Ir para o conteúdo
Mundo Revisado por ULTRA AI

Cerâmica do Vale do Jequitinhonha chega a Paris com força feminina e leitura contemporânea

A exposição A Terra Modelada Pela Arte, aberta na quarta-feira (9) na Galeria Ricardo Fernandes, no Marais, apresenta em Paris a cerâmica do Vale do Jequitinhon

5 min de leitura
Cerâmica do Vale do Jequitinhonha chega a Paris com força feminina e leitura contemporânea

A exposição A Terra Modelada Pela Arte, aberta na quarta-feira (9) na Galeria Ricardo Fernandes, no Marais, apresenta em Paris a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, tradição mineira marcada por técnicas transmitidas entre gerações, sobretudo por mulheres.

Com 17 artistas do Coletivo do Vale, a mostra destaca a linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha e reúne obras que combinam memória, identidade territorial e criação contemporânea.

A exposição A Terra Modelada Pela Arte leva à capital francesa a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, em leitura assumidamente contemporânea. São 17 artistas reunidos em torno de uma tradição que nasceu em comunidades rurais e hoje ocupa espaço em circuito internacional de arte.

O Vale do Jequitinhonha, no nordeste mineiro, costuma aparecer nas estatísticas por seus indicadores socioeconômicos desfavoráveis. Mas, muito antes de qualquer política pública, já havia ali uma prática consolidada de modelagem do barro, transmitida entre mulheres, dentro de casa, como parte da rotina.

É nesse contexto que se inscreve a trajetória de Izabel Mendes da Cunha (1924–2014). Nascida em Itinga, ela aprendeu a trabalhar com o barro com a mãe e, inicialmente, produzia moringas para complementar a renda familiar.

Ao longo dos anos, passou a transformar esses objetos utilitários em esculturas femininas de grande presença visual, criando as célebres bonecas-moringas que se tornariam sua assinatura artística.

A curadoria de Ricardo Fernandes parte dessa história para reposicionar a cerâmica da região. “Eu já venho pesquisando arte popular brasileira há muitos anos e penso que a arte popular brasileira é a origem da nossa expressão artística atual, principalmente no âmbito da arte contemporânea”, afirma.

Para ele, a distinção rígida entre artesanato e arte não dá conta do processo criativo dessas comunidades.

Fernandes chama atenção para a dimensão feminina dessa tradição e lembra que a história do Vale começa com mulheres em situação de sobrevivência, que transformam o barro em renda e, depois, em afirmação estética.

Para ele, as bonecas representam esse movimento: “Elas criam uma verdadeira escola do saber, do conhecer.”.

Entre os artistas presentes em Paris está Augustto Ribeiro, que participa pela primeira vez de uma exposição internacional. Ele começou a trabalhar com barro aos quatro anos de idade.

Hoje, aos 27 anos, ele tenta preservar a sensibilidade da infância no trabalho. “Quando eu era criança, não tinha muita distinção de pessoas para as bonecas, eu via elas com a mesma energia de uma pessoa, tanto que quando acontecia alguma quebra numa queima, eu chorava como se um parente tivesse falecido”, lembra.

Da comunidade de Campo Buriti, na Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo, Adriana Gomes Xavier reforça a centralidade das mulheres na construção estética do Vale.

Da comunidade de Santana do Araçuaí, Andréia Andrade traz a perspectiva de quem nasceu dentro da linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha. “Eu falo que tive o privilégio de nascer em berço de barro.

Que a minha avó, a nossa grande ceramista do Vale do Jequitinhonha, a Izabel Mendes, abriu todas as portas dessa tradição de fazer as bonecas de barro”, afirma.

Para Andréia, estar em Paris é extensão de uma história familiar. “Para mim é um privilégio, uma honra estar nessa família e que a gente contar a nossa história e trazer a tradição dessas bonecas do Vale, que são peças que a gente representa sentimentos, que traz toda a beleza do Vale do Jequitinhonha através do barro”, diz.

Ela destaca o uso de materiais simples, oferecidos pela natureza. “A gente só trabalha com pigmentos naturais, de vários pigmentos do próprio barro, que tem várias cores.

São pedrinhas que a gente cata para poder tirar os pigmentos, vermelho, amarelo”, explica. “A natureza nos oferece tudo, né, para a gente criar.”.

De Cachoeira do Fanado, Alice Costa resume o que considera essencial na criação. “Não pode faltar espontaneidade”, afirma. “A pessoa tem que estar bem ciente do que ela vai fazer, né.

Ela vai fazer uma boneca, traça o jeito da boneca. A gente costuma dizer que as bonecas são parecidas muito com cada artesã, têm o traço de cada artesã.”.

A cerâmica do Vale não mudou apenas a paisagem estética da região, mas também a vida das comunidades. Priscila Lins, gerente de Agronegócios e Artesanato do Sebrae Minas, que acompanha esse processo há duas décadas, aponta mudanças concretas.

Da cidade de Turmalina, Anísia Lima lembra o período em que as peças não tinham mercado. “A gente fazia as peças, não eram tão valorizadas, às vezes ficava muito tempo sem vender”, conta.

Para Andréia Andrade, estar na França é também reconhecimento de um percurso coletivo. “A gente fica muito feliz de estar podendo participar de uma exposição na França.

É um privilégio a gente sair do Vale e mostrar a nossa riqueza para Paris”, diz. “Eu me sinto muito honrada de estar fazendo parte dessa exposição. É uma honra e uma responsabilidade muito grande.”.

A exposição A Terra Modelada Pela Arte fica em cartaz até 30 de setembro na Galeria Ricardo Fernandes, em Paris.

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…

Fontes consultadas

  • RFI Portuguêslink

Leia também

Mais em Mundo