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Negócios

Americanas (AMER3): do rombo de R$ 20 bi ao fim da recuperação judicial

Americanas saiu da recuperação judicial após quase 4 anos. Relembre o rombo contábil, a fraude, acordo com credores e os capítulos da crise.

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A Justiça do Rio de Janeiro decretou nesta segunda-feira (19) o encerramento da recuperação judicial da Americanas (AMER3), concluindo uma etapa iniciada há três anos e nove meses e que teve origem em um dos maiores escândalos empresariais recentes do país.

  • Saiba mais: Americanas reapresenta balanços de 2021 e 2022 após a fraude.

A decisão veio após a companhia sustentar que cumpriu as obrigações previstas para os dois primeiros anos do plano homologado pela Justiça.

Desde então, a Americanas passou por recuperação judicial, revisão de balanços, negociação com credores, capitalização bilionária, investigações sobre a fraude e uma ampla reestruturação financeira e operacional.

Americanas (AMER3): ação salta 25% após Justiça decretar fim da recuperação judicial.

A Americanas havia requerido, em março, o encerramento do processo, sob a alegação de que todas as obrigações do plano foram cumpridas ao longo dos dois anos seguintes à homologação do caso.

Da descoberta das irregularidades ao fim da recuperação judicial, relembre os principais capítulos da crise.

Sergio Rial, que havia assumido a presidência da companhia poucos dias antes, e o diretor financeiro André Covre deixaram seus cargos.

Naquele primeiro comunicado, a própria empresa dizia ainda não conseguir determinar todos os impactos das inconsistências e afirmava acreditar que o efeito sobre o caixa seria imaterial.

A dimensão real do problema só começaria a aparecer nos dias seguintes.

12 de janeiro de 2023 — Mercado dimensiona o tamanho da crise.

No primeiro pregão depois da revelação, o choque chegou ao mercado. AMER3 perdeu quase 80% de seu valor em Bolsa, enquanto bancos e casas de análise suspenderam recomendações diante da falta de visibilidade sobre as contas da companhia.

19 de janeiro de 2023 — Americanas entra em recuperação judicial.

A 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro aceitou o pedido ainda naquele dia.

Pelo tamanho do passivo apresentado, o processo entrou naquele momento entre as maiores recuperações judiciais já registradas no Brasil. A companhia alegava perda acelerada da capacidade operacional após rebaixamentos de crédito e bloqueios de recursos mantidos em bancos.

Maio a setembro de 2023 — CPI da Americanas investiga o caso no Congresso.

A crise também chegou ao Congresso. Em 17 de maio de 2023, a Câmara dos Deputados instalou a CPI da Americanas para investigar as inconsistências contábeis reveladas pela companhia.

Ao longo dos meses seguintes, a comissão ouviu representantes da empresa, auditores, órgãos reguladores e outros envolvidos no caso.

Em setembro, a CPI encerrou os trabalhos sem apontar responsáveis pela fraude. O relatório final, aprovado por 18 votos a 8, argumentou que investigações policiais ainda estavam em curso e sugeriu mudanças legislativas em áreas como responsabilização de controladores e administradores e acesso de auditorias independentes a informações financeiras.

13 de junho de 2023 — Investigação aponta fraude nos balanços.

Cinco meses depois, o caso mudou de patamar. A Americanas informou que um relatório preliminar preparado por assessores indicava que suas demonstrações financeiras vinham sendo fraudadas pela diretoria anterior.

16 de novembro de 2023 — Americanas refaz as contas de 2021 e 2022.

Após quatro adiamentos, a companhia finalmente publicou as demonstrações financeiras de 2021 e 2022 já incorporando os ajustes decorrentes da fraude. Os números mostraram o tamanho da distorção existente nas contas anteriores.

27 de novembro de 2023 — Acordo abre caminho para capitalização de R$ 24 bilhões.

Poucos dias depois da apresentação das contas revisadas, a Americanas anunciou um acordo com seus principais credores financeiros para apoiar o plano de recuperação judicial.

