Servidores da Prefeitura de São Paulo relatam ter sido convocados para participar da manifestação em apoio à campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) neste domingo (18), na avenida Paulista.
Quatro funcionários de diferentes áreas da gestão municipal sem ligação entre si disseram à reportagem, sob condição de anonimato, que foram avisados por secretários ou chefes de gabinete de que haveria listas de presença com nomes dos participantes do ato deste domingo.
A reportagem questiona a Secretaria de Comunicação da Prefeitura desde a tarde de sábado (17) a respeito, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
Os funcionários dizem que a situação despertou receio entre aqueles que não desejam fazer campanha política, principalmente entre os comissionados e os servidores de carreira que ocupam cargos com gratificação.
Os avisos foram feitos verbalmente, ainda segundo os relatos feitos à reportagem na sexta-feira (16) e neste sábado, dado que convocações do tipo são vedadas pela legislação eleitoral.
Uma das pessoas disse ter sido advertida por seu superior imediato que, caso não comparecesse, poderia perder o cargo. Outra afirmou que a informação vinha sendo disseminada entre os demais servidores de uma subprefeitura.
Funcionários municipais foram chamados para uma reunião de alinhamento, realizada no sábado, em uma casa que serviu de QG para a campanha do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e que tem sido utilizada por Flávio.
Durante o encontro, como mostra o vídeo obtido pela Folha, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) pediu aos funcionários que adesivassem seus carros e fizessem campanha pelo presidenciável nas redes sociais.
Precisamos colocar adesivo nos nossos carros, colocar 22 no peito, ir para as redes sociais, participar dos atos, falar com as pessoas. A gente vai ter, sem dúvida nenhuma, uma grande vitória do Flávio Bolsonaro", disse Nunes.
A legislação eleitoral não proíbe servidores de participarem voluntariamente de atos de campanha fora do horário de expediente, desde que não haja uso da estrutura pública nem desvio de função.
Já a convocação obrigatória é vedada. Autoridades que não são candidatas, como o prefeito, podem declarar apoio.
A Folha também teve acesso a um croqui intitulado "Bloquinho do 22 — planta operacional", que detalha a distribuição de sete pontos de caminhões de som e cinco trechos de bandeiras ao longo de 840 metros da avenida Paulista.
O documento circulou entre secretários municipais e foi compartilhado por seus assessores, segundo os servidores ouvidos pela reportagem.
Para a manifestação, foram definidos pontos de concentração em diferentes locais, incluindo o Conjunto Nacional, estações de metrô como Consolação e Trianon-Masp e endereços na própria avenida Paulista, na rua Peixoto Gomide e na alameda Ministro Rocha Azevedo.
O documento identifica os responsáveis por cada ponto de som e pela coordenação dos trechos de bandeiras. Na lista, há secretários municipais, presidentes de empresas públicas e agências e subprefeitos de bairros das cinco regiões da cidade.
Os servidores foram orientados a ficar próximos de suas respectivas pastas, para que fosse feita a contagem dos presentes. O objetivo, ainda de acordo com os relatos colhidos pela Folha, era levar ao ato de Flávio um público maior que o do ato da campanha de Lula (PT) na semana passada.
Como mostrou a Folha, auxiliares de Nunes se preocuparam em superar o público petista na Paulista neste domingo, embora integrantes da campanha de Flávio minimizem o assunto.
Não houve estimativa de público no ato de Lula. Nunes também pretendia garantir a limpeza da avenida depois da manifestação e publicar vídeos comparando a via após o ato com as imagens das estações de metrô pichadas no domingo anterior.
Em 2024, relatos similares de assédio eleitoral no ambiente de trabalho envolvendo a gestão Nunes já haviam resultado em um inquérito no Ministério Público do Trabalho.
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