Não pense que a vida é difícil só para os brasileiros que tentam pronunciar “world” (mundo) em inglês. Ser gringo e tentar aprender a falar em português leva a questionamentos como.
- pronúncia de “ão”, “lh”, “nh”, vogais abertas (avó) e “r fraco” (caro).
- preposições (gostar de algo, trocar por outro, ir à festa).
- gênero de palavras (o mapa ou a mapa?).
- diferenças regionais (tu vais ou tu vai?; casa da Maria ou casa de Maria?).
- mudanças na adaptação da escrita para a fala (quequeisso, cé loco?).
Quais as dificuldades dos gringos ao aprender português.
Nesta reportagem, você entenderá, a partir de exemplos reais e de explicações de linguistas, quais são as maiores dificuldades de um estrangeiro aprender nosso idioma, como.
Ela segue firme na missão de dominar a língua portuguesa. No momento, o desafio maior é entender o que os personagens de Avenida Brasil falam — naquela velocidade bem diferente da que aparece em materiais didáticos.
Qual a principal característica do português que torna a missão de aprendê-lo mais desafiadora? É uma língua flexional.
Em inglês, por exemplo, conjugar um verbo no presente significa usar a mesma palavra em todas as pessoas verbais, exceto na terceira, em que se acrescenta um “s”: I play, You play, She/He/It plays, We play, They play.
Em português, traduzindo, temos: Eu jogo, tu jogas, ele joga, nós jogamos, vós jogais, eles jogam. Seis formas diferentes.
Outros obstáculos vão variar de acordo com o idioma nativo do aluno.
Exemplos de palavras: “não”, “maçã”, “pão”, “irmão”.
Para quem pode ser difícil? Para falantes de espanhol, inglês e outros idiomas sem a presença de vogais nasais.
Por quê? A articulação exige que o ar saia simultaneamente pela boca e pelo nariz. Como essa mecânica não existe em línguas sem vogais nasais, os alunos têm dificuldade tanto para produzir quanto para perceber o som, tendendo a pronunciar ou ouvir “não” como “nau”; “pão” como “pau”.
Exemplos de palavras: “dó” vs. “do”, “avó” vs. “avô”; “dez”.
Para quem pode ser difícil? Hispanofalantes e falantes de línguas eslavas (como o russo).
Por quê? Na percepção auditiva desses idiomas, o contraste entre o som aberto e o fechado da mesma vogal não aparece. Em espanhol, por exemplo, não existe o “ó” agudo.
Exemplos de palavras: “trabalha” / “trabalho”, “mulher”, “olho”, “lhama”, “amanhã”, “carinho”.
Para quem pode ser difícil? Anglófonos, francófonos e outros falantes de línguas sem consoantes palatais contínuas (quando a língua encosta no céu da boca durante a saída do som).
Por quê? São sons que exigem que a língua se espalhe contra o céu da boca (palato duro). Sem essa prática, estrangeiros tendem a separar os fonemas, pronunciando como “L” ou “N” seguido de “Y” (como “trabal-yo” ou “carin-yo”).
Por isso que Courtney, mencionada no começo da reportagem, sofre tanto ao falar “trabalho”.
Exemplos de palavras/frases: “caro”, “arara”, “o carro é caro”.
Para quem pode ser difícil? Falantes de francês e de alemão.
Por quê? O "R" brando (intervocálico), como em “caro” ou “lareira”, depende de um batimento rápido da ponta da língua no alvéolo (região da gengiva logo atrás dos dentes superiores).
Nativos de idiomas com "R" gutural (aquele “rr” bem forte, como no francês ou no alemão) sofrem para não usar a garganta ao emitir esse som.
Exemplos de palavras/frases: “gostar de arroz” (por que “de”?); “trocar por outra pessoa”; “assistir ao programa”, “levar para algum lugar”.
Para quem pode ser difícil? Praticamente todas as nacionalidades, especialmente anglófonos e falantes de idiomas distantes do português.
Por quê? Preposições são palavras sem referencial concreto e variam bastante dependendo da regência verbal e de convenções arbitrárias de cada língua. Não há uma regra lógica intuitiva: exige memorização.
Exemplos: a mesa, a caixa, a estante, a foto; o livro, o mapa, o planeta.
Para quem pode ser difícil? Para qualquer pessoa (por diferenças específicas e ausência de regras), mas especialmente a quem vem de línguas com gênero neutro.
Por quê? Qual é a regra para definir quando uma palavra vai ser masculina ou feminina? Não existe. A única forma de acertar é ouvir e ler bastante.
Quem fala línguas com gênero neutro, como inglês, não está acostumado a definir gênero para objetos. Os artigos são sempre os mesmos antes de substantivos no singular: “the” (definido) ou “a”/ “an” (indefinido), não importa a palavra seguinte: a table, a box, a bookcase, a picture, a book, a map, a planet (traduzindo na ordem dos exemplos acima).
E mesmo para falantes de idiomas com gênero, como espanhol, pode haver confusão: nós falamos “o leite”; já eles dizem “la leche”. A tendência de quem está aprendendo o português é reproduzir o mesmo gênero de sua língua nativa.
Exemplos de palavras/frases: verbo medir (“meço”), “eu sou cansado” vs. “eu estou cansado”; “eu tinha imprimido/ o texto estava impresso”.
Para quem pode ser difícil? Anglófonos, hispanofalantes e aprendizes de línguas com menor flexão verbal.
Por quê? O português segue um sistema verbal altamente flexional, como explicado no início da reportagem. O aluno tenta encontrar um padrão de conjugação, mas aí cai na armadilha dos verbos irregulares.
3º grupo de desafios: a diferença da vida real.
VELOCIDADE DE FALA E O ‘COMER’ DE SÍLABAS.
Para quem pode ser difícil? Estrangeiros treinados só com livros didáticos tradicionais e expostos apenas à variante formal.
Por quê? Na conversa espontânea, ocorrem constantes reduções vocálicas, elisões de consoantes finais e junções de sílabas para agilizar a fala. Essas fusões mascaram as fronteiras entre as palavras, impedindo que o aluno reconheça termos que até dominaria se estivessem escritos.
Wellington acredita que o uso de áudios muito formais nas aulas dificulta esse contato dos estrangeiros com o “português do dia a dia”.
Ele até produz conteúdos nas redes sociais mostrando como é difícil compreender brasileiros em entrevistas ou cenas de novelas.
Nas explicações, mostra o vídeo como exemplo e, em seguida, pronuncia as falas bem pausadamente, deixando claras as fronteiras entre as palavras.
Por quê? O Brasil possui uma enorme variação fonética, gramatical e regional que raramente é contemplada pelo português padronizado dos manuais didáticos.
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