São Paulo "A gente entrou no ramo de forma romântica e, de certa forma, ignorante". Foi assim, voltando três décadas na história até o nascimento da CTC (Companhia Tradicional de Comércio), que Ricardo Garrido, um dos sócios fundadores, abriu a entrevista ao C-Level.
- Projetos assinados e espaço wellness são hits no mercado imobiliário de altíssimo padrão.
- Varejo físico enfrenta concorrência online com lojas 'com alma' e experiências.
- Em expansão, condomínios horizontais perto de SP atraem quem busca espaço e preço.
- Concorrentes: Ráscal, Le Jazz Brasserie, Adega Santiago, Ritz, Spot, Outback, Z Deli Sandwiches, Veridiana, Camelo.
Em meados de 1996, numa época em que o termo burnout ainda não fazia parte do vocabulário corporativo, três jovens colegas de trabalho, insatisfeitos com suas rotinas profissionais, passaram a se encontrar todo sábado para andar de bicicleta, beber chope e falar mal da multinacional onde trabalhavam.
O CEO João Adas (de cinza) e os sócios da Companhia Tradicional de Comércio Mario Gorski, Edgard Costa, Sérgio Camargo e Ricardo Garrido (da esq. para a dir.) falam sobre os 30 anos da empresa.
As fotos foram feitas no Original, bar que deu origem ao grupo. - Adriano Vizoni/Folhapress "Precisava desopilar. Aos 24, eu já tomava Lexotan para dormir", ele emenda.
Percorrendo São Paulo de bar em bar, Garrido, Edgard Costa e Sérgio Camargo, todos paulistanos, viam que os botequins de antigamente, além de mais acolhedores, tinham vida mais longa do que os estabelecimentos da moda.
Meio de improviso, nasceu o Original. O trio incorporou dois novos sócios, Mario Gorski e Fernando Grinberg, alugou o imóvel de um velho armazém em Moema e inaugurou o bar com um único objetivo claro: servir chope bem tirado e acepipes que eram cópias assumidas de estabelecimentos tradicionais.
Os cinco se revezavam no balcão e faziam questão de que o Original fosse aquele botequim à moda antiga, que foca no atendimento e depende do olho do dono para dar certo.
Conforme o salão se enchia, os empregos corporativos foram sendo deixados de lado. Só que o faturamento de um único bar, eles logo concluíram, não seria suficiente para tantos sócios.
A partir de 1998, ano de inauguração do bar Pirajá, a aventura romântica do quinteto tomou corpo: vieram a pizzaria Bráz, a Lanchonete da Cidade, o bar de coquetelaria Astor e a Ici Brasserie, além das submarcas Bráz Elettrica, Bráz Trattoria, Subastor, Bar do Cofre e Câmara Fria.
CTC completa 30 anos com marcas de bares e restaurantes.
Carregando... Hoje, são 53 operações em quatro cidades, sendo 48 na Grande São Paulo, 1. 500 funcionários e uma meta ambiciosa: conquistar cada vez mais territórios.
O improviso romântico resistiu nos primeiros tempos. Garrido lembra que a empresa completou cinco anos sem ter um nome, um guarda-chuva que abarcasse todas as marcas.
A atendente nem sabia como atender o telefone", ele ri da lembrança. Só em 2001 nasceu oficialmente a Companhia Tradicional de Comércio.
Crescer, Garrido emenda, dependia de oportunidades que surgiam, não de planejamento. "A gente sabia que o crescimento era importante, mas só tomava decisão quando aparecia um imóvel, ou alguém tinha uma ideia.
A virada de chave só aconteceria em 2014, quando o fundo de investimento 2+capital, de Artur Grynbaum e Miguel Krigsner (Grupo Boticário), entrou na sociedade. "Foi uma mudança fundamental.
Eles nos obrigaram a dar um salto em gestão e governança e a trazer executivos mais preparados, como o João", diz Garrido, referindo-se a João Adas, que ingressou na companhia como diretor financeiro e, desde 2020, ocupa o cargo de CEO.
Formado em administração de empresas pela FGV-EAESP, com OPM (Owner/President Management) pela Escola de Negócios de Harvard, Adas pôs o romantismo de lado, aposentou o improviso e impôs um ritmo planejado de crescimento.
O fundo de investimento permitiu que os empreendedores colocassem a gestão nas mãos de executivos e assumissem um papel estratégico", concorda o CEO. "Mas eles estão longe do negócio.
O papel deles é importantíssimo na manutenção da cultura.
Em um setor famoso pela alta taxa de mortalidade –três de cada dez estabelecimentos fecham antes de completar dois anos, segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes)–, celebrar o 30º aniversário com os números da CTC é para poucos.
O faturamento não é revelado. A empresa recebeu 4,1 milhões de clientes no ano passado e projeta crescimento de 15% em 2026.
Perguntados sobre a receita da longevidade, Garrido e Adas recitam a máxima que já virou bordão no segmento: seus projetos têm verdade. O conceito, meio abstrato, tem a ver com a identidade que não depende de storytelling inventado, fácil de ser percebido pelo consumidor.
Para Simone Galante, CEO da consultoria Galunion, especializada no setor de food service, esse é um dos principais acertos da CTC. "Eles trabalham muito bem a identidade.
