Com um chapéu de palha na cabeça, camiseta rasgada, bermuda e botas nos pés, o engenheiro agrônomo Isnael Nonato foge do visual tradicional de muitos profissionais que utilizam as redes sociais para compartilhar conhecimentos sobre agricultura.
Mais conhecido como Agrônomo de Vera, ele conquistou milhões de seguidores nas redes sociais com uma comunicação simples, direta e sem formalidades.
Nascido em Cacoal (RO), criado em Goiânia (GO) e atualmente morador de Vera, no interior de Mato Grosso, Isnael produz seus vídeos em uma propriedade de apenas três hectares, onde vive com a esposa, Gabriela.
Por trás do sucesso nas redes sociais, porém, existe uma trajetória marcada por dificuldades financeiras, perdas familiares e uma promessa que Isnael fez a si mesmo ainda na adolescência: estudar agronomia para ajudar o pai e outros agricultores que não tinham acesso à assistência técnica.
O desejo de mudar a realidade da família.
Filho e neto de trabalhadores rurais, Isnael cresceu acompanhando as dificuldades enfrentadas pela família para conseguir produzir no campo.
O avô trabalhava como caseiro em fazendas, enquanto o pai era funcionário em propriedades de terceiros. Durante a infância, Isnael observava que muitos agricultores tinham dificuldades para aumentar a produtividade por falta de orientação técnica.
A situação despertou no adolescente o interesse pela profissão. Entre os 13 e os 15 anos, ele já havia decidido qual caminho seguiria.
A mudança da família para Mato Grosso reforçou ainda mais essa escolha. Depois de anos trabalhando para outras pessoas, o pai decidiu buscar uma oportunidade de ter a própria terra.
Incentivado por informações de familiares que já moravam no estado, mudou-se com a família para a região de Sinop e conseguiu uma área de assentamento em Boa Esperança do Norte.
Na propriedade de aproximadamente 100 hectares, a família passou a trabalhar com hortaliças e criação de gado. Entretanto, a distância dos grandes centros urbanos tornava o acesso à assistência técnica ainda mais difícil.
Segundo Isnael, a propriedade ficava a cerca de 280 quilômetros de Sorriso, e o atendimento aos pequenos produtores era limitado.
Determinado a mudar aquela realidade, Isnael iniciou sua formação como técnico agrícola, concluída em 2013.
Ainda durante os estudos, aproveitava as visitas à propriedade do pai para orientar os agricultores vizinhos, principalmente em questões relacionadas ao cultivo e ao controle de pragas.
Como muitos não tinham condições de comprar insumos ou contratar assistência especializada, ele procurava apresentar alternativas acessíveis, utilizando os recursos disponíveis nas propriedades.
Foi nessa época que percebeu que o conhecimento adquirido na escola poderia beneficiar muito mais pessoas do que apenas sua família.
Após concluir o curso técnico, Isnael começou a trabalhar em uma fazenda, onde respondia aos engenheiros agrônomos responsáveis pelas atividades.
A experiência despertou o desejo de continuar estudando. “Eu falei: ‘Não quero só executar as ordens dos engenheiros agrônomos. Quero ser mais do que isso’. Então fui para Sorriso estudar agronomia.”.
Em 2019, concluiu a graduação em Engenharia Agronômica. Durante sua formação, trabalhou em empresas do setor de sementes e pesquisa agrícola, acumulando experiência com culturas como soja e milho.
A carreira parecia encaminhada, mas uma sequência de acontecimentos mudaria completamente seus planos.
Em um período particularmente difícil, Isnael enfrentou a morte do pai e a perda do emprego em uma empresa do setor agrícola.
Morando de aluguel em Sorriso (MT), viu as despesas se acumularem enquanto tentava encontrar uma maneira de sustentar a família.
A oportunidade de recomeçar surgiu depois que sua mãe vendeu a propriedade da família em Boa Esperança do Norte e dividiu os recursos entre os filhos.
Com sua parte, Isnael e Gabriela decidiram investir em uma pequena chácara de três hectares, no município de Vera.
O plano era ousado: viver exclusivamente da produção agrícola e provar, na prática, que uma pequena propriedade poderia garantir o sustento de uma família.
A ideia de compartilhar essa experiência nas redes sociais já existia, mas Isnael estabeleceu uma condição antes de começar a produzir conteúdo.
O casal começou a trabalhar com o cultivo e a comercialização de hortaliças, especialmente alface.
Depois de dois anos, a propriedade já gerava recursos suficientes para pagar as despesas da família e permitir alguns investimentos.
Foi então que Isnael decidiu colocar em prática a segunda parte do projeto: compartilhar o conhecimento adquirido com outras pessoas.
Em outubro de 2024, Isnael e Gabriela criaram os perfis que dariam origem ao Agrônomo de Vera.
