Um pesquisador da Anthropic decidiu deixar a indústria de inteligência artificial (IA) por temer que a corrida entre empresas do setor esteja levando ao desenvolvimento de sistemas que, no futuro, poderão escapar do controle humano.
- Coxon havia deixado a OpenAI no início deste ano para trabalhar na Anthropic justamente porque a empresa era conhecida pelos esforços voltados à segurança de seus modelos.
- Embora tenha considerado sinceros os esforços da Anthropic nessa área, ele chegou à conclusão de que nenhuma empresa conseguiria desenvolver de maneira responsável uma IA capaz de superar seres humanos em uma ampla variedade de tarefas — conceito frequentemente associado à IA geral, ou IAG — sem intervenção governamental ou uma desaceleração coordenada do setor.
- A Anthropic não comentou imediatamente a saída do pesquisador.
- O CEO da companhia, Dario Amodei, e outros executivos da empresa têm alertado repetidamente sobre os riscos de modelos de IA que poderiam agir de maneira inesperada e defendido uma redução no ritmo de desenvolvimento.
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Jacob Coxon, de 27 anos, trabalhava na Anthropic com treinamento de novos modelos de IA a partir do processamento de grandes volumes de dados. Ele deixou a empresa porque não quer participar do que considera uma corrida da indústria para criar sistemas capazes de melhorar a si próprios.
Segundo Coxon, esses modelos poderiam evoluir rapidamente a ponto de se tornarem impossíveis de controlar e, em cenário extremo, representar uma ameaça à humanidade.
O pesquisador, que estudou matemática anteriormente, afirmou que colegas do setor passaram a utilizar expressões como “crunchtime” e “endgame” para descrever o caminho em direção a modelos capazes de autoaperfeiçoamento.
Para ele, a competição entre empresas estadunidenses e novas companhias chinesas torna inevitáveis determinados compromissos entre segurança e velocidade de desenvolvimento.
Pesquisador trocou OpenAI pela Anthropic.
Ataques recentes aumentam preocupação.
Coxon também citou ataques cibernéticos recentes envolvendo modelos da OpenAI e da Anthropic como exemplos dos riscos associados ao avanço das capacidades dos sistemas.
Alguns desses modelos operaram em grupos de agentes colaborativos e demonstraram comportamentos considerados problemáticos, incluindo a adoção de objetivos potencialmente prejudiciais e tentativas de esconder suas ações dos seres humanos.
Na avaliação de Coxon, o risco aumenta caso os sistemas passem a conseguir melhorar suas próprias capacidades. Nesse cenário, eles poderiam avançar a ponto de se recusarem a obedecer comandos humanos.
A saída de Coxon é apontada como um dos primeiros casos de um funcionário da Anthropic deixando a empresa especificamente por preocupações relacionadas à segurança da IA.
No início deste ano, outro pesquisador que trabalhava com segurança deixou a companhia para estudar poesia e alertou que “o mundo está em perigo”.
Pesquisadores também deixaram a OpenAI e outras empresas do setor nos últimos anos, alegando preocupações semelhantes.
Executivos de IA também pedem cautela.
A preocupação não está restrita a pesquisadores que deixaram as empresas. Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou recentemente que os avanços da IA exigem atenção urgente, especialmente na área de segurança cibernética.
Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, também defendeu uma postura de extrema cautela. “Este é um momento que exige extrema cautela. Estou preocupado que ninguém esteja preparado para as consequências de um crescimento contínuo e rápido da inteligência das máquinas”, escreveu Pachocki em uma publicação no domingo.
Ele defendeu uma desaceleração coordenada entre as empresas e a intervenção dos governos.
EUA ainda não têm regulamentação federal para IA.
A discussão acontece em cenário de ausência de regulamentação federal específica para IA nos Estados Unidos.
O governo de Donald Trump adotou uma abordagem considerada mais flexível, priorizando o potencial econômico da tecnologia. Críticos, porém, argumentam que esse ambiente pode aumentar o risco de grandes ataques cibernéticos e outros danos associados ao avanço acelerado da IA.
O senador Bernie Sanders, de Vermont (EUA), e o deputado Greg Casar, do Texas (EUA), estão entre os poucos parlamentares que propõem limites mais rígidos para a tecnologia.
Na semana passada, os dois apresentaram um projeto de lei que prevê a proibição permanente da superinteligência e uma pausa no desenvolvimento de modelos até que um órgão regulador do setor estabeleça novas regras.
Saída acontece antes de possível IPO bilionário.
A saída de Coxon ocorre enquanto a Anthropic se prepara para uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) que pode estar entre as maiores já realizadas.
Amodei e outros executivos da companhia também entraram em conflito em algumas ocasiões com o governo Trump e com outros líderes do setor em razão de práticas que, segundo eles, não dão prioridade suficiente à segurança da IA.
Para o pesquisador, o fato de discussões dessa dimensão ocorrerem dentro de uma ferramenta de comunicação utilizada por engenheiros demonstra o tamanho da influência que as empresas de IA passaram a exercer sobre o desenvolvimento da tecnologia.
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
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