Mais de 75% da população brasileira usa o SUS, sendo que em 1. 915 municípios do país, que representam 34% das cidades brasileiras, não existe nem sequer oferta de saúde privada.
Nesses lugares, mais de 15 milhões de pessoas dependem exclusivamente do sistema. E, quando a informação do paciente não circula, quem sente primeiro é justamente essa população.
O Brasil avançou ao criar o SUS Digital. Todos os 5. 570 municípios aderiram ao programa, e o investimento federal para fortalecer o prontuário eletrônico e a integração de dados começou.
Hoje, por exemplo, boa parte dos brasileiros consegue acessar com facilidade seu histórico de vacinação. Mas ainda estamos longe do que a saúde pública precisa.
No SUS, municípios, estados e União compartilham responsabilidades na oferta dos serviços de saúde, permitindo que um mesmo paciente passe por diferentes níveis de atendimento ao longo da sua jornada.
O problema é que exames, históricos clínicos, prescrições e diagnósticos ainda não acompanham o paciente de forma integrada ao longo da sua jornada pela rede.
Essa fragmentação produz efeitos concretos. O usuário precisa repetir sua história, exames são refeitos, decisões clínicas são tomadas com informações incompletas e filas se alongam.
Além de prejudicar o cidadão, isso reduz a eficiência do gasto público.
A interoperabilidade existe justamente para resolver esse problema. Quando sistemas conseguem "conversar" entre si, o prontuário acompanha o paciente, exames deixam de ser refeitos sem necessidade e o poder público passa a enxergar melhor o que está acontecendo.
Isso permite identificar desperdícios, prever demandas e elaborar políticas com base na realidade de cada lugar.
A discussão da interoperabilidade na saúde, em debate no Congresso, pode representar uma mudança na vida das pessoas como o Pix gerou. Se o Pix conectou o sistema financeiro e transformou a circulação do dinheiro, a interoperabilidade pode fazer o mesmo com a circulação da informação em saúde.
No setor privado, hospitais, clínicas e operadoras ainda hesitam em compartilhar dados por receio de perder pacientes ou vantagem competitiva. E esse movimento acaba afetando todo o sistema.
Todos reclamam do aumento dos custos e da baixa eficiência, mas ainda há pouca disposição para enfrentar uma das causas mais concretas desse desperdício, a informação parada.
No fim, o prontuário do paciente virou uma questão política. Integrar dados na saúde depende menos da tecnologia disponível e mais da decisão institucional, regulação e pressão pública.
Quando o sistema não conversa, o paciente espera mais e o país gasta pior ainda. E, em um país onde a maioria depende do SUS, organizar a informação é uma condição para ampliar o acesso e garantir justiça social.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Iomani Engelmann foi "Society", de Eddie Vedder.
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Em números
- Nesses lugares, mais de 15 milhões de pessoas dependem exclusivamente do sistema
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