O gargalo, porém, mudou de lugar: não está mais no capital, está nas pessoas que executam.
- Na praça de Burle Marx, o medo trava a caneta.
- Nossos museus, salas de concerto e teatros queimam por falta de contratos.
Os sinais vêm de todos os lados. Nas universidades, o país formou 128,9 mil engenheiros em 2018 e apenas 95,6 mil em 2023, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira); as matrículas em engenharia civil caíram de 358 mil para 172 mil desde 2015.
No canteiro, a sondagem da FGV Ibre mostra 41,6% das empresas da construção apontando a falta de profissionais como obstáculo aos negócios —o maior índice desde 2011—, e levantamento apresentado pelo Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) vai além: 94% das construtoras relatam escassez e 76% já reveem cronogramas por falta de gente.
A idade média do trabalhador da construção subiu de 37,4 anos em 2012 para 41,2 em 2023, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): as aposentadorias não estão sendo repostas.
Os dados mais recentes confirmam a pressão. Em julho, o país criou apenas 58 mil empregos formais, o pior julho desde 2020 —mas um em cada cinco foi na construção civil, e as obras de infraestrutura já ampliaram seu quadro em 25% neste ano, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
E isso com o desemprego está em 5,3%, o menor da série.
Nos preços, o teste decisivo: o custo da mão de obra na construção subiu 9,94% em 12 meses, o dobro da inflação, e as vagas continuam abertas. Quando a remuneração sobe e o trabalhador não aparece, a escassez virou fato econômico.
E a demografia agrava o quadro: a população em idade ativa atingirá o pico em 2033, segundo o IBGE, e passará a encolher —justamente no auge de execução das obras ora contratadas.
Não é a primeira vez. No ciclo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e das obras da Copa, o "apagão de mão de obra" foi manchete —e sumiu sem ser resolvido, porque quem o resolveu foi a recessão de 2015, eliminando a demanda.
Outros países enfrentaram a mesma colisão com métodos, não com recessões. A Austrália publica anualmente um relatório que cruza a carteira de obras públicas com a força de trabalho disponível —e o governo o usa para decidir o que licitar e quando.
O Japão, historicamente fechado à imigração, criou em 2019 um visto de "habilidades específicas" para 14 setores em escassez, incluindo a construção. A lição comum: formar trabalhadores é variável lenta; sequenciar obras e atrair braços são as variáveis rápidas.
O que fazer no Brasil? Primeiro, industrializar a construção —pré-fabricação e produtividade— para erguer mais com menos gente. Segundo, desenhar uma política migratória laboral estruturada.
O país já tem os instrumentos —Lei de Migração moderna, Acordo de Mobilidade da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), logística da Operação Acolhida —e os candidatos: cerca de 680 mil venezuelanos e dezenas de milhares de haitianos e cubanos.
Falta transformar acolhimento humanitário em política de trabalho, o que exige que conversem os ministérios que hoje se ignoram, Justiça, Trabalho, Itamaraty e Transportes, sob a Casa Civil, que já coordena a Operação Acolhida e a carteira de concessões sem conectá-las.
Terceiro, revalidar por via expressa os diplomas de engenheiros imigrantes. Quarto, sequenciar: medir a capacidade de execução do mercado antes de fixar o calendário de leilões —licitar tudo ao mesmo tempo é fabricar o próprio risco de inexecução.
Por fim, a dimensão contratual. Nos contratos de concessão, custo e prazo das obras são riscos do concessionário: escassez de mão de obra não gera direito a reequilíbrio, e o atraso é punido com desconto tarifário e multa.
Isso não protege o Estado: os licitantes dos próximos leilões precificarão o risco de não encontrar braços, em tarifas mais altas ou outorgas menores, e a conta chegará ao usuário e ao Tesouro pela porta da frente.
Medir a capacidade de execução antes de licitar é interesse fiscal do concedente. O país aprendeu a assinar contratos bilionários. Precisa agora aprender a contar mãos antes de assiná-los.
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Em números
- Nas universidades, o país formou 128,9 mil engenheiros em 2018 e apenas 95,6 mil em 2023, se
- Os e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira); as matrículas em engenharia civil caíram de 358 mil para 172 mil desde 2015
- Em julho, o país criou apenas 58 mil empregos formais, o pior julho desde 2020 —mas um
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