0x Plenário do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o relatório da Polícia Federal será analisado pelos 11 ministros.
- Relatório da Polícia Federal detalha 52 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, sem respostas do ministro.
- A assimetria das mensagens se deve ao uso de visualização única e capturas de tela, recuperando apenas o que Vorcaro escreveu.
- Os contatos entre Vorcaro e Moraes ocorreram por 14 dias antes da prisão do banqueiro, com pedidos sobre medidas judiciais.
- A investigação também apura relações comerciais entre empresas de Vorcaro e o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes.
- Dois contratos somam R$ 181,2 milhões, incluindo um de R$ 131,2 milhões com edição atribuída a 'Ministro Alexandre de Moraes.
- A decisão sobre arquivar o relatório ou abrir inquérito contra Moraes está com o presidente do STF, Edson Fachin.
- O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação dos atos investigativos e o arquivamento do caso.
O relatório da Polícia Federal que colocou o ministro Alexandre de Moraes no centro de uma crise no Supremo Tribunal Federal tem uma característica que define o alcance do caso: ele reúne 52 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e nenhuma resposta do ministro.
A assimetria não é acidente de investigação. Segundo o material divulgado depois que o sigilo foi retirado, nesta última terça-feira (1º), os dois usavam mensagens de visualização única, que desaparecem do aparelho depois de abertas, e o conteúdo era enviado em capturas de tela do bloco de notas do celular.
Por isso a PF conseguiu recuperar o que Vorcaro escreveu, e não o que recebeu de volta.
O efeito prático é que o documento permite reconstruir com precisão os pedidos do banqueiro e quase nada do outro lado da conversa. Toda leitura que atribua respostas a Moraes vai além do que o material sustenta.
As perguntas foram feitas em um intervalo de duas semanas.
Os registros não começam na semana da prisão. Há perguntas de Vorcaro sobre buscas, quebra de sigilo e formas de conter medidas judiciais desde 4 de novembro de 2025, uma terça-feira.
A prisão saiu em 17 de novembro, uma segunda-feira. São 14 dias de contatos, uma média de quase quatro mensagens por dia.
Nesse intervalo, os registros também indicam encontros presenciais em 14 e 16 de novembro, sexta-feira e domingo. Em uma das mensagens anteriores a um desses encontros, Vorcaro escreveu: “Bom dia, Já estou em voo, vou pousar 14h20 e irei direto praí, tudo bem?”.
Em 15 de novembro, um sábado, veio a mensagem que deu dimensão ao caso: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. A segunda-feira seguinte era 17 de novembro, o dia em que ele foi preso no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em um jato particular com destino a Malta e, depois, a Dubai.
No dia seguinte à mensagem de sábado, Vorcaro voltou ao assunto: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. Já em 17 de novembro, perguntou se havia “alguma novidade” e se seria possível obter informação ou bloquear alguma medida.
Outras mensagens citam o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Em uma delas, o banqueiro pergunta: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.
Há ainda registros em que ele afirma não querer tomar iniciativas sem antes consultar o ministro.
O que a investigação precisa responder é se houve compartilhamento de dados sigilosos da Operação Compliance Zero, que apurava o Banco Master. As perguntas estão documentadas.
O segundo eixo da apuração são as relações comerciais entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Ou seja, o compromisso era de três anos de pagamento contínuo.
Foi nesse documento que dados técnicos do arquivo indicaram edição feita por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro acessou e editou o arquivo, e afirmou que isso ocorreu em procedimento interno para verificar eventual impedimento legal antes da contratação, sem restrição identificada.
A versão do escritório, portanto, não nega a edição: atribui a ela outra finalidade.
A existência dos contratos, por si só, não indica ilegalidade. A apuração busca esclarecer que serviços foram prestados, quanto foi efetivamente pago e se esses negócios têm relação com os contatos mantidos enquanto o banco era investigado.
O relator de uma das frentes do caso, ministro André Mendonça, retirou o sigilo de parte do processo e sinalizou intenção de levar a discussão ao plenário, possivelmente na próxima semana.
