Entenda como a IA se infiltrou na música atual.
De "Sina de Ofélia" ao hit da Copa que listava a escalação do Brasil, várias músicas assumidamente feitas com IA se tornaram hits nos últimos anos. Aliás, a essa altura, nem artistas com rosto e voz fake são exatamente uma novidade.
Mas o uso de IA não se restringe a esses casos e, na verdade, já se infiltrou na música nacional de forma muito mais ampla. Ao g1, profissionais da indústria musical revelaram que, nos últimos anos, há grandes chances de que você tenha ouvido um hit — assinado por um artista real — feito com a ajudinha de IA.
Vejo acontecer bastante: artistas com uma certa relevância, números e destaque criando coisas com ajuda de IA", revelou um profissional da indústria ouvido pelo g1.
Abaixo, entenda como a IA se tornou rotina na criação da música atual.
Todos os músicos ouvidos pelo g1 afirmaram que há casos de IA sendo usada "em projetos de artistas de todos os tamanhos, dos pequenos aos gigantescos.
De acordo com eles, é comum o uso de IAs especializadas na criação de músicas, sendo Suno AI a mais popular. Mas segundo um profissional da indústria, até IAs "convencionais", como o ChatGPT e o Gemini, entram no bolo.
Eu não cheguei a ver ninguém criar uma letra completa com alguma ferramenta de IA, mas eu já vi bastante alguém pegar uma ideia, um início de uma letra e usar o ChatGPT ou Gemini para terminar a letra.
Se na composição ainda é um pouco mais raro, na produção, a tecnologia já se disseminou. "É comum fazer instrumentais usando o Suno e depois ir colocando instrumentos [reais] por cima para dar uma disfarçada, mas a base da música foi criada por IA mesmo.
Rola muito de gente que pega um beat sem um violão e pede a IA para gerar o violão e o arranjo da música. Ninguém tocou aquele violão, aquele violão não existe, é gerado por IA.
Ou, ao invés de juntar pessoas e gravar um coral, joga a melodia na IA, então fica um coral de IA", revela um produtor.
Também há casos em que toda a harmonia musical, ou seja, o recheio da música, é feita por IA: "Às vezes tem um beat, uma bateria... e a pessoa não sabe tocar violão.
Aí, pede o Suno para criar uma harmonia inteira.
Dá até para usar sua própria voz para gerar os vocais. É um artista muito ocupado, que gravou uma parte da música, mas não tem tempo para voltar ao estúdio? A IA pode ajudar.
Foi assim na música "Venenosa" (2024), de Pocah, MC GW e Triz. É o que conta a cantora e compositora Tállia, que já trabalhou com nomes como Anitta, Ludmilla e Iza.
A gente estava no estúdio fazendo a música com a Pocah. E o refrão 'vai Maria Fumaça...' não era aquele refrão, era um outro. Aí a Pocah foi embora e tal, a gente já tinha fechado a música.
No dia seguinte, a gente quis refazer o refrão. Eu cantei o refrão, a gente passou na IA com a voz da Pocah e mandou para a Pocah. E ela aprovou, mas já tinha gravado o restante da música, entende.
Todo o resto da música estava na voz dela.
Acabou que, no final de tudo, a música foi lançada com o refrão na minha voz com a IA da Pocah, porque ela esqueceu que não estava na voz dela e acabou não voltando no estúdio para regravar.
Então acabou que o refrão da música não é a Pocah cantando, sou eu com a IA da Pocah em cima (...). E isso foi autorizado por ela.
A música pop pode até ser complexa, mas não deve parecer: tem que ser algo que fique na cabeça e seja fácil de consumir, cantarolar e por aí vai. Por isso, há algumas "fórmulas" para fazer uma música comercial e chiclete, o que pode ser facilmente reproduzido pela IA.
O produtor Daniel Ganjaman diz que a IA está no mercado da música já há algum tempo, "e certamente será cada dia mais presente, pro bem e pro mal". E não estamos falando do uso da IA só para a parte técnica (para melhorar uma gravação, por exemplo), mas como ferramenta de criação.
Dá pra afirmar que o uso de IA já é algo bastante tangível no resultado que chega ao público. Hoje, existem plataformas que entregam tudo extremamente mastigado a partir de um direcionamento muito genérico.
Você escolhe o estilo, a tonalidade, o andamento e o elemento que você busca para a sua produção.
Faz sentido que o mercado pop tenha incorporado essas tecnologias. A lógica de funcionamento é praticamente industrial: álbuns são idealizados, produzidos, anunciados e finalizados em coisa de meses.
Com isso, a IA acaba sendo uma ferramenta útil para agilizar esse processo.
Na mix [música finalizada, com volumes ajustados], ninguém vai perceber, é mais fácil, mais rápido. E o objetivo é esse: fazer o máximo de coisas no menor tempo possível", afirma um produtor.
Se quiser ainda mais ajuda, há usuários que disponibilizam (ou vendem) prompts para chegar a um resultado próximo de músicas de artistas famosos.
Usar IA não significa, automaticamente, que a obra não envolveu criatividade humana. Ao g1, Tállia contou que usa ferramentas para mapear temas usados por estilo, conferir ortografia em diferentes idiomas e por aí vai.
Mas ela e outros músicos condenam o uso do Suno "porque fere direitos autorais": como os próprios donos da plataforma já admitiram, a ferramenta é treinada a partir de canções pré-existentes sem autorização.
Isso pode acabar gerando músicas que beiram o plágio — no último mês, a sociedade de gestão de direitos musicais alemã (GEMA) venceu um processo contra o Suno por esse exato motivo.
Apesar disso, como "Sina de Ofélia" está aí para provar, o público não parece se importar se a música é de IA. Ganjaman considera que nossa noção de arte e de subjetividade foi "sequestrada pelo mau uso dessas tecnologias.
Para ele, já existe uma lógica tão mecânica no feitio da música pop que a IA se tornou quase indiscernível. "A própria produção contemporânea da música de mercado busca essa mesma lógica, de reproduzir o que tem melhor resultado nas redes — o famigerado algoritmo.
Se o público ainda não se importa, deveria. Profissionais ouvidos pelo g1 afirmam que a IA até chega perto de um resultado humano, mas sempre há alguma estranheza: versos estranhos, gírias desatualizadas, instrumentos tortos e harmonias "esquisitas.
Com o tempo, a tendência é que alguns nomes "banquem" esse híbrido entre ideias humanas e de IA, mas pode ser que o formato se sature; outros, por sua vez, vão fazer questão de deixar claro que nenhuma IA foi envolvida, com "imperfeições" ou "sujeiras.
De toda forma, ainda é difícil pensar que todos os músicos seriam substituídos pela tecnologia. Afinal, a IA até consegue produzir um hit pop chiclete, facilitar alguns processos e favorecer o lucro.
Mas chegar em uma canção atemporal que emociona uma multidão... isso ainda depende de ideias humanas.
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Pop & Arte, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.