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Dia do Professor: quem são os 2,4 milhões que ensinam o Brasil, e o que o país ainda deve a eles

11 min de leitura
Dia do Professor: quem são os 2,4 milhões que ensinam o Brasil, e o que o país ainda deve a eles
Foto: Yan Krukau / Pexels

Antes do médico, da engenheira, do juiz e do jornalista, houve um professor. Alguém que segurou a mão de uma criança para traçar a primeira letra, que explicou a tabuada pela terceira vez sem perder a paciência, que percebeu a fome, a tristeza ou o talento escondido no fundo da sala. Nesta quinta-feira, 15 de outubro, o Brasil celebra o Dia do Professor, e a ULTRA NOTÍCIAS foi atrás dos números para contar quem são essas pessoas e o que o país ainda deve a elas.

2,4 milhões

Professores na educação básica em 2025 (Censo Escolar)

79,5%

São mulheres (Censo Escolar 2023)

R$ 5.130,63

Piso nacional de 2026, para 40 horas

1 para 3

Professores jovens para cada veterano de 60+ no ensino médio

Professora sorridente acompanha uma aluna que faz atividade com canetinhas em uma mesa da sala de aula
Na educação infantil, mais de 96% de quem ensina são mulheres. Foto: Mikhail Nilov / Pexels

Um exército de 2,4 milhões, quase todo feminino

Segundo o Censo Escolar 2025, do Inep, o país tinha 2,4 milhões de professores trabalhando em 178,8 mil escolas de educação básica, alta de 1,65% em um ano. Cerca de 1,9 milhão estão na rede pública. E a sala de aula brasileira tem rosto de mulher: elas eram 79,5% do corpo docente no Censo de 2023, proporção que passa de 96% na educação infantil.

Quem ensina o Brasil

1,9 milhão

dão aula na rede pública; 573,9 mil, em escolas particulares

8 em cada 10

são mulheres. Na educação infantil, mais de 96%

178,8 mil

escolas de educação básica no país

■ 79,5% professoras   ■ 20,5% professores (Censo Escolar 2023)

Fontes: Inep/Censo Escolar 2025 (total de docentes e escolas), Valor Econômico (divisão por rede) e Censo Escolar 2023, via Instituto Órizon (gênero).

É uma ironia da história. A lei imperial que inspirou a data, de 1827, chamava as mulheres de “mestras” e as proibia de ensinar geometria: na aritmética, só as quatro operações, segundo a BBC News Brasil. Quase dois séculos depois, são elas que sustentam a educação do país.

A história de uma data que nasceu de um gesto simples

“Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos haverão as escolas de primeiras letras que forem necessárias.”

Lei Imperial de 15 de outubro de 1827 · texto citado pela BBC News Brasil

A comemoração só ganhou forma no século 20. Em 1947, em São Paulo, o professor Salomão Becker sugeriu uma pausa no meio do segundo semestre para homenagear os mestres, lembrando da tradição de sua Piracicaba natal, onde alunos levavam doces para confraternizar com os professores. A data escolhida foi justamente a da lei de 1827.

“Professor é profissão. Educador é missão.”

Salomão Becker, professor que propôs a comemoração em 1947 · discurso no primeiro Dia do Professor, registrado na história da data

Como nasceu o Dia do Professor

15 out 1827

Dom Pedro I assina a lei que manda criar “escolas de primeiras letras” em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. É o marco do ensino público primário no país, e a origem da data.

1947

Em São Paulo, o professor Salomão Becker propõe uma pausa no segundo semestre para celebrar os mestres, com doces e confraternização, e sugere o 15 de outubro.

12 out 1948

Antonieta de Barros, professora e primeira deputada negra do Brasil, aprova em Santa Catarina a Lei 145, que institui o Dia do Professor e o feriado escolar.

14 out 1963

O presidente João Goulart assina o Decreto 52.682 e o feriado escolar vira nacional.

1994

A Unesco cria o Dia Mundial dos Professores, celebrado em 5 de outubro.

2008

A Lei 11.738 cria o piso salarial nacional do magistério. Em 2009, ele valia R$ 950.

2026

A Lei 15.437 muda a regra de reajuste e o piso chega a R$ 5.130,63.

Fontes: BBC News Brasil, g1 Santa Catarina, Assembleia Legislativa de SC e SBT News.

Quanto ganha um professor no Brasil

O piso nacional do magistério, criado em 2008, é o mínimo que qualquer rede pública deve pagar a um professor por 40 horas semanais. Em 2026, ele subiu para R$ 5.130,63, segundo portaria do MEC publicada em janeiro, e passou a seguir uma nova regra de reajuste, sancionada em junho. Com a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, o desconto mensal de quem recebe o piso caiu de cerca de R$ 283 para R$ 47, segundo a Secom.

