A Operação Ifrit, da Polícia Federal (PF), revelou o suposto papel central do clã Haidar no comando de uma organização criminosa investigada por tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e desvio de cocaína apreendida pela polícia.
- Maroan Fernandes Haidar Ahmed: apontado pela investigação como um dos principais líderes operacionais da organização. Mesmo após a prisão e a transferência para o sistema penitenciário federal, registros de conversas em parlatório, bilhetes e arquivos extraídos de dispositivos eletrônicos teriam demonstrado que Maroan continuava emitindo ordens relacionadas à negociação de entorpecentes, à aquisição de fuzis e pistolas, à cobrança de dívidas e aos repasses financeiros para a manutenção do grupo.
- Bassam Hassan Haidar Ahmed: pai de Maroan, é apontado como uma figura histórica e um dos principais articuladores da rede. Segundo a investigação, exercia forte influência sobre os demais integrantes e era responsável pelo contato com fornecedores estrangeiros de armas e cocaína no Paraguai, além de administrar a compra de imóveis e empresas utilizadas para ocultar patrimônio.
- Adule Vasques Haidar: apontado como integrante do núcleo diretivo operacional e logístico. Seria responsável por coordenar o transporte de carregamentos de drogas por rodovias, administrar contas bancárias da organização, efetuar pagamentos de propina e intermediar o contato com policiais suspeitos de corrupção.
- Nasser Hassan Haidar: irmão de Bassam, é apontado como integrante da alta cúpula da organização criminosa. De acordo com a investigação, atuava no financiamento de operações ilícitas, na disponibilização de recursos para familiares e outros integrantes e na administração de recebimentos internacionais por meio de casas de câmbio paraguaias.
- Adel Hassan Haidar: peça central da organização criminosa, com controle do núcleo de comando, operacional e financeiro, descrito pela Polícia Federal como o principal elo do núcleo familiar com o delegado Hoffman.
- Adule Vasques Haidar: "homem de confiança" de Nasser, Adel e Bassan, ele assumiu a gerência operacional do tráfico após a prisão de Maroan em janeiro de 2023, centralizando decisões de logística e financeiras.
- Fahd Haidar: citado como beneficiário de movimentações bancárias suspeitas destinadas a dissimular a origem e a propriedade dos valores decorrentes dos crimes.
- Mamede Alhaj Haidar: ligado ao núcleo operacional e pessoal de apoio logístico da organização criminosa, Mamede atuava no tráfico, movimentação de veículos, mercadorias e valores financeiros a serviço do grupo.
- De karaokê à selfie na delegacia: fotos revelam ligação íntima entre delegado de elite, policiais e traficantes em MS.
- Do 'clã' Haidar a delegado: os 29 alvos suspeitos de esquema internacional de cocaína com ajuda da polícia e ligação com o PCC em MS.
- O delegado de elite que é suspeito de trocar cocaína apreendida por amido e desviar droga a grupo ultraviolento ligado ao PCC.
- Grupo ultraviolento ligado ao PCC e PGC é alvo de operação que investiga participação de policiais em MS.
- Bloqueio de contas bancárias, aplicações financeiras e ativos em criptomoedas, até o limite de R$ 300 milhões.
- Apreensão de veículos de luxo, incluindo um Porsche Macan e caminhonetes blindadas, além de embarcações e aeronaves vinculadas ao investigado e a pessoas apontadas como laranjas.
- Proibição de alienação de bens e expedição de ofícios a cartórios de registro de imóveis e juntas comerciais para impedir a transferência de propriedades e participações societárias ligadas ao clã Haidar.
Policiais trocavam cocaína por amido para abastecer grupo ligado ao PCC em MS.
Entre os comparsas do grupo estariam policiais e até delegado, segundo a PF.
Conforme as investigações, a liderança da organização era dividida entre integrantes da mesma família. No centro do esquema estava Maroan Fernandes Haidar Ahmed.
Preso no Presídio Federal de Porto Velho (RO), onde cumpre pena por homicídio, Maroan é apontado pelas autoridades policiais e judiciais como um dos principais articuladores e estrategistas da organização criminosa.
Conforme relatório policial ao qual o g1 teve acesso, Maroan direcionava recursos para custear a logística do grupo, incluindo a compra e a distribuição de carregamentos de cocaína e skunk.
Ele também seria responsável por estruturar redes de proteção policial, mediante o pagamento de propina a servidores cooptados.
