Desde que o suspeito foi preso, ela tenta reconstruir a rotina com os filhos e se reaproximar da família. O recomeço passa por coisas que antes pareciam simples: dormir sozinha, levantar quando quiser e voltar a tomar as próprias decisões.
- Mulher vive 3 meses sob cárcere e perde R$ 30 mil com golpista do Tinder em Mato Grosso do Sul.
O homem que ela conhecia como Wellington Vieira da Silva, de 29 anos, é, segundo a polícia, Heliton Vargas Portela, de 31. Durante o relacionamento, a vítima afirma ter sofrido violência física, sexual, psicológica e financeira.
Heliton foi preso na sexta-feira (11) e teve a prisão preventiva mantida pela Justiça no domingo (13). O g1 procurou a Defensoria Pública, responsável pela defesa do suspeito, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Os dois se conheceram em maio pelo aplicativo de relacionamentos Tinder. No aplicativo, ele se apresentou como Wellington Vieira da Silva, disse ter 29 anos e, segundo a mulher, rapidamente conquistou a confiança dela e dos filhos.
Ela conta que o primeiro mês foi um “mar de rosas”. Ele era carinhoso com a família e, pouco tempo depois, os dois passaram a viver juntos.
Depois, segundo a vítima, o comportamento mudou.
O namorado passou a dizer que ela e os filhos corriam risco. Afirmava que o ex-marido havia contratado criminosos para matá-los e chegou a dizer que poderiam colocar fogo na casa.
Ao mesmo tempo em que alimentava o medo, apresentava-se como a única pessoa capaz de protegê-los.
A mulher conta que trocou de número e de aparelho celular, deixou de sair livremente e passou a ser monitorada. Segundo o boletim de ocorrência, o suspeito também mostrava supostas conversas da mãe e do ex-marido com ataques contra ela.
A polícia registra que as imagens podem ter sido criadas com inteligência artificial.
Aos poucos, ela se afastou da família. Afirma ter registrado boletins de ocorrência contra a mãe, o pai, o irmão, o ex-marido e o ex-cunhado por determinação do namorado.
A mãe chegou a desconfiar da identidade dele e tentou descobrir quem era o homem, mas já não conseguia falar com a filha.
Segundo a vítima, o controle também atingiu a rotina com os filhos.
Um deles tem deficiência física e mental e precisa de cuidados. A mulher conta que o namorado restringiu a participação dela nessa rotina e que outro filho, de 15 anos, passou a assumir parte das tarefas.
Dentro da própria casa, ela diz que precisava avisar até quando queria ir ao banheiro ou levantar durante a madrugada para cuidar do filho.
A mulher relata ainda ter sido agredida três vezes e sofrido violência sexual. Segundo ela, era obrigada a manter relações sexuais pelo menos quatro vezes por dia.
No boletim de ocorrência ao qual o g1 teve acesso, o caso foi registrado como sequestro e cárcere privado, falsa identidade, denunciação caluniosa, violência psicológica contra a mulher e estelionato.
O controle também chegou ao dinheiro.
Para ela, dizia que o ex-marido havia parado de pagar a pensão. Também afirmava ter dinheiro retido pela Receita Federal e prometia comprar uma casa para o casal quando os valores fossem liberados.
A história começou a mudar na sexta-feira (11), dentro da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).
A mulher havia ido até lá para acusar o ex-marido e o irmão de terem apontado armas contra ela. Segundo o relato posterior da própria vítima, a situação não aconteceu e a denúncia havia sido determinada pelo namorado.
A delegada percebeu inconsistências na história. A polícia também tinha conhecimento de uma denúncia feita pelo Ligue 180 que apontava a própria mulher como vítima de Heliton.
O suspeito acompanhava o atendimento pelo telefone. Quando conseguiu conversar reservadamente com a delegada, a mulher deixou o aparelho do lado de fora.
Foi então que viu fotos de Heliton preso anteriormente e descobriu a verdadeira identidade do homem com quem vivia.
Ela contou à polícia que os boletins de ocorrência contra os familiares haviam sido feitos sob pressão e voltou atrás na denúncia que acabara de registrar.
Para a vítima, descobrir que havia sido enganada desde o início também trouxe alívio.
Do lado de fora, Heliton aguardava a poucas quadras da delegacia, dentro de um carro e acompanhado da filha de 8 anos da mulher.
Quem era o homem que ela conhecia como Wellington.
Segundo informações repassadas pelo Tribunal de Justiça, Heliton aparece em processos criminais em Campo Grande, Ponta Porã, Nova Andradina e Maracaju. Há ainda cartas precatórias de Nova Londrina (PR) relacionadas a violência doméstica.
Em março deste ano, ele foi condenado a 6 anos e 4 meses de prisão por roubo com uso de faca, em Maracaju. A decisão estava em fase de recurso.
Depois da prisão, a mulher voltou para casa. Agora, tenta reconstruir a relação com a família e retomar a rotina com os filhos.
Ela diz que ainda sente medo. Mas, quando perguntada sobre o que sente agora que o homem não está mais dentro de casa, responde.
A liberdade, para ela, também aparece nas pequenas decisões que havia deixado de tomar sozinha: quando dormir, quando levantar e como seguir a própria rotina.
E, quando perguntada sobre o que pretende fazer daqui para frente, o desabafo é curto.
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