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Troca de apoio à democracia da Ucrânia por petróleo da Rússia faz de Trump um traidor

Não há um valor fundamental dos EUA que o republicano não esteja disposto a vender

5 min de leitura
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Se o presidente Donald Trump não entende o que lhe acontecerá caso leve adiante seu plano de trocar o apoio à democracia da Ucrânia por diesel russo, vou explicar claramente: ele entrará para os livros de história no capítulo dedicado aos líderes que traíram os valores democráticos de seu país para apaziguar um ditador.

  • Reportagens marcam os 250 anos da independência dos Estados Unidos Em sete capítulos, os repórteres Victor Lacombe e Isabella Menon analisam momentos históricos cruciais para a formação do país e relacionar seus impactos e legados às políticas do governo de Donald Trump.
  • Capítulo 1 Estados Unidos chegam aos 250 anos em disputa sobre significado de independência.
  • Capítulo 2 Guerra Civil dos EUA libertou escravizados, mas seus direitos foram cortados com inspiração no Brasil.
  • Capítulo 3 Quase um século antes de Trump, Roosevelt expandiu poderes da Presidência para combater Grande Depressão.
  • Capítulo 4 EUA chegam aos 250 anos com legado do movimento dos direitos civis sob ameaça.
  • Capítulo 5 Guerra Fria nunca virou guerra de fato, mas ainda molda política dos EUA.
  • Capítulo 6 Após o 11 de Setembro, Guerra ao Terror tornou permanente a exceção.
  • Capítulo 7 Com entrada de Trump na política, EUA viveram década de polarização e radicalismo.

Donald Trump, conheça Neville Chamberlain (1869-1940). Quando, no futuro, estudantes pesquisarem na internet por "vendido", "apaziguador" ou "traidor dos valores fundamentais de seu país", as fotos dos dois aparecerão primeiro, lado a lado.

Ao menos Chamberlain tentava, de uma maneira que se revelou letalmente equivocada, evitar uma guerra mundial. Trump tenta evitar a perda de algumas cadeiras no Congresso —e provavelmente não terá mais êxito em alcançar seu objetivo do que Chamberlain teve em alcançar o dele.

Nunca acreditei que Trump fosse, de alguma forma, um agente do presidente russo, Vladimir Putin, ou que estivesse em sua folha de pagamento. É muito pior. Ele simplesmente não valoriza a democracia.

E não vê problema algum em vender a primeira pelo segundo. Quando age em benefício de seus próprios interesses comerciais, isso é assunto pessoal dele. Quando usa a Presidência dos Estados Unidos para ganhar dinheiro, a vergonha é de todos nós.

Simplesmente não há valor fundamental americano que Trump não esteja disposto a vender. Desesperado para reduzir os preços do diesel, que estão prejudicando o Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, Trump chegou a fazer um acordo para importar diesel da Rússia, embora isso ofereça ao Kremlin a possibilidade de obter lucros extraordinários para intensificar os bombardeios contra a Ucrânia —e provavelmente pouco ou nada contribua para reduzir os preços ou aumentar a oferta.

Pior: seus assessores pediram então a Kiev que se abstivesse de atacar as refinarias de petróleo da Rússia, sem que Trump fizesse a mesma exigência a Putin em relação à infraestrutura energética ucraniana.

Só de escrever isso, sinto meu estômago embrulhar.

Caso único entre as grandes potências, "os EUA sempre fizeram da proteção e da promoção dos valores liberais parte de sua política externa, porque isso faz parte do DNA político do país", afirmou Michael Mandelbaum, professor emérito de política externa americana na Universidade Johns Hopkins, que lançou um novo livro sobre nossa diplomacia.

Diferentes presidentes deram ênfases distintas a esses valores, dependendo das circunstâncias e de suas próprias inclinações pessoais.

Leia a série especial da Folha, 'EUA, 250 anos.

Mas nenhum deles "jamais os abandonou por completo —muito menos os repudiou", acrescentou Mandelbaum. "Nesse sentido, Trump é realmente único. É claro que todos os presidentes, inclusive ele, atuaram em um ambiente interno no qual esses valores são amplamente compartilhados, o que significa que ele pagará um preço político por violá-los.

Mas, no curto prazo, é improvável que isso ajude a Ucrânia.

Isso é chocante para os ucranianos, que há quase cinco anos resistem à tentativa de Putin de apagar seu país do mapa.

Meu amigo Vitali Sich, editor-chefe do jornal A Nova Voz da Ucrânia, enviou-me outro dia uma mensagem de Kiev: "Quando Donald Trump se tornou presidente, a Ucrânia perdeu um aliado.

Desde seus primeiros dias no cargo, Trump "começou a se apresentar como um ‘negociador’, como um ‘intermediário’ entre a Ucrânia e o agressor —a Rússia", acrescentou Sich.

Isso já era estranho o bastante. E agora ele está abertamente do lado do Kremlin, pressionando pela submissão da Ucrânia e chamando isso de acordo de paz", disse Sich.

Se a Ucrânia ataca uma refinaria de petróleo na Rússia, sempre aparece uma publicação indignada do presidente dos EUA no Truth Social. Será que agora ele é o porta-voz do Kremlin.

Há muito tempo os americanos defendem a liberdade e a democracia, afirmou Sich. "Agora defendem apenas o petróleo. Que mudança." Mísseis e drones russos matam ou ferem dezenas de civis, inclusive crianças, todos os dias, escreveu.

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