Entrevista por Liz Sacramento O fim de semana do GP São Paulo de Fórmula 1 volta a ter música fora da pista em 2026! A F1 Fanzone ocupa o Kartódromo Ayrton Senna, área anexa ao Autódromo de Interlagos, entre os dias 6 e 8 de novembro, com encontros com pilotos e chefes de equipe, simuladores, DJs, transmissão das atividades de pista em um telão de LED e uma programação de shows incrível.
A agenda abre com João Gomes e Matuê na sexta-feira, segue com Os Paralamas do Sucesso no sábado e termina com IZA no domingo. A curadoria é de Max Viana, que também respondeu pela direção musical da edição de 2025, quando o palco recebeu Seu Jorge, Matheus & Kauan e Thiaguinho.
Filho de Djavan, Max é guitarrista, cantor, compositor e produtor. Estudou no Guitar Institute of Technology, em Los Angeles, e passou a integrar os discos e a banda do pai a partir de Bicho Solto, de 1998, antes de lançar o primeiro álbum solo, No Calçadão, em 2003; um ano antes, "Prazer e Luz", parceria dele com Jairzinho, já tinha estourado na voz de Luciana Mello.
Com o tempo, a carreira se estendeu para a produção de trilhas para TV, a curadoria e a direção artística de festivais, incluindo o show de Lucy Alves no Rock in Rio.
Em conversa com o TMDQA!, Max explica que, com a estrutura técnica resolvida, o trabalho de curadoria passa a ser sobre "as histórias que você quer contar" a cada ano, sempre levando em conta que boa parte de quem circula por Interlagos está ali pelo automobilismo.
Ele compara a Fórmula 1 às Olimpíadas, uma espécie de mostra cultural em que cada país sede exibe sua potência, e defende que, no caso do Brasil, essa potência está na diversidade.
Daí a escalação que junta a longevidade dos Paralamas, o trap de Matuê e o piseiro de João Gomes, um artista que ele vê transitando entre diferentes camadas culturais, como no projeto Dominguinho, ao lado de Mestrinho e Jota.pê, que venceu o Grammy Latino em 2025.
No anúncio da programação, Max já tinha justificado a presença de Matuê pela ligação do rapper com carros e pela comunicação com o público jovem. O ponto central da conversa, porém, é o lugar da intuição.
Max diz que a experiência em diferentes funções na música já o surpreendeu muitas vezes, tanto com artistas de que gosta menos e que emocionam multidões quanto com apostas pessoais que conquistaram o público, e resume a sua filosofia com um verso de "Rep", de Gilberto Gil: o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe.
Para ele, um evento como esse tem a chance de colocar o fã de automobilismo diante de um artista que ele nunca procuraria e transformá-lo em fã. Confira abaixo a íntegra da conversa.
TMDQA! Entrevista Max Viana TMDQA!: Uma curadoria desse tamanho envolve números, perfil de público, orçamento e planejamento. Também existe espaço para a intuição.
Na hora de escolher um artista, você costuma apostar naquilo em que acredita musicalmente ou prefere trabalhar com uma expectativa mais concreta de resultado? Max Viana: Quando você faz uma curadoria, seja de que tamanho for, você tem as suas limitações, sejam elas de orçamento, de tamanho, de palco, de capacidade de público, ou questões técnicas que já eliminam artistas com uma exigência técnica maior.
Numa situação como essa, eu não chego a ter essas limitações, porque tenho um palco muito bem estruturado, que é o da Fanzone, e o outro palco, lá de dentro, que é menor, mas também oferece condições muito boas para os artistas, tanto do ponto de vista técnico quanto do público que a gente consegue entregar.
Então, eu acho que a curadoria fica mais nas histórias que você quer contar naquele ano. Claro, tudo em consonância com o evento principal, que é o automobilismo e que já tem um público que não está necessariamente indo lá para os shows.
Está indo para a corrida. TMDQA!: Parte do público está ali principalmente pela Fórmula 1 e pode acabar assistindo a um artista que nunca procuraria espontaneamente.
Isso muda a forma como você constrói a programação? Você também pensa nesses encontros? Max Viana: Na Fanzone, a nossa ideia é ter, como de fato temos, uma venda especial para o público ver os shows.
Então existe uma mescla da galera que já está no autódromo com a galera que vai para ver os shows. Nesse sentido, um line-up diverso é o que a gente entende que faz mais sentido, porque juntamos o público da própria Fórmula 1, que já é diverso e curte automobilismo, com o público que se mobiliza para sair de casa para ver aquele show e, de certa maneira, participar de um evento que em geral pode não falar tanto com ele, seja pelo preço, seja pela voracidade com que as pessoas que gostam de Fórmula 1 compram os ingressos.
É um segmento, uma atividade, um pouco mais exclusiva nesse sentido. Então, a ideia é abrir para mais pessoas, para um público mais diverso, a possibilidade de participar de um evento tão grande como esse.
TMDQA!: João Gomes, Matuê e Os Paralamas do Sucesso representam universos musicais e gerações bastante diferentes. Quando você reúne esses nomes em uma mesma programação, o que procura além da diversidade de estilos.
Max Viana: Essa diversidade é uma coisa que a gente busca, porque o público da Fórmula 1 é diverso e a Fórmula 1 funciona um pouco como as Olimpíadas, como uma mostra cultural do país.
