A Shein já foi uma das empresas mais comentadas do varejo.
Depois de anos de adiamentos, a Shein está perto de abrir seu capital — desta vez, por uma fração de seu valor de pico. A empresa busca novas formas de crescer depois que Estados Unidos e Europa acabaram com isenções tarifárias para produtos baratos que ajudavam a sustentar seu modelo de baixo custo.
As vendas despencaram nos Estados Unidos, seu maior mercado. E a companhia ofereceu poucos detalhes aos investidores sobre de onde virá um crescimento relevante daqui para frente.
Nenhuma marca chinesa de moda teve tanto sucesso quanto a Shein em sua expansão global. Ainda assim, a empresa continua excepcionalmente reservada.
Seu fundador e CEO, Sky Xu Yangtian, é tão discreto que, até aparecer publicamente em fevereiro, a maioria das fotos que circulavam na internet e supostamente o mostravam era falsa.
Até mesmo um executivo sênior da Shein no exterior, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizado a conversar com a imprensa, disse que nunca havia se encontrado ou interagido com Xu.
A Shein recusou pedidos de entrevista. A data e os detalhes de preço de sua estreia no mercado ainda não foram anunciados, mas a empresa apresentou um prospecto à Bolsa de Hong Kong no mês passado.
A Shein tomou medidas para se distanciar de suas origens chinesas. Em 2019, estabeleceu sua sede em Cingapura e, alguns anos depois, retirou do registro sua entidade corporativa original na China.
O objetivo era, em parte, navegar pelas regras chinesas aplicáveis a empresas que buscam listagens no exterior e abrir caminho para um IPO em Nova York.
A estratégia fracassou. Nos Estados Unidos, a Shein enfrentou forte escrutínio, de parlamentares dos dois partidos, sobre sua cadeia de suprimentos e suas práticas trabalhistas.
Depois de abandonar a tentativa de abrir capital em Nova York em 2024, a empresa voltou-se para Londres, onde enfrentou resistência semelhante de organizações não governamentais e outros grupos de oposição.
Isso deixou Hong Kong como a última grande alternativa viável. Mas, após anos de adiamentos, analistas dizem que a Shein pode ter perdido o momento ideal.
A mudança para Hong Kong também colocou a Shein na situação desconfortável de ter de reabraçar a identidade chinesa que antes tentava minimizar. Na China, a empresa foi criticada por “florescer na China, mas dar frutos no exterior” — expressão que sugere que a Shein construiu seu sucesso no país enquanto direcionava seus lucros para fora.
Então, em fevereiro, o famoso recluso Xu apareceu de repente diante de autoridades da província de Guangdong.
A imprensa chinesa inicialmente cobriu o discurso. Depois, alguns artigos começaram a desaparecer da internet. Lu Minghe, um jornalista veterano, publicou um aviso mostrando que a Shein havia exigido que sua conta pública no WeChat removesse um artigo sobre a aparição de Xu, alegando “infração”.
Mesmo enquanto recalibra sua relação com a China, um problema mais fundamental paira sobre qualquer possível abertura de capital.
Jianggan Li, fundador da Momentum Works, consultoria que acompanha a Shein de perto, disse que potenciais investidores haviam contado a ele que percebiam pouco entusiasmo por parte dos fundadores.
A Europa pode representar um desafio ainda maior. No mês passado, autoridades europeias anunciaram uma tarifa fixa de 3 euros sobre encomendas de comércio eletrônico que anteriormente entravam no bloco sem cobrança de impostos.
A Europa responde por mais de um terço da receita da Shein. Em seu prospecto, a empresa alertou que, embora ainda fosse cedo para avaliar completamente o impacto da situação na Europa, ele “poderia ser, em geral, semelhante ou superior ao impacto observado nos EUA”.
Agora, a Shein tenta convencer os investidores de que seu futuro vai além das roupas ultrabaratas, vendendo acesso ao sistema que construiu para criar, produzir, divulgar e entregar produtos rapidamente.
Até agora, há poucas evidências de que a estratégia de oferecer sua cadeia de suprimentos esteja dando resultado. Desde que lançou o serviço em caráter experimental, em 2023, a Shein conseguiu atrair apenas cerca de 20 marcas.
O programa gerou menos de 1% da receita líquida total da companhia em 2025, segundo a empresa.
Shen Meng, diretor da Chanson & Co., banco de investimentos de Pequim, afirmou que a Shein teve sucesso, em parte, porque estava disposta a reduzir seus próprios custos e margens — concessões que outras marcas que utilizam sua plataforma podem não estar dispostas a fazer.
A Shein também está se expandindo para móveis, cosméticos, produtos para animais de estimação e eletrônicos. Os produtos que não são roupas responderam por mais de um terço da receita da empresa no primeiro trimestre.
Outros analistas também estão céticos de que a Shein tenha encontrado um segundo capítulo.
O primeiro capítulo da Shein foi extraordinário.
A empresa foi fundada em 2012 por Xu e três colegas em uma empresa de marketing que ajudava exportadores chineses a vender produtos pela internet. Em 2015, encurtou seu nome de Sheinside para Shein.
Durante a pandemia de Covid-19, com a explosão das compras online, a popularidade da Shein disparou. A empresa inundou a internet com anúncios direcionados a consumidores jovens, atraindo-os com preços extremamente baixos e designs em constante mudança.
O segredo era um sistema criado para comprimir o ciclo tradicional da moda. A Shein usava algoritmos para acompanhar tendências emergentes e, então, fazia pedidos iniciais de algumas centenas de unidades para testar a demanda.
O modelo permitia à empresa lançar aproximadamente 4. 700 novos modelos de roupas por dia. A Zara, em comparação, produz 20 mil por ano, segundo analistas.
A Shein combinou essa tecnologia com um ecossistema industrial concentrado em Guangdong, onde fiações, tecelagens, costureiras e pequenas fábricas conseguiam produzir rapidamente pedidos de apenas 100 peças.
Mas a Shein teve dificuldades para reproduzir seu modelo chinês de cadeia de suprimentos em países como Turquia e Vietnã, segundo Li, da Momentum Works. Ao mesmo tempo, concorrentes como a Temu chegaram com uma variedade ainda maior de produtos e preços ainda mais baixos.
Kaziukenas disse ter analisado cuidadosamente o prospecto da Shein em busca da resposta para uma pergunta que o acompanha há anos: “Qual é o futuro da Shein?”. E acrescentou: “Não acho que tenhamos obtido essa resposta.”.
Em números
- A Zara, em comparação, produz 20 mil por ano, segundo analistas
Fontes
Informação baseada em material público de InfoMoney, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.