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Corumbá - MS | Quarta-feira, 4 de novembro de 2026 | 09:02

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Inflação, guerra e custo de vida: a conta que levou Trump à derrota nos EUA

Vitória democrata mostra o limite da política de confronto: o eleitor quer segurança, renda e uma vida melhor

7 min de leitura
Inflação, guerra e custo de vida: a conta que levou Trump à derrota nos EUA

Os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado, avançando inclusive sobre antigos redutos republicanos. Ainda havia disputas sem definição na manhã desta quarta-feira, mas a mudança de comando do Congresso já estava prevista.

A nova composição assume-se em janeiro de 2027.

Na minha avaliação, essa derrota foi sendo construída. Trump transformou o confronto em método de governo e apostou que a demonstração permanente de força sustentaria seu poder.

O problema apareceu quando o eleitor começou a comparar suas promessas com a vida que estava levando.

Há uma leitura que precisa ser feita também sobre a América Latina. Vitórias recentes da direita foram apresentadas como se representassem uma adesão definitiva dos povos a um projeto ideológico.

Essa interpretação deixa de lado uma parte decisiva do comportamento eleitoral.

Quem teme sair de casa, perdeu poder de compra ou não encontra trabalho procura uma saída. A ideologia influencia o voto, evidentemente. Mas a insatisfação abre espaço para quem promete romper com uma situação que se tornou insuportável.

Trump apoiou aliados e procurou transformar esses resultados em demonstração de sua influência. Na Argentina, chegou a associar o apoio financeiro americano ao desempenho eleitoral do grupo de Javier Milei.

Na Colômbia, apoiou Abelardo de la Espriella.

O apoio externo, porém, não paga a conta das expectativas internas.

Na Argentina, pesquisa da Zentrix referente a outubro apontou 55,5% de desaprovação a Milei, embora sua aprovação tenha se recuperado nos últimos meses. No Chile, a Cadem registrou aprovação de apenas 26% a José Antonio Kast na divulgação de 1º de novembro.

Na Colômbia, o quadro é diferente: levantamento AtlasIntel/Bloomberg mostrou recuo da aprovação de De la Espriella, de 51,8% para 48,7%, ainda acima da desaprovação.

É um sinal inicial de desgaste, não uma rejeição da mesma dimensão.

Cada país tem suas particularidades. Mas esses casos sustentam uma reflexão: vencer prometendo mudança não assegura tolerância permanente. O eleitor que substitui um governo pode voltar a mudar quando a vida não melhora.

Nos Estados Unidos, a política externa deixou de ser um assunto distante quando suas consequências chegaram ao orçamento das famílias.

A guerra com o Irã pressionou o mercado de energia. Em 23 de setembro, o diesel americano custava 73% mais do que antes do conflito, segundo dados da AAA divulgados pela imprensa.

O combustível movimenta caminhões, máquinas agrícolas e cadeias de distribuição. Quando sobe, a conta percorre a economia. Aparece no abastecimento, no frete e, depois, nas compras do supermercado.

Não se pode atribuir toda a inflação americana a Trump. Mas um presidente precisa responder pelo efeito de suas decisões. O discurso de força perde apelo quando o cidadão sente que ficou mais caro viver.

Problemas de oferta e restrições internacionais agravaram a pressão sobre o produtor.

Outra apuração apontou endividamento agrícola recorde e a possibilidade de empréstimos subestimados nas estatísticas.

O agricultor pode ser republicano há gerações. Ainda assim, precisa pagar fornecedores e financiar a próxima safra. Quando os custos sobem e as vendas decepcionam, a identidade política passa a conviver com uma cobrança concreta por resultados.

O Brasil foi um exemplo da mistura entre comércio e preferência política. Na carta de julho de 2025 em que anunciou tarifas de 50%, Trump vinculou sua posição ao tratamento dado a Jair Bolsonaro e atacou as instituições brasileiras.

A justificativa comercial tinha uma contradição: os Estados Unidos vendiam ao Brasil mais mercadorias do que compravam. O déficit estava do lado brasileiro.