Segundo o agrônomo, o político telefonou para incentivá-lo a gravar vídeos com dicas de agricultura. “Ele falou: ‘Isnael, você se comunica muito bem. Você fala de uma forma que todo mundo entende, não interessa o grau de estudo.
Começa a gravar esses vídeos e coloca nas redes sociais’.”.
Apesar do incentivo, Isnael ainda tinha dúvidas. O casal também enfrentava novas dificuldades financeiras depois de investir as economias na construção de uma represa na propriedade.
Em uma tarde de domingo, desanimado com a situação, Isnael estava sentado próximo à represa quando pediu à esposa que pegasse o celular.
Na gravação, de quase quatro minutos, ele se apresentou e explicou o que pretendia ensinar.
O vídeo foi publicado no TikTok, onde o perfil tinha pouco mais de cem seguidores. Pouco depois da publicação, faltou energia elétrica na propriedade. Sem acesso à internet, o casal não conseguiu acompanhar a repercussão.
Na manhã seguinte, uma ligação da filha, Isabela, trouxe a notícia inesperada. “Mãe, o que vocês aprontaram com o pai ontem? O vídeo dele está com um milhão e meio de visualizações”, contou a jovem, segundo Isnael.
O casal decidiu aproveitar o momento e passou a publicar vídeos diariamente.”Falamos: ‘Se é para continuar, vamos postar um vídeo todo dia’. E nunca mais paramos.”.
Uma das características que mais chamam a atenção nos vídeos de Isnael é a maneira como ele transmite conhecimentos técnicos sem recorrer a explicações complicadas.
O agrônomo conta que a escolha pela linguagem simples surgiu de experiências vividas durante sua formação e atuação profissional.
Em palestras e eventos técnicos, ele frequentemente encontrava dificuldades para compreender determinados termos utilizados pelos próprios colegas.
A percepção de que a linguagem excessivamente técnica afastava parte do público influenciou diretamente a forma como decidiu produzir seus conteúdos.
Para Isnael, o objetivo é oferecer orientações que possam ser compreendidas e aplicadas por pessoas com diferentes níveis de escolaridade.
Embora o foco principal seja a agricultura familiar, os conteúdos também alcançam moradores de cidades que desejam cultivar alimentos em pequenos espaços.
Segundo ele, uma pessoa que deseja plantar cebolinha em um vaso na varanda pode encontrar informações tão úteis quanto um agricultor que depende da produção para sustentar a família.
Além da linguagem, o visual de Isnael também se tornou uma marca registrada. Diferentemente da imagem frequentemente associada aos profissionais do agronegócio, ele aparece nos vídeos usando chapéu de palha, bermuda, botas e camisetas muitas vezes rasgadas pelo trabalho diário.
O estilo desperta curiosidade entre os seguidores, que questionam se as roupas fazem parte de uma estratégia para conquistar audiência.
Isnael garante que não. “Não é um personagem. Essas roupas que vocês me veem usando nas redes sociais, de shortão e bota, sou eu. Se você chegar aqui hoje, vai me encontrar de bota, short e camiseta rasgada.”.
Ele conta que mantém o estilo mesmo quando participa de compromissos fora da propriedade. “Quando vou viajar de avião, coloco meu chapelão e minha botona. Só não vou de camisa rasgada, porque aí o pessoal estranha”, brinca.
Para o agrônomo, a identificação com o público depende principalmente da autenticidade. “Hoje o seguidor bate o olho no vídeo, escuta uma frase e percebe se você está falando a verdade ou sendo falso.
E acrescenta: “Eu sou aquele engenheiro agrônomo raiz, que quer pegar a terra com a mão, pisar na terra de bota e de short. Essa é minha realidade.”.
O sucesso nas redes e a missão de ajudar outras pessoas.
Com milhões de seguidores e vídeos que alcançam grandes audiências, Isnael passou a dedicar parte significativa da rotina à produção de conteúdo.
As publicações abordam problemas que surgem no dia a dia da propriedade e dúvidas enviadas pelos seguidores.
Ele explica que acompanha os comentários para identificar os assuntos de maior interesse e procura publicar orientações relacionadas às necessidades do público em cada época do ano.
Apesar da popularidade, afirma que sua principal preocupação não é alcançar números cada vez maiores de visualizações.
O crescimento também trouxe reconhecimento. Isnael figura entre os três colocados em uma parcial da votação do Prêmio iBest na categoria de influenciadores do agronegócio.
Mas, ao falar sobre o que considera sua maior conquista, o agrônomo volta às lembranças do pai. Segundo ele, um ensinamento recebido na infância continua orientando suas decisões.
Hoje, ao receber mensagens de agradecimento e relatos de pessoas que conseguiram melhorar seus cultivos com as orientações compartilhadas, ele acredita estar colocando esse ensinamento em prática.
Em números
- Na propriedade de aproximadamente 100 hectares, a família passou a trabalhar com hortaliças e cr
- Produtor vira engenheiro agrônomo para ajudar o pai e hoje soma 7 milhões de seguidores nas redes
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