abro mão da minha terapia semanal. Faz parte da minha rotina”, afirma.
A paulista se sente integrada à cultura francesa, mas um elemento novo está complicando sua vida em Paris. “O calor está fora da curva”, diz, rindo, ao se referir às repetidas ondas de calor que atingiram a França neste verão.
Grávida, Larisse pretende se mudar de vez para a Arábia Saudita depois do parto e do fim de seu atual contrato de trabalho. As diferenças culturais no mundo árabe são ainda maiores, mas ela lembra que todo imigrante sai do país para melhorar de vida.
A catarinense Júlia Panazzolo vive na França há três anos. Ela morou dois anos em Paris e recentemente se mudou para Nice com o marido. Formada em Direito e ex-advogada, Júlia redirecionou sua carreira para a área criativa e hoje atua como criadora de conteúdo, artista plástica e professora de aquarela.
A experiência migratória trouxe desafios que ela não esperava enfrentar, e Júlia buscou ajuda no acompanhamento psicológico da Navegantes. “Na minha cabeça eu achava que ia lidar super bem com a migração.
Eu falava: ‘vou tirar de letra’, mais uma mudança. Quando eu cheguei aqui, a realidade foi outra”, lembra, citando dificuldades relacionadas à língua, ao clima, à solidão e ao início de um casamento em um novo país.
A busca por apoio psicológico foi fundamental nesse processo, e a mudança de Paris para Nice, uma cidade menor e mais ensolarada, ajudou ainda mais Júlia a ganhar confiança para falar francês, criar conexões e se sentir mais integrada.
Mesmo com os avanços, ela acredita que há um aspecto da imigração que permanece presente. “Eu acho que o fato mais difícil é que eu sempre vou me sentir imigrante”, afirma.
As mulheres, que podem ser mais vulneráveis no contexto da imigração, representam a maior parte da clientela da Navegantes. “As mulheres enfrentam desafios específicos ligados à maternidade, aos relacionamentos interculturais e à adaptação em novos contextos sociais.
Elas merecem uma atenção especial”, indica a fundadora Barbara Andrade. A psicóloga da Navegantes acaba de se mudar para Portugal para fazer um mestrado, onde vive sua primeira experiência de imigração, que “tem ampliado sua compreensão do tema”.
A Navegantes também trabalha voluntariamente com refugiados no Brasil, com retornados e com imigrantes deportados em consequência do endurecimento das políticas migratórias em outros países.
As três migrantes brasileiras entrevistadas pela RFI não enfrentaram grandes problemas burocráticos para se instalar na França, mas ouviram muitas histórias de discriminação vividas por amigos ou conhecidos.
As ondas anti-imigrantes em vários países, inclusive contra brasileiros como ocorreu recentemente em Portugal, também têm aumentado a busca por apoio psicológico.
A capacidade de resiliência dos imigrantes impressiona Barbara Andrade. “São pessoas que também, muitas vezes, conseguem transformar essa dor, essas adversidades, em um processo coletivo”, ressalta.
As comunidades de brasileiros nas redes sociais se multiplicam, e muitas imigrantes criam perfis para contar suas experiências e ajudar os compatriotas, como Dayanne que, além de cientista de dados, virou influenciadora.
Muitas ferramentas estão disponíveis para facilitar a integração e o fortalecimento da comunidade brasileira no exterior. Além da Navegantes Psicologia Intercultural, outros serviços também oferecem apoio aos imigrantes, assim como os consulados do Brasil em todo o mundo.
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Em números
- M o aumento do fluxo, os pedidos de assistência consular deram um salto de 55%, atingindo 95 mil atendimentos no ano passado