Piso salarial nacional do magistério (40 horas)

2009
R$ 950,00
2025
R$ 4.867,77
2026
R$ 5.130,63

O reajuste de 5,4% em 2026 deu ganho real de 1,5 ponto acima da inflação. A Lei 15.437, sancionada em junho, fixou a nova regra: INPC + metade do crescimento real das receitas do Fundeb nos cinco anos anteriores, e o reajuste nunca pode ficar abaixo da inflação.

Fontes: Portaria MEC nº 82/2026 (DOU), Secom, Agência Senado e Movimento Profissão Docente.

Mas o piso é só o chão. Entre os estados, a diferença é enorme: o salário inicial médio nas redes estaduais foi de R$ 6.212,36 em 2025, e vai de valores colados ao piso, como no Rio de Janeiro, até mais de R$ 13 mil em Mato Grosso do Sul.

Salário inicial do professor na rede estadual (40h, sem gratificações, 2025)

Mato Grosso do Sul
R$ 13.007,12
Maranhão
R$ 8.452,03
Pará
R$ 8.289,86
Roraima
R$ 7.700,47
Mato Grosso
R$ 7.343,44
Média dos estados
R$ 6.212,36
Rio de Janeiro
R$ 4.867,77

No Rio de Janeiro, o salário inicial era igual ao piso nacional de 2025. Fonte: estudo Planos de Carreira e Remuneração do Magistério das Redes Públicas Estaduais 2025, do Movimento Profissão Docente, via g1 e A Crítica.

E Mato Grosso do Sul?

MS tem o maior salário inicial do país para professores da rede estadual: R$ 13.007,12 por 40 horas, mais que o dobro da média nacional e mais de duas vezes o piso. Considerando toda a carreira, a remuneração média sem gratificações chega a R$ 26.586,54, também a maior entre os estados, segundo o Movimento Profissão Docente.

O outro lado: Mato Grosso do Sul está entre os estados com maior proporção de professores temporários na rede estadual, acima de 70% do quadro, segundo o recorte do Censo Escolar 2025 divulgado pelo Sintep-MT. Nas redes municipais, a Fetems (federação dos trabalhadores em educação de MS) publica todo ano um ranking que aponta as cidades que ainda pagam abaixo do piso nacional.

O Brasil diante do mundo

O relatório Education at a Glance 2026, da OCDE, divulgado no fim de setembro, teve como tema a escassez de professores. Os números mostram por que a carreira atrai cada vez menos jovens: o professor brasileiro do ensino fundamental público ganha, em média, cerca de metade do que recebem os colegas dos países da organização, e só 22,3% se dizem satisfeitos com o salário.

Brasil x média da OCDE

Salário anual do professor (US$, paridade de poder de compra)

Brasil
US$ 25,7 mil
OCDE
US$ 49,7 mil

Satisfeitos com o salário

Brasil
22,3%
OCDE
38,7%

Satisfeitos com as condições de trabalho

Brasil
44,3%
OCDE
68,4%

Lidam sempre ou com frequência com indisciplina

Brasil
89,4%
OCDE
72%

Professores qualificados que deixaram a profissão

Brasil
10,3%
OCDE
6,4%

Salário: professores do ensino fundamental público no Brasil x anos finais na média da OCDE. Satisfação e indisciplina: Talis 2024, professores dos anos finais do fundamental. Abandono: Brasil em 2022; OCDE em 2024–2025. Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026, via Jeduca.

O alerta do apagão

Professor caminha entre as carteiras diante do quadro-negro durante a aula
O número de professores com 60 anos ou mais dobrou em dez anos no ensino médio, enquanto o de jovens até 24 anos caiu 31%. Foto: Max Fischer / Pexels

O Instituto Semesp vem alertando desde 2022 que o país pode ter um déficit de 235 mil professores na educação básica até 2040. A nova edição da pesquisa, divulgada em setembro, mostra que o problema já tem cara: o quadro está envelhecendo e os jovens não estão chegando.

O relógio do apagão: professores do ensino médio

Até 24 anos

17,3 mil (2015) → 11,9 mil (2025)

−31,1%

60 anos ou mais

18,2 mil (2015) → 37,3 mil (2025)

+104,5%

Taxa de renovação docente: jovens para cada professor com 60+

2015
0,95
2025
0,32
2031
0,25 (projeção)
2035
0,22 (projeção)
2040
0,17 (projeção)

Em 2015 havia praticamente um professor jovem para cada veterano. Hoje é um para cada três. Se nada mudar, em 2040 será um para cada seis.