Você entra em cada casa e sabe exatamente onde está, porque os ambientes respiram conceito e transbordam signos por todo lado.
Ter identidade, ser diferente da concorrência e cultuar a hospitalidade ajuda, mas não basta. O segundo ingrediente fundamental na receita da longevidade, acredita Garrido, é o fator humano –pelo tamanho, a CTC consegue oferecer perspectiva de crescimento na carreira aos funcionários.
Temos 53 operações, seis marcas e toda uma organização por trás. Todo mês, fazemos uma reunião de boas-vindas aos novos colaboradores, apresentamos a história da empresa e contamos onde cada um pode chegar", afirma.
Atrair novos talentos, Adas complementa, não é tão difícil quanto retê-los. Durante o primeiro ano de contrato, as condições de trabalho –muitas horas de pé, com ritmo intenso nos fins de semana– costumam fazer muita gente pedir as contas.
Também de acordo com a Abrasel, a taxa de rotatividade de pessoal (turnover), no país, supera os 70%. A pesquisa Tendências do Ecossistema de Foodservice, divulgada em outubro pela Galunion, ouviu gestores de 339 negócios e mostra que, para 69% dos entrevistados, gestão de pessoas será o principal desafio em 2027.
O crescimento da geek economy (economia da era digital), acrescenta Adas, amplia o problema. "Enfrentamos a concorrência com Mercado Livre, iFood, 99, Keeta, Amazon, Shein, Uber.
O cara tem mais liberdade, pode decidir se não quer trabalhar amanhã, ou se vai trabalhar sete dias na semana porque precisa fazer um dinheiro extra.
A quem se sente atraído pela rotina mais flexível, a CTC acena com chances concretas de subir na vida –a cada trimestre, a empresa promove 150 colaboradores, o que representa 10% do quadro de funcionários.
Um dos gerentes de operações, que cuida de dez lojas, entrou na limpeza. Já tivemos um diretor que começou como chef de cozinha. Vencida aquela fase inicial, que dura entre seis meses e um ano, quem passa da arrebentação já pensa no longo prazo e tende a ficar", diz Adas.
Não é por acaso, avalia Simone Galante, que cresce a concentração de bares e restaurantes nas mãos de grupos multiunidades ou de multifranqueados. "Quem é rede pode oferecer algo mais a quem trabalha, sem depender tanto dos miniatos heroicos do dono atrás do balcão.
Os gestores da CTC garantem que, em três décadas, nunca criaram um projeto que não tivesse dado certo. A única marca que não teve continuidade –a Bottega Bottagallo, bar de sotaque italiano que funcionou no Itaim Bibi, de 2010 a 2014– fechou porque o imóvel foi vendido a uma construtora.
Fora isso, algumas lojas não tiveram sucesso por erros nossos. Acertar o ponto para cada marca é uma verdadeira ciência. Quem diz que a domina é mentiroso", diz Garrido.
Outro fracasso assumido, que faz o empresário mudar o tom de voz, é a transformação operada na Lanchonete da Cidade em 2018. Na época, diante da proliferação de hamburguerias boas e baratas com ambientação jovem, entre elas a rede Bullguer, os sócios optaram por "rejuvenescer" a marca também.
Referências retrô deram lugar à decoração de aspecto industrial.
Não fomos felizes, porque mudamos a ponto de perder a identidade. Tentamos ouvir o mercado, seguir tendências, mas erramos na dose. Já demos um passo atrás no shopping Higienópolis e a resposta está sendo bem positiva", Garrido admite.
Outra tendência que tem provocado alterações significativas nos bares e restaurantes, a busca por bebidas sem álcool e comidas saudáveis, os gestores da CTC seguem, mas com parcimônia.
Para Adas, é natural que esse tipo de pedido ocupe cada vez mais espaço nos menus, mas a empresa não pretende tirar de cena algumas marcas registradas, como os bolinhos fritos do Pirajá.
A indulgência não morreu. Quando vão ao Pirajá, as pessoas querem fritura. Se vão à Bráz, querem pizza, não salada. Vai sobreviver quem souber entregar bem esses momentos de indulgência.
Com a recém-conquistada Certificação B, que reconhece empresas pelo desempenho social, ambiental e de governança, a CTC pretende dar início a um plano de crescimento ainda este ano.
No comecinho de dezembro, abre as portas a primeira pizzaria Bráz de Brasília, uma loja de rua na Superquadra 402 da Asa Sul.
A inauguração será a locomotiva para a expansão fora do eixo Rio-São Paulo –o próximo endereço será em Belo Horizonte (MG). A companhia também pretende voltar a crescer em solo carioca, onde uma Bráz e um Astor encerraram as atividades na pandemia, restando apenas uma unidade da pizzaria, no bairro do Jardim Botânico.
A expansão será tocada sem pressa, Garrido avisa, no mesmo ritmo dos últimos 30 anos. "Crescer é apaixonante, mas não podemos descuidar das 53 lojas que já temos.
Raio-X / Companhia Tradicional de Comércio.
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Em números
- A empresa recebeu 4,1 milhões de clientes no ano passado e projeta crescimento
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