A ideia é que os 11 ministros decidam entre arquivar o relatório ou abrir inquérito para investigar Moraes.
Gonet pediu a anulação dos atos investigativos e recomendou o arquivamento. Para o procurador-geral, Mendonça não poderia ter mandado a PF investigar pessoas específicas por decisão individual, sem pedido do Ministério Público, e o caminho seria submeter o tema ao plenário antes de qualquer aprofundamento.
Marcar a sessão, no entanto, não é decisão de Mendonça nem de Gonet. A definição da pauta cabe ao presidente do STF, Edson Fachin, que ainda não anunciou quando o assunto será analisado.
Em caráter reservado, ministros avaliam que a decisão não deveria sair nesta semana, para dar tempo de examinar o documento.
No Congresso, a oposição protocolou novos pedidos de impeachment contra Moraes, um deles com mais de 60 assinaturas, articulado pelo deputado Marcel Van Hattem, e outro apresentado pelo senador Carlos Viana.
Parlamentares também pediram o afastamento de Andrei Rodrigues da direção da PF e apresentaram queixa-crime contra Gonet.
O caso deixou de ser apenas a crise financeira e a liquidação de um banco. O que está em discussão agora são as relações mantidas por um investigado com integrantes e pessoas próximas às instituições encarregadas de investigar, fiscalizar e julgar o episódio.
E a pergunta central segue sem resposta nos autos: Vorcaro apenas pedia ajuda e informação, ou recebeu dados privilegiados capazes de interferir nas medidas que estavam sendo preparadas contra ele.
4 de novembro (terça): primeiros registros de perguntas de Vorcaro sobre buscas, quebra de sigilo e medidas judiciais.
14 e 16 de novembro (sexta e domingo): datas em que, segundo o material divulgado, os registros indicam encontros entre Vorcaro e Moraes.
15 de novembro (sábado): Vorcaro pergunta se precisaria estar fora do país na segunda-feira seguinte.
17 de novembro (segunda): a segunda-feira citada na mensagem. Vorcaro é preso no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em jato particular.
1º de setembro de 2026 (terça): André Mendonça retira o sigilo. A PGR pede a anulação da apuração.
Daniel Vorcaro: ex-controlador do Banco Master, preso pela PF em 17 de novembro de 2025.
Alexandre de Moraes: ministro do STF, destinatário das mensagens citadas no relatório.
Viviane Barci de Moraes: advogada, mulher do ministro, titular do escritório que firmou os dois contratos.
André Mendonça: ministro do STF, relator da frente que apura as mensagens. Retirou o sigilo e quer levar o caso ao plenário.
Paulo Gonet: procurador-geral da República. Pede a anulação da apuração e também é citado nas mensagens.
Andrei Rodrigues: diretor-geral da Polícia Federal, citado por Vorcaro em uma das mensagens.
Edson Fachin: presidente do STF. Decide se o caso vai ao plenário e quando.
Mensagem de visualização única: recurso de aplicativos em que o texto some depois de aberto e não fica salvo no aparelho.
Nulidade de ato investigativo: pedido para que uma etapa da investigação seja anulada por ter sido feita fora das regras de competência.
Relator: ministro responsável por conduzir um processo e apresentá-lo aos colegas.
Plenário: sessão com os 11 ministros do STF, em oposição à decisão de um ministro sozinho.
Impedimento legal: situação em que um juiz não pode atuar num processo por ter interesse ou vínculo com as partes.
Liquidação de banco: encerramento da instituição pelo Banco Central, que assume o controle para pagar credores.
Dados do relatório da Polícia Federal cujo sigilo foi retirado em 1º de setembro de 2026 e do material de imprensa divulgado a partir dele.
Os citados são considerados inocentes até o trânsito em julgado de eventual condenação. A existência dos contratos, por si só, não indica ilegalidade. As manifestações reproduzidas são as que constam do material divulgado; nenhuma das partes foi ouvida diretamente por A Crítica para esta matéria.
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