19 de dezembro de 2023 — Credores aprovam o plano de recuperação.

Depois de quase um ano de negociações, a assembleia geral de credores aprovou o plano de recuperação judicial da Americanas. A proposta recebeu apoio de 91,14% dos votantes.

O acordo estabeleceu os caminhos para renegociação das dívidas, conversão de créditos e entrada de novos recursos na companhia. A aprovação era uma das etapas centrais para viabilizar a reestruturação financeira da varejista.

26 de fevereiro de 2024 — Justiça homologa o plano.

O plano aprovado pelos credores ganhou validade judicial em fevereiro de 2024. A 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro homologou o plano de recuperação, dando início formal aos prazos para cumprimento das obrigações negociadas.

A partir daí, o processo entrou em uma nova fase: em vez de negociar a sobrevivência imediata da companhia, a Americanas passou a executar a reestruturação acertada com credores e acionistas.

27 de junho de 2024 — Polícia Federal deflagra a Operação Disclosure.

Entre os alvos estavam o ex-CEO Miguel Gutierrez e a ex-diretora Anna Saicali. A Justiça determinou ainda medidas de busca, prisão e bloqueio de bens e valores de ex-executivos investigados.

Julho e agosto de 2024 — Capitalização muda a estrutura da Americanas.

A operação representou uma profunda reorganização da estrutura de capital da companhia. No mês seguinte, as ações foram agrupadas na proporção de 100 para 1. O grupamento não alterou o valor econômico da empresa, mas mudou a unidade de negociação de AMER3.

17 de julho de 2024 — Comitê independente confirma as fraudes.

No mesmo período, o comitê independente criado pela Americanas concluiu sua investigação. O trabalho confirmou a existência de fraude contábil envolvendo principalmente lançamentos indevidos na conta de fornecedores, contratos fictícios de VPC e operações de risco sacado incorretamente registradas nos balanços.

Segundo a companhia, os responsáveis por comandar ou orquestrar os mecanismos identificados já não integravam seus quadros. O relatório detalhado posteriormente mostrou também problemas no reconhecimento de despesas financeiras e na confirmação de determinadas operações junto a instituições financeiras.

2025 — Venda de ativos avança durante a reestruturação.

Co, dona de marcas como Imaginarium e Puket, ativo cuja alienação estava prevista no plano de recuperação judicial.

A estratégia de venda de ativos continuou em 2026 e incluiu outros negócios e imóveis, enquanto a companhia concentrava esforços no varejo e buscava reduzir sua estrutura.

25 de março de 2026 — Americanas pede para sair da recuperação judicial.

Pouco mais de dois anos após a homologação do plano, a Americanas protocolou perante a 4ª Vara Empresarial do Rio pedido para encerrar formalmente a recuperação judicial.

A companhia argumentou ter cumprido todas as obrigações previstas no plano com vencimento nos dois anos seguintes à homologação, condição estabelecida pela legislação para o encerramento do processo.

19 de outubro de 2026 — Justiça decreta o fim da recuperação judicial.

Três anos e nove meses depois da entrada na recuperação judicial, a Justiça do Rio decretou o encerramento do processo. A administração judicial e o Ministério Público haviam se manifestado favoravelmente ao pedido da Americanas, enquanto objeções apresentadas por alguns detentores de títulos emitidos no exterior foram rejeitadas pelo juízo.

O fim da recuperação judicial encerra uma etapa central da crise iniciada em janeiro de 2023, mas não apaga seus demais desdobramentos. Investigações e processos relacionados à fraude seguem caminhos próprios, enquanto a companhia entra em uma nova fase na tentativa de reconstruir suas operações e recuperar rentabilidade.

Em números

  • 27 de novembro de 2023 — Acordo abre caminho para capitalização de R$ 24 bilhões
  • Americanas (AMER3): do rombo de R$ 20 bi ao fim da recuperação judicial

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