A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma ferramenta para acelerar o trabalho dentro dos escritórios de advocacia e passa agora a influenciar até mesmo a decisão das empresas sobre quem contratar.
Clientes corporativos estão cobrando resultados concretos, mas que garantam a segurança no tratamento de informações confidenciais e explicações sobre como a tecnologia é utilizada na elaboração de pareceres, contratos e outros documentos jurídicos.
Essa é a conclusão do relatório Future of Professionals 2026, elaborado pela Thomson Reuters.
Conforme o levantamento, a pressão já ameaça, inclusive, contratos e coloca em discussão a forma como os honorários são cobrados. Para 78% dos clientes corporativos entrevistados, é muito importante ou essencial que seus prestadores utilizem inteligência artificial para melhorar a qualidade dos serviços.
No entanto, apenas 6% afirmam que a maioria ou todos os fornecedores conseguem atender a essa expectativa.
O levantamento abrange serviços profissionais, incluindo os mercados jurídico e contábil, e não apenas escritórios de advocacia.
Para Rodrigo Hermida, vice-presidente da área de Legal Professionals para a América Latina na Thomson Reuters, os clientes estão elevando o padrão de avaliação dos serviços jurídicos.
Já não basta informar que o escritório utiliza ferramentas de IA. É necessário demonstrar que elas melhoram a qualidade do trabalho, preservam o sigilo e produzem resultados que possam ser verificados.
A cobrança por maior eficiência também começa a atingir a estrutura de preços dos escritórios. Se a inteligência artificial permite concluir em menos tempo tarefas que antes exigiam horas de pesquisa, revisão e elaboração de documentos, os clientes passam a questionar como esses ganhos de produtividade devem aparecer nos honorários.
De acordo com a pesquisa, 71% dos profissionais de departamentos jurídicos esperam que os escritórios alterem seus modelos de negócios e a forma de cobrança por hora à medida que a IA avance.
Por outro lado, 62% dos profissionais de escritórios afirmam que a estrutura de precificação permanece inalterada.
A diferença expõe um possível foco de conflito entre contratantes e prestadores. Isso porque de um lado as empresas até querem compartilhar os benefícios econômicos da automação.
Mas, por outro lado, escritórios precisam recuperar investimentos em tecnologia, treinamento e segurança, além de manter a responsabilidade técnica pelo trabalho entregue.
A dificuldade será demonstrar valor sem se fixar na redução simples do número de horas economizadas. A qualidade da análise jurídica, a capacidade de antecipar riscos e a confiabilidade das informações continuam sendo elementos centrais na contratação.
Hermida explica que a simples aquisição de ferramentas não garante retorno financeiro automaticamente. Para ele, os ganhos aumentam quando a tecnologia está integrada aos processos internos e consegue utilizar o conhecimento acumulado pelo escritório para executar atividades complexas.
Para além da qualidade dos serviços, a segurança das informações tornou-se um dos principais riscos associados à adoção da inteligência artificial na advocacia.
Na América Latina, 84% dos profissionais jurídicos entrevistados pela Thomson Reuters afirmam utilizar alguma ferramenta de IA pelo menos uma vez por semana. Entretanto, apenas 48% têm acesso a soluções desenvolvidas especificamente para atividades profissionais, enquanto 87% relatam uma distância entre o que esperam da tecnologia e os resultados obtidos.
O dado mais sensível é que 34% admitem utilizar ferramentas de IA que não foram aprovadas por suas organizações. Isso significa que informações relacionadas a clientes, contratos e processos podem ser inseridas em sistemas sem que o escritório tenha controle adequado sobre o tratamento desses dados.
O risco envolve tanto a exposição de informações protegidas por sigilo profissional quanto a possibilidade de utilização inadequada de dados pessoais e estratégicos.
Também existe o problema das respostas incorretas ou sem fundamentação verificável, que podem comprometer decisões jurídicas.
Hermida frisa que o sigilo não pode depender apenas do cuidado individual de cada advogado. Ele deve estar incorporado à arquitetura da solução e aos processos do escritório.
Claro que a responsabilidade pelo trabalho permanece com o profissional, porque o uso de IA não afasta o dever de revisar informações, conferir referências jurídicas e assegurar que documentos e orientações estejam corretos, segundo ele.
Essa preocupação aparece nas respostas dos próprios entrevistados. Para 96%, as ferramentas devem proteger dados confidenciais; 94% exigem resultados fundamentados em fontes confiáveis, e 90% consideram necessário que as respostas possam ser explicadas e defendidas.
Os percentuais mostram que a discussão deixou de ser apenas tecnológica e que a adoção de IA passa a exigir políticas de governança, controles de acesso, critérios para escolha de fornecedores e procedimentos de revisão humana.
Pressão sobre escritórios brasileiros.
No Brasil, a transformação ocorre em um mercado jurídico de grande dimensão. Segundo os dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 40,9 milhões de novos processos ingressaram no Judiciário em 2025, enquanto o ano terminou com 75,5 milhões de ações em tramitação.
Com mais de 1,5 milhão de advogados registrados na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o país reúne um contingente expressivo de profissionais que disputam clientes em um ambiente no qual a produtividade e a capacidade de oferecer serviços diferenciados ganham importância.
O levantamento não permite afirmar que essa perda de clientes já esteja ocorrendo na mesma proporção, mas revela uma percepção crescente de que a adoção da tecnologia terá consequências sobre a competitividade dos escritórios, segundo a Thomson Reuters.
A disputa também alcança a contratação e a retenção de profissionais. Na amostra internacional de escritórios de advocacia, 24% dos entrevistados afirmam que recusariam uma proposta de emprego caso não tivessem acesso a ferramentas de IA de nível profissional.
Na América Latina, 26% considerariam deixar suas organizações nos próximos dois anos se a distância entre suas necessidades e as ferramentas disponíveis não fosse reduzida.
Para os escritórios, portanto, a tecnologia representa uma dupla pressão: atender às expectativas dos clientes e oferecer condições de trabalho capazes de atrair e manter profissionais qualificados.
É nesse cenário que a Thomson Reuters prepara a ampliação de sua oferta de inteligência artificial para o mercado jurídico brasileiro. O Brasil será o primeiro mercado latino-americano a receber a nova versão, com acesso antecipado previsto para o fim de outubro e disponibilidade geral em novembro.
A nova geração do CoCounsel Legal, plataforma que utiliza IA para organizar pesquisas jurídicas, analisar documentos e elaborar minutas com referências às fontes consultadas, será integrada ao Westlaw Brasil e ao conteúdo jurídico da Revista dos Tribunais e permitirá analisar até 10 mil documentos e formular até 100 perguntas simultaneamente, apresentando os resultados com referências aos materiais utilizados.
Em números
- Segundo os dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 40,9 milhões de novos processos ingressaram no Judiciário em 2
- 025, enquanto o ano terminou com 75,5 milhões de ações em tramitação
- Com mais de 1,5 milhão de advogados registrados na Ordem dos Advogados d
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