Fonte: pesquisa “Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil”, Instituto Semesp (set/2026), com base no Censo Escolar, via O Globo e Estadão.

As disciplinas com menor renovação são Geografia, História, Língua Portuguesa, Sociologia, Filosofia e Artes. Entre 2015 e 2024, o número de formandos em licenciatura caiu 13,5%. Na mesma pesquisa, 74,8% dos docentes relataram falta de valorização profissional e 79% disseram já ter pensado em abandonar a profissão.

Concursados ou temporários? Redes estaduais

2021
53,9% efetivos
46,1% outros vínculos
2025
48,6% efetivos
51,4% outros vínculos
Meta
70% efetivos (novo PNE)

Outros vínculos: contratos temporários, terceirizados ou CLT. Fonte: Inep/Censo Escolar 2025, análise da CNTE publicada pelo Sindipema.

Ensinar com medo

Ao cansaço e ao salário baixo, soma-se a violência. Uma pesquisa do Centro do Professorado Paulista com 1.144 professores mostra que dois em cada três já foram agredidos no ambiente escolar. Em 2024, só entre os professores concursados da rede estadual paulista, foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e comportamentais, mais de 115 por dia, segundo dados obtidos pelo CPP e publicados pela BBC News Brasil.

Que tipo de agressão os professores relatam

Verbal
71%
Psicológica e moral
58%
Institucional
27%
Física
19%

65% dos professores ouvidos já sofreram algum tipo de agressão na escola e 74% dizem não se sentir seguros em sala de aula.

Percentual entre os professores que relataram agressões. Fonte: pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 docentes de São Paulo, via BBC News Brasil, Veja e CNN Brasil.

A indisciplina também pesa: segundo a OCDE, 89,4% dos professores brasileiros dos anos finais do fundamental dizem lidar sempre ou com frequência com alunos indisciplinados, acima da média internacional de 72%.

O que o país tenta fazer para atrair novos professores

  • Pé-de-Meia Licenciaturas: bolsa de R$ 700 por mês para estudantes de licenciatura selecionados pela Capes, mais R$ 350 mensais em poupança, resgatáveis se o formado for dar aula na rede pública. O edital de 2026 prevê até 12 mil bolsas.
  • Nova regra do piso (Lei 15.437/2026): reajuste nunca abaixo da inflação.
  • Meta do novo PNE: 70% de professores efetivos nas redes públicas.
  • Observatórios regionais de violência contra educadores, criados em parceria com o MEC para acolher professores agredidos.

Fontes: Capes, Agência Senado, CNTE e Veja.

Tem aula hoje?

O 15 de outubro é feriado escolar desde 1963, mas cada rede define o próprio calendário. Neste ano, o Ceará antecipou a folga para terça (13), emendando com o feriado de Nossa Senhora Aparecida. Teresina e Maceió transferiram para sexta (16). Na dúvida, confira o calendário da escola do seu filho.

Fontes: g1 Ceará, g1 Piauí, portal AL1 e SBT News.

Por que isso importa para todos nós

Nenhuma outra profissão toca tantas vidas. Cada uma das 46 milhões de matrículas da educação básica registradas no Censo 2025 depende, no fim das contas, de alguém de pé diante de uma turma. Valorizar o professor não é gentileza de 15 de outubro: é a condição para que o país tenha, daqui a 20 anos, os médicos, engenheiros e cidadãos de que precisa.

“Professor, a profissão que dá origem a todas as outras.”

Salomão Becker · no mesmo discurso de 1947

A você, professor e professora

Obrigado pela paciência de repetir pela décima vez, pela prova corrigida de madrugada, pelo material comprado do próprio bolso, pelo aluno que você enxergou quando ninguém mais enxergava. Cada médico, engenheira, policial, agricultor e jornalista deste país passou primeiro por uma sala de aula, e por você.

Valorizar a profissão não cabe numa data. Cabe em salário digno, carreira, segurança e respeito, todos os dias. Feliz Dia do Professor.

Equipe ULTRA NOTÍCIAS

Por Amin Feres, redator da ULTRA NOTÍCIAS. Informações: Inep/Censo Escolar, MEC, Secom, Agência Senado, Diário Oficial da União, OCDE, Jeduca, Instituto Semesp, O Globo, Estadão, Valor Econômico, Movimento Profissão Docente, g1, A Crítica, Fetems, CNTE/Sindipema, Sintep-MT, Centro do Professorado Paulista, BBC News Brasil, Veja, CNN Brasil, Capes, Alesc e SBT News. Fotos: Pexels.

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