Imagine que você decidiu construir uma casa para sua família. Seria estranho começar comprando pisos, escolhendo torneiras ou levantando paredes antes de conversar com um arquiteto.
Antes de desenhar a primeira linha da planta, ele provavelmente faria muitas perguntas. Quantas pessoas vão morar ali? A família pode crescer? Há crianças ou idosos.
Você trabalha em casa? Costuma receber amigos? Quanto pretende gastar? Por quanto tempo espera que aquela construção atenda à família.
As perguntas não terminariam na aparência da casa. Um bom projeto precisa começar pela fundação. O arquiteto e os engenheiros precisam entender o terreno, calcular as cargas e definir uma estrutura capaz de sustentar aquilo que será construído sobre ela.
Também precisam pensar na durabilidade dos materiais, na manutenção e em como aquela residência poderá se adaptar ao passar dos anos. Afinal, uma casa pode ser construída em alguns meses, mas deveria permanecer em pé por décadas e, eventualmente, servir à geração seguinte.
Planejamento patrimonial deveria começar da mesma maneira. Antes de discutir qual investimento comprar, é preciso entender qual patrimônio se pretende construir e, principalmente, o que ele deverá sustentar.
Qual é o padrão de vida da família? Quanto precisa ser acumulado para preservar esse padrão no futuro? Há filhos cuja educação deverá ser financiada? Quando se pretende reduzir ou interromper o trabalho.
Quem depende dessa renda? E o que deverá acontecer com o patrimônio quando quem o construiu não estiver mais aqui.
É curioso que sejamos tão cuidadosos ao construir uma casa e, muitas vezes, façamos o contrário com o patrimônio. Compramos um investimento porque sua rentabilidade parece atraente, outro porque alguém recomendou, adquirimos um imóvel, contratamos uma previdência e acumulamos diferentes aplicações.
Anos depois, tentamos descobrir se todas essas peças formam aquilo de que realmente precisávamos. É como comprar portas, janelas e revestimentos antes de saber qual casa queremos construir.
Agora imagine uma residência construída sem projeto. Depois de pronta, a família percebe que faltou um quarto. Descobre que existem poucas tomadas, que a cozinha ficou pequena ou que a estrutura não permite construir o segundo andar desejado.
Quase tudo pode ser corrigido, mas será necessário quebrar paredes, refazer instalações, desperdiçar materiais e pagar novamente pela obra. O problema não estava necessariamente na qualidade do tijolo ou da janela.
Estava na ausência de um projeto anterior.
Na vida financeira, o custo de descobrir tarde também pode ser elevado. Pode-se chegar próximo da aposentadoria e perceber que o patrimônio acumulado não sustenta o padrão de vida desejado.
Uma emergência pode revelar que havia patrimônio, mas pouca liquidez. A ausência de proteção pode obrigar a família a consumir justamente os recursos destinados ao futuro.
E uma sucessão não planejada pode fazer com que um patrimônio cuidadosamente construído durante décadas seja transferido de forma diferente, mais lenta ou mais onerosa do que seu proprietário imaginava.
Por isso, um planejamento patrimonial completo precisa pensar em três momentos: construir, proteger e perpetuar. A formação de patrimônio ergue a casa; liquidez e proteção ajudam a preservar sua estrutura diante dos imprevistos; e o planejamento sucessório organiza como aquilo que levou uma vida para ser construído continuará cumprindo sua função para as próximas gerações.
Não basta pensar no tamanho da casa hoje. É preciso perguntar se sua fundação suportará o futuro e quem continuará cuidando dela amanhã.
Isso também explica por que perguntar simplesmente "qual é o melhor investimento?" pode ser tão inadequado quanto perguntar a um arquiteto "qual é o melhor material.
Para a fundação, para o telhado ou para o acabamento? Para uma casa de um andar ou de três? Um material excelente no lugar errado continua sendo uma escolha ruim.
Com investimentos ocorre o mesmo: rentabilidade, isoladamente, não define se determinada solução é adequada ao projeto.
Talvez dediquemos tempo demais escolhendo os móveis da nossa vida financeira e pouco tempo desenhando sua planta e calculando sua fundação. Um patrimônio bem planejado não é apenas aquele que cresce.
É aquele que sustenta a vida para a qual foi construído, resiste aos imprevistos e pode continuar servindo à família mesmo depois de quem colocou o primeiro tijolo já não estar presente.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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