Exclusivo: drones lançam bombas em áreas disputadas por facções criminosas no RJ.
Moradores de comunidades do Rio de Janeiro passaram a conviver com uma nova ameaça em meio à disputa territorial entre facções criminosas: ataques de drones carregados com explosivos.
Registros feitos por moradores e imagens obtidas pela polícia mostram bombas lançadas do alto, casas danificadas e pessoas feridas.
Em um dos episódios, um morador percebeu a aproximação de um drone carregando uma granada e avisou a mãe. Pouco depois, o explosivo foi lançado na rua e houve uma explosão.
O medo, segundo os moradores, passou a fazer parte da rotina mesmo dentro de casa.
Explosões atingem casas e deixam moradores feridos.
Um dos ataques analisados pela reportagem foi registrado pelo próprio drone usado pelos criminosos. As imagens, obtidas pela polícia, mostram uma bomba caseira sendo lançada contra um carro onde estariam integrantes de uma facção rival.
Imagens feitas por moradores mostram ferimentos na perna da vítima e marcas de estilhaços na lateral do veículo. O ataque aconteceu durante o dia, enquanto moradores circulavam pela região.
Os explosivos também atingiram imóveis. Em uma casa, uma bomba caiu sobre o telhado, explodiu e destruiu parte da cozinha e de um quarto. Em outra comunidