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Por que você não consegue fazer cócegas em si mesmo?

Por que ninguém consegue fazer cócegas em si mesmo? O cerebelo prevê o toque e cancela a sensação — e isso ajuda a entender a esquizofrenia

4 min de leitura
Por que você não consegue fazer cócegas em si mesmo?

Você não consegue fazer cócegas em si mesmo porque o cerebelo, estrutura na parte de trás e inferior do cérebro, prevê a sensação que o próprio movimento vai causar e reduz a resposta antes que ela chegue à consciência.

Lista completa

  • Creutzfeldt-Jakob: a doença rara e sem cura que afeta o cérebro.
  • Andar pela cidade pode proteger o cérebro contra o Alzheimer.
  • Cientistas mapeiam onde começam as alterações cerebrais na esquizofrenia.

É um mecanismo de previsão, não uma questão de força ou de “jeito” na hora de tentar.

Quando outra pessoa faz cócegas, o cérebro não sabe exatamente onde nem quando o toque vai acontecer. Sem essa previsão, a sensação chega em cheio — por isso ela é mais intensa e mais difícil de controlar.

Essa explicação não é só teoria: foi testada em laboratório pela neurocientista britânica Sarah-Jayne Blakemore, então na University College London, junto com Daniel Wolpert e Chris Frith.

O estudo foi publicado em 1998 na revista científica Nature Neuroscience.

Os pesquisadores criaram um dispositivo com um braço robótico e um pedaço de espuma. O participante movia uma alavanca com uma das mãos, e esse movimento acionava a espuma, que tocava a palma da outra mão.

Até aí, nada de cócega — o cérebro previa o toque e cancelava boa parte da sensação, exatamente como acontece quando tentamos fazer cócegas em nós mesmos. O truque veio depois: os cientistas inseriram um atraso entre o movimento da alavanca e o toque da espuma, chegando a cerca de dois segundos.

Quanto maior o atraso, mais os participantes classificavam o toque como parecido com uma cócega de verdade. Com o intervalo grande o suficiente, a sensação chegava perto da provocada por outra pessoa.

O motivo: a previsão do cérebro deixava de coincidir com o toque real, e o cancelamento da sensação parava de funcionar.

Exames de imagem por ressonância magnética confirmaram a pista: quando o toque era autoproduzido e sem atraso, o cerebelo e o córtex somatossensorial (a região que processa sensações do corpo) mostravam menos atividade do que quando o toque vinha de fora.

O mesmo grupo de pesquisa foi além. Em 2000, publicaram na revista Psychological Medicine um estudo comparando pacientes com esquizofrenia, pacientes com transtorno bipolar ou depressão e voluntários sem diagnóstico psiquiátrico.

O resultado: pessoas sem alucinações auditivas ou sem a chamada experiência de passividade — sensação de que os próprios atos são controlados por uma força externa — reduziam a percepção do toque autoproduzido, como esperado.

Já os pacientes com esses sintomas específicos não mostravam essa redução. Para eles, o toque provocado pela própria mão era sentido com a mesma intensidade de um toque externo.

A interpretação dos pesquisadores foi que existe uma falha no mecanismo de automonitoramento — o sistema que usa a previsão do cerebelo para distinguir o que é gerado pelo próprio corpo do que vem de fora.

Essa falha é apontada como um fator que pode contribuir para sintomas, como ouvir vozes ou sentir que os próprios movimentos são controlados por outra pessoa.

É importante frisar o que é consenso e o que ainda é hipótese em investigação. O cancelamento sensorial de toques autoproduzidos é um achado bem estabelecido e replicado.

Já a ideia de que uma falha nesse mecanismo específico explica sintomas da esquizofrenia é um modelo em teste, um entre vários fatores neurobiológicos que os pesquisadores associam ao transtorno — não uma causa isolada e definitiva.

Da próxima vez que alguém tentar, sem sucesso, fazer cócegas em si mesmo na barriga ou na sola do pé, vale lembrar: é o cerebelo cumprindo bem o próprio trabalho, prevendo cada movimento antes mesmo que ele aconteça.

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

Fontes consultadas

  • Olhar Digitallink

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