A pressão atingia nossa economia, mas também criava custos e incertezas para empresas e consumidores americanos. Uma tarifa não deixa de produzir consequências internas porque foi anunciada como punição a outro país.

Na minha leitura, essa forma de agir também enfraquece a liderança que Trump pretendia reafirmar. A influência internacional depende de confiança e previsibilidade, além de dinheiro e poder militar.

Os Estados Unidos têm uma história marcada por contradições e intervenções. Mesmo assim, construíram alianças e instrumentos de cooperação que ampliaram sua presença no mundo.

O desmonte de programas da USAID e a nova retirada do Acordo de Paris reduziram instrumentos dessa atuação.

Ter governos ideologicamente próximos na região pode facilitar negociações. Não garante fidelidade das sociedades nem preserva, por si só, a influência americana.

Força anunciada, resultados cobrados.

A guerra na Ucrânia expôs outra distância entre promessa e capacidade de entrega. Trump prometeu encerrá-la rapidamente. O conflito continuou.

Em outubro, a Reuters revelou uma tentativa americana de usar um acordo envolvendo exportações de diesel russo para atrair Moscou às negociações. A iniciativa provocou críticas por oferecer receitas à Rússia sem assegurar concessões equivalentes às de Vladimir Putin.

Negociar com adversários faz parte da diplomacia. O problema é anunciar capacidade de impor soluções e depois não conseguir transformar essa promessa em resultados.

A invasão russa da Ucrânia exige uma resposta que considere a soberania do país atacado.

Em Gaza, a cobrança moral também permanece. O ataque terrorista do Hamas contra civis, em outubro de 2023, foi uma atrocidade. Sua condenação não autoriza tratar a população palestina como inimiga coletiva.

Relatório da ONU de outubro, citando o Ministério da Saúde de Gaza, registrava mais de 74 mil palestinos mortos desde o início da guerra. O total atravessa diferentes governos americanos.

A responsabilidade de proteger civis deve orientar a cobrança sobre todos eles e sobre seu apoio ao governo israelense.

Esses episódios ajudam a explicar o desgaste internacional. Não significa que cada eleitor americano tenha votado pensando em todos esses conflitos. A evidência eleitoral aponta mais diretamente para a insatisfação com o custo de vida, a guerra com o Irã e a condução do governo.

O custo do serviço da dívida também bateu recorde. Isso não significa que toda a deterioração tenha começado com Trump. Existem despesas e compromissos acumulados ao longo de diferentes governos.

Mas a promessa de resolver o problema precisa ser confrontada com o resultado.

Déficits elevados ampliam a necessidade de financiamento e podem pressionar os juros de mercado. Energia cara e tarifas podem alimentar a inflação e dificultar a redução dos juros pelo banco central.

Não é uma trajetória inevitável. É um risco econômico que limita o discurso de prosperidade fácil e chega ao financiamento da casa, ao crédito das empresas e ao investimento no campo.

Trump acolheu o apelido “Mr. Veto” e sinalizou disposição para ampliar o uso de poderes executivos diante de um Congresso democrata.

O veto é constitucional. O Congresso pode derrubá-lo com dois terços dos votos em cada Casa. E ordens executivas dependem de fundamento legal: não substituem livremente o Legislativo.

Os democratas terão mais instrumentos para fiscalizar, investigar e impor limites. Também serão cobrados por quem os elegeu. O eleitor quer uma resposta ao abuso de poder, mas espera melhora em sua própria vida.

Trump continuará poderoso. A derrota não encerra a hegemonia econômica ou militar americana. Mostra, porém, o custo de confundir liderança com intimidação e de tratar a insatisfação social como um patrimônio político permanente.

Foi esse erro que, na minha avaliação, ele foi construindo. O desejo de mudança que ajuda um governante a chegar ao poder também pode se voltar contra ele.

E essa é uma decisão que nenhum veto presidencial consegue anular.

Em números

  • Relatório da ONU de outubro, citando o Ministério da Saúde de Gaza, registrava mais de 74 mil palestinos mortos desde o início da guerra

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