Holandês que fugiu de Bangu 8 trabalhava como 'faxina' e podia circular pelo presídio.
- Polícia Federal prende delegado da PF e ex-secretário em operação contra esquema para favorecer traficante internacional.
- Advogada é suspeita de pagar propina de R$ 150 mil a delegado e ex-secretário para interferir em extradição de traficante holandês.
O holandês Gerel Lusiano Palm, considerado um preso de alta periculosidade e que chegou a fugir do Complexo de Bangu 8, na Zona Oeste do Rio, no sábado (26), estava classificado como "faxina" dentro da unidade prisional.
A classificação é dada a detentos autorizados a trabalhar no presídio e permite a circulação por diferentes áreas da unidade para o exercício das atividades.
Palm, que foi recapturado pouco depois da fuga, era procurado pela Interpol quando foi preso em 2021 no Brasil. Ele foi condenado a 20 anos de prisão na Holanda por tentativa de homicídio e porte ilegal de arma.
Segundo decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) negando recursos da defesa do holandês para que não seja extraditado (entenda abaixo), há a suspeita de que Palm tenha ligação com a facção Comando Vermelho (CV).
A Secretaria Estadual de Polícia Penal (Seppen) informou que o holandês foi classificado para trabalhar exclusivamente no interior da unidade prisional por cumprir os pré-requisitos previstos na Lei de Execução Penal.
A secretaria, no entanto, não detalhou quais critérios foram utilizados nem explicou de que forma o histórico criminal e o grau de periculosidade do preso foram considerados na decisão.
A Corregedoria vai investigar a tentativa de fuga.
A fuga aconteceu apenas oito dias depois de o ministro Flávio Dino, do STF, determinar o prosseguimento imediato do processo para entregar Palm às autoridades holandesas.
O processo de extradição já havia sido autorizado pelo Supremo e transitou em julgado em 2023, quando não havia mais possibilidade de recursos contra a decisão.
No último dia 18 de setembro, oito dias antes da fuga, o ministro Flávio Dino negou mais uma tentativa da defesa de suspender a extradição e determinou o prosseguimento imediato dos procedimentos para a entrega do holandês aos Países Baixos.
Na decisão, Dino afirmou que a atuação do STF no processo já estava encerrada e que a execução da extradição deveria prosseguir.
O ministro também mencionou uma investigação da Polícia Federal sobre uma suposta articulação do Comando Vermelho para impedir a entrega de Palm às autoridades holandesas.
Segundo a decisão, a Operação Anomalia apurou indícios de que a organização criminosa teria atuado para interferir no processo de extradição.
A investigação também identificou suspeitas de pagamento de propina a um delegado da Polícia Federal. De acordo com o documento, a esposa de Palm teria participado de uma trama para obter auxílio do policial no pedido de refúgio apresentado pelo estrangeiro.
Policial rendido e fuga com corda de lençóis.
Palm fugiu do Presídio Joaquim Ferreira de Souza, uma das unidades de Bangu 8, junto com o colombiano Juan Estebán Avendaño Perez.
A TV Globo apurou que os dois presos renderam um policial penal e o imobilizaram com um mata-leão — golpe em que o agressor envolve o pescoço da vítima com o braço para restringir sua respiração ou circulação sanguínea.
Em seguida, a dupla chegou à guarita dos fundos da unidade e utilizou uma "tereza", nome dado a uma corda improvisada com lençóis, para ultrapassar o muro e alcançar a área externa do presídio.
Cinco carros ligados ao Comando Vermelho aguardavam os detentos do lado de fora para dar apoio à fuga. Os dois, no entanto, foram recapturados pouco depois, em uma área de mata, com o apoio de um helicóptero da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil.
Gerel Palm foi preso pela Polícia Federal em julho de 2021, aos 38 anos, em um apartamento na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.
Na época, o nome dele constava na lista de Difusão Vermelha da Interpol, sistema usado para localizar pessoas procuradas pelas autoridades de diferentes países.
Palm era procurado por uma tentativa de homicídio e porte ilegal de armas.
Ele também era procurado pelo DEA, órgão norte-americano responsável pela investigação de crimes relacionados ao tráfico internacional de drogas.
A prisão foi realizada por policiais federais do Núcleo de Cooperação Policial Internacional (Interpol/RJ), com apoio da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) e do Centro de Cooperação Policial Internacional da PF no Rio.
A prisão de Palm no Brasil teve como base uma condenação da Justiça da Holanda. Em 14 de janeiro de 2021, o tribunal de Oost-Brabant condenou o holandês a 20 anos de prisão por tentativa de homicídio doloso e porte ilegal de arma de fogo.
Palm também respondia a outro processo por um homicídio ocorrido em 2015.
Após ser preso no Rio, ele foi levado para o sistema penitenciário fluminense, onde aguardava o processo de extradição para a Holanda.
Colombiano condenado por matar policial.
O colombiano Juan Estebán Avendaño Perez foi condenado a 40 anos de prisão na Colômbia pela morte do policial Juan Camilo, em 2010. Segundo as investigações colombianas, Juan Estebán devia cerca de 10 milhões de pesos colombianos ao agente e teria planejado o assassinato para evitar o pagamento.
Após o crime, que teve grande repercussão na Colômbia, ele fugiu para Santiago, no Chile, onde permaneceu até 2016. Naquele ano, passou a morar no Rio de Janeiro.
Em 2022, Juan Estéban foi preso na Muzema, na Zona Oeste.
Segundo as investigações das polícias Civil e Federal brasileiras, Juan Estebán seria integrante do Cartel de Medellín, organização ligada ao tráfico internacional de drogas, e atuaria como elo do grupo com traficantes brasileiros.
O colombiano Juan Estebán, suposto integrante do Cartel de Medellín, condenado a 40 anos de prisão e foragido desde 2010, foi preso nesta segunda-feira (12), na Muzema, na Zona Oeste.
Em nota, a defesa de Gerel Lusiano Palm repudiou a determinação de sua extradição para a Holanda e classificou como desproporcional a prisão do holandês, que já dura cinco anos no Brasil.
Os advogados negam qualquer ligação dele com o Comando Vermelho ou com organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas no Rio.
A defesa afirma ainda que Palm é casado com uma brasileira e pai de duas crianças, uma delas com uma grave malformação do sistema nervoso central, que necessita de cuidados médicos permanentes.
Segundo os advogados, a extradição não poderia ser executada enquanto estiverem pendentes os pedidos de asilo territorial e de reconhecimento da condição de refugiado.
A defesa também sustenta que há uma determinação internacional para suspender a entrega de Palm à Holanda e questiona a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Os advogados afirmaram que recorrerão às instâncias nacionais e internacionais para tentar impedir a extradição.
O g1 tenta contato com a defesa de Juan Estéban.
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Em números
- Segundo as investigações colombianas, Juan Estebán devia cerca de 10 milhões de pesos colombianos ao agente e teria planejado
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