De acordo com a investigação, Maroan dividia a cúpula decisória da organização com o pai, Bassam Hassan Haidar Ahmed e os tios: Adel Hassan Haidar e Samir Hassan Haidar.
Na linha sucessória de comando também figuravam Nasser Hassan Haidar (filho de Bassan) e Adule Vasques Haidar (filho de Adel Hassan).
Segundo os autos do processo judicial de sequestro de bens e valores, a organização atuava a partir de Ponta Porã, cidade sul-mato-grossense na fronteira com o Paraguai, e mantinha operações em Campo Grande e em outros estados, como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso.
As conexões internacionais se estendiam ao Paraguai, à Bolívia, à Argentina, Peru e até à Espanha e Portugal, conforme a investigação.
A decisão judicial à qual o g1 teve acesso destaca que o clã utilizava uma extensa rede de parentes e outras pessoas apontadas como "laranjas" para proteger o patrimônio da família de eventuais apreensões.
Para dar aparência de legalidade ao dinheiro obtido com o narcotráfico, a organização teria montado uma complexa estrutura financeira, baseada na mistura de recursos lícitos e ilícitos, no uso de empresas de fachada, na circulação de dinheiro em espécie e em operações pelo sistema financeiro paraguaio, segundo a Polícia Federal.
Todos os citados na reportagem estão os 29 alvos da operação deflagrada na última quarta-feira (4). Confira a lista de investigados clicando aqui. O g1 não conseguiu contato com nenhum dos membros da família Haidar.
Família é suspeita de comandar rede de tráfico da América Latina para Europa com ajuda de policiais de elite e ligação com PCC, diz PF.
Propinas para garantir proteção policial.
A representação da Polícia Federal detalha o suposto envolvimento de policiais civis de Mato Grosso do Sul no esquema, com destaque para o delegado Hoffman D'Ávila Candido e Sousa, ex-titular da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), e os policiais civis Andrey Elesbão Silva e Douglas Tobias.
Segundo a investigação, a rede de proteção fornecia informações sigilosas sobre operações policiais que seriam realizadas, dados extraídos de sistemas restritos de segurança e outras facilidades que beneficiavam o clã Haidar.
A decisão judicial aponta que o delegado Hoffman D'Ávila teria determinado a restituição indevida de um veículo apreendido com integrantes do grupo criminoso. Ele também é investigado por suposto envolvimento no desvio de carregamentos de entorpecentes apreendidos na Denar, que posteriormente seriam redistribuídos por integrantes da organização liderada por Maroan.
Em contrapartida, o grupo teria efetuado pagamentos de propina em dinheiro vivo e por meio de transferências intermediadas por contas de terceiros, conforme a investigação.
Em nota, a defesa de Hoffman informou que aguarda acesso aos autos do processo. Confira o posicionamento completo ao final da reportagem.
Já o advogado Luiz Renê, que atua na defesa de Douglas Tobias afirmou que está à disposição para prestar esclarecimentos.
De todo modo, Douglas Tobias mais uma vez demonstrou se tratar de pessoa idônea, profissional exemplar e nada tem a esconder, estando à disposição para prestar esclarecimentos e esperando que se faça justiça", declarou.
O g1 não conseguiu contato com a defesa de Andrey Elesbão Silva.
Bloqueio de bens e patrimônio milionário.
Diante do conjunto de provas reunidas durante a investigação, que apontam para a atuação da organização em crimes como tráfico internacional de drogas e armas e lavagem de dinheiro, a Justiça Federal acolheu pedidos apresentados pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal para determinar medidas de busca e apreensão e restrição patrimonial dos investigados.
A decisão da 3ª Vara Federal de Campo Grande determinou o sequestro de bens e o bloqueio de ativos financeiros de 244 pessoas físicas e jurídicas suspeitas na Operação Ifrit.
Entre as medidas determinadas estão.
Com as medidas, o Poder Judiciário busca descapitalizar o núcleo de comando da organização criminosa.
Deflagrada pela Polícia Federal e pela Receita Federal em sete estados, a operação mobilizou mais de 450 agentes para cumprir 76 mandados de busca e apreensão e 26 mandados de prisão.
Foram cumpridos 16 mandados de prisão, sendo nove em Mato Grosso do Sul, três em Santa Catarina, dois em São Paulo, um no Paraná e um em Mato Grosso. Quanto às prisões em flagrante, foram efetuadas três: uma em Mato Grosso do Sul, uma em Santa Catarina e uma em Mato Grosso.
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