Obras, crédito público e postos federais estratégicos estão no horizonte da disputa entre os grupos políticos.
O esforço da direita sul-mato-grossense para ampliar de 58,6% para 70% a votação de Flávio Bolsonaro em Mato Grosso do Sul tem uma meta não declarada nos acordos, mas prevista como um dos principais itens em caso de vitória do candidato do PL: um butim com dezenas de cargos federais que o grupo dominante espera ocupar com indicações próprias e “de porteira fechada”, ampliando para um patamar inédito o poder conquistado no primeiro turno.
A direita de Mato Grosso do Sul busca elevar de 58,6% para 70% a votação de Flávio Bolsonaro no segundo turno, de olho em dezenas de cargos federais que pretende indicar caso o candidato do PL vença.
O senador eleito Reinaldo Azambuja prometeu emendas aos municípios que derem mais votos a Flávio, o que levanta questionamento eleitoral. Estão em jogo Sudeco, DNIT, Polícia Federal, Incra e Funai, além de bilhões em obras do Novo PAC.
Por conta do que está em jogo, na quarta-feira (14), ao pedir o empenho dos prefeitos, em Campo Grande, o líder do grupo, senador eleito Reinaldo Azambuja (PSDB), chegou a flertar com uma possível irregularidade eleitoral ao oferecer, como prêmio aos prefeitos que derem mais votos ao candidato do PL, os maiores nacos de emendas parlamentares federais.
Com a supercoligação de 9 partidos, o chefe do PL se consolida como eminência parda do poder estadual e amplia seu prestígio como articulador da bancada sul-mato-grossense no Senado e entre os deputados federais, onde apenas uma parlamentar, Camila Jara (PT), escapa de seu radar.
Cargos em disputa - A ofensiva para ampliar a votação de Flávio envolve a capacidade de transformar a força eleitoral em influência sobre a estrutura federal que administra recursos, executa políticas públicas e decide prioridades para o Estado.
Caso Lula (PT) vença, o comando dessa estrutura iria para o candidato derrotado por Eduardo Riedel (PSDB), o advogado Fábio Trad (PT), nova liderança do PT no Estado.
Segundo fontes do partido, o controle sobre a máquina federal daria musculatura para uma oposição mais consistente ao grupo que, com a vitória de 4 de outubro, já acumula 16 anos ininterruptos de poder em Mato Grosso do Sul.
O que está em jogo nesse segundo turno são cargos importantes, como as superintendências da Sudeco (Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste) e do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), ligadas a grandes projetos em curso, como a Rota Bioceânica.
Nessa estrutura, ganha importância a direção regional da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo), ocupada por Trad até o início da campanha.
Também estão na disputa representações de órgãos federais responsáveis pelas políticas agropecuária, fundiária, indigenista, ambiental e mineral, em uma rede de interesses ligada à posição estratégica do Estado para as exportações brasileiras.
O Governo do Estado participa, mas uma parcela expressiva depende de decisões federais, fundos públicos e bancos de fomento, como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
A definição de prioridades, o ritmo dos pagamentos e a continuidade dos contratos interessam ao setor produtivo, às prefeituras e às empresas envolvidas.
Outro eixo é a BR-419, que conecta a região norte do Estado a Aquidauana e à BR-262. Em maio de 2026, o DNIT informou que o lote 4, com 55 quilômetros de implantação e pavimentação, havia atingido 80% de execução.
A influência política dos cargos - Embora os ministérios tenham sede em Brasília, suas estruturas regionais participam da execução de políticas públicas, da fiscalização, da gestão de contratos e da interlocução com governos e setores econômicos.
A indicação de dirigentes não permite distribuir recursos livremente, mas pode influenciar a agenda administrativa e a interlocução de prefeitos, parlamentares e empresários.
Por isso, esses cargos são disputados por partidos e grupos que buscam ampliar sua presença no governo federal.
Além do DNIT, responsável pela malha rodoviária federal, a Sudeco atua no desenvolvimento regional e opera instrumentos de financiamento. A autarquia administra mecanismos como o FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste), que apoia empreendimentos empresariais e rurais.
O acesso ao crédito e a análise de projetos fazem da instituição um ponto de articulação entre o governo federal e os agentes econômicos.
Na área agropecuária, a Superintendência Federal de Agricultura e Pecuária tem papel relevante em um Estado onde grãos, pecuária, agroindústria e exportações influenciam a economia.
A estrutura federal atua na defesa agropecuária, na inspeção e na fiscalização sanitária, com efeitos sobre a circulação de produtos e o acesso a mercados.
Na esfera fundiária, o Incra atua em assentamentos, regularização de terras e conflitos agrários, áreas em que se cruzam interesses do agronegócio, da agricultura familiar, de proprietários rurais e de movimentos sociais.
Segurança, fiscalização e fronteiras - A disputa inclui as superintendências estaduais da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, relevantes para um território que faz fronteira com Paraguai e Bolívia e integra rotas internacionais de mercadorias e de tráfico de drogas, armas e outros produtos ilícitos.
A Polícia Federal também investiga crimes federais, incluindo esquemas de corrupção envolvendo agentes públicos e políticos.
Na PRF, a estrutura estadual comanda o policiamento e a fiscalização das rodovias federais utilizadas por organizações criminosas para transportar cocaína. Também têm peso as representações da Receita Federal, da CGU (Controladoria-Geral da União), do Ibama, do ICMBio, da delegacia do Ministério do Trabalho, da Anatel, da Secretaria do Patrimônio da União e da Conab.
Esses órgãos atuam na fiscalização tributária, controle de contratos e gastos públicos, relações de trabalho, telecomunicações, patrimônio público, meio ambiente e no abastecimento.
Seus dirigentes permanecem sujeitos às atribuições legais e aos controles institucionais. A ocupação dos cargos é prerrogativa técnica, mas as indicações passam pelo crivo de políticos.
Conflitos fundiários - Na política indigenista, a estrutura federal passa principalmente pela Funai e pelo DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), ligado ao Ministério da Saúde.
Em Mato Grosso do Sul, a proteção territorial, a saúde das comunidades, a demarcação de terras e os conflitos fundiários compõem uma agenda histórica.
A Funai atua na proteção e promoção dos direitos dos povos indígenas, enquanto o DSEI organiza a atenção à saúde indígena. A estrutura está vinculada ao Ministério dos Povos Indígenas, criado no governo Lula 3 e chefiado pelo advogado indígena Eloy Terena, primeiro sul-mato-grossense ministro na pasta.
A mudança de dirigentes pode alterar prioridades administrativas e a interlocução com outras instâncias de governo, sem eliminar as obrigações legais da União nem os direitos indígenas.
Como se vê, o que está em disputa é uma cobiçada estrutura de poder que, nas mãos de um ou de outro lado, vai mudar a correlação de forças políticas regionais.
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