As etapas estão distribuídas por vários países, e cada país tenta fazer uma amostragem da sua potência cultural. Aqui no Brasil, como a gente é muito diverso, entendemos que a nossa potência está exatamente em mostrar essa diversidade.
Quando a gente traz um artista como Paralamas, como Matuê, já está falando de gerações distintas, de públicos distintos, que curtem ou começaram a curtir esses artistas em épocas distintas.
E a longevidade da carreira de um artista como os Paralamas mostra exatamente o quanto eles são capazes de atravessar gerações, atravessar épocas distintas e mostrar o seu caldeirão cultural.
Quando a gente fala do João Gomes, fala do Nordeste, fala da ascensão de um ritmo gigante, muito popular. Ao mesmo tempo, o João é um artista que transita muito bem entre as diversas camadas culturais, não só no projeto Dominguinho, mas em tudo o que ele já fez de interação com outros artistas.
Então, trazer essa riqueza toda é um desejo nosso: ter no palco da Fanzone uma amostragem cultural bem diversa do Brasil. TMDQA!: Você viveu a música de diferentes perspectivas, como guitarrista, produtor e diretor musical, inclusive acompanhando Djavan durante anos.
O que essa experiência te permite perceber em um artista que os números de audiência ou as plataformas de streaming não mostram? Tenho visto um certo movimento contra a "algoritmização" na curadoria.
Você percebe isso? E o que faz você olhar para uma apresentação e pensar: esse show precisa entrar na programação? Max Viana: A gente se acostumou a ouvir música e a ser guiado pela sensação, pela emoção, né.
A música não é uma ciência tão exata quanto os algoritmos e os números pretendem mostrar. E a minha vivência, tendo estado em vários lugares da música, como produtor musical, compositor, cantor, produtor de música para TV, curador e diretor artístico de festivais, já me fez me surpreender muito com isso.
Com coisas de que eu particularmente gosto menos, mas que são importantíssimas e tocam as pessoas de um jeito grande. E também com o contrário: coisas que me tocam, que a gente propõe para um evento, para uma situação, e ver o público curtindo, interagindo e se emocionando com aquilo.
Então, a base não são os números nem o algoritmo. A base é a sensação que alguns artistas, algumas músicas, podem causar no grande público. Eu tenho uma máxima para a curadoria de eventos assim, baseada numa música do Gil, que diz que o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe.
É tirar as pessoas da zona de conforto, daquela coisa de "vou sair para ver o artista tal de que eu gosto". Isso, claro, é totalmente o poder de escolha da audiência.
Mas, numa situação como essa, em que você já tem um público, você propõe um encontro em que ele vai se deparar com um artista que não conhecia, ou que nunca tinha visto ao vivo, e tem a chance de ver um grande show, um grande espetáculo, e também virar fã.
Acho que os festivais têm um pouco essa função de intercâmbio cultural. Aqui, esse intercâmbio é maior ainda, porque a gente está falando de pessoas que não necessariamente são tão ligadas à música, e muitas delas estão ali só pelo automobilismo.
Então tem uma graça maior em poder propor coisas que sejam diferentes, que sejam novidade para a audiência que já está ali. TMDQA!: E, olhando para o futuro, existe algum movimento da música brasileira em que você apostaria para uma próxima edição, mesmo que ainda não esteja entre os mais populares.
Max Viana: A música brasileira é muito rica, né? Esses movimentos podem revelar, com mais força ou com mais alcance, gêneros musicais ou artistas que naquele momento estão mais fortes, naquela onda.
Mas a gente não vive uma experiência musical baseada só nos ciclos, só nas ondas. Temos artistas muito grandes, perenes, que estão há muitos anos fazendo as suas carreiras com um público fiel, e eu acho que é com base nos grandes artistas que a gente monta um line-up como esse.
Aí importa menos a situação atual do artista no mercado do que a relação que ele foi capaz de construir com o público, no caso de alguém mais consagrado. No caso de um artista novo, importa a relação que ele está tendo com a audiência naquele momento, entendendo que ele tem valor artístico e cultural para estar presente num evento em que a gente busca mostrar um pouco da diversidade e da riqueza cultural do Brasil.
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Foto por Tarso Ghelli Entrevista por Liz Sacramento.
TMDQA!: Uma curadoria desse tamanho envolve números, perfil de público, orçamento e planejamento. Também existe espaço para a intuição? Na hora de escolher um artista, você costuma apostar naquilo em que acredita musicalmente ou prefere trabalhar com uma expectativa mais concreta de resultado.
Max Viana: Na Fanzone, a nossa ideia é ter, como de fato temos, uma venda especial para o público ver os shows. Então existe uma mescla da galera que já está no autódromo com a galera que vai para ver os shows.
TMDQA!: Você viveu a música de diferentes perspectivas, como guitarrista, produtor e diretor musical, inclusive acompanhando Djavan durante anos. O que essa experiência te permite perceber em um artista que os números de audiência ou as plataformas de streaming não mostram.
Tenho visto um certo movimento contra a “algoritmização” na curadoria. Você percebe isso? E o que faz você olhar para uma apresentação e pensar: esse show precisa entrar na programação.
Max Viana: A gente se acostumou a ouvir música e a ser guiado pela sensação, pela emoção, né? A música não é uma ciência tão exata quanto os algoritmos e os números pretendem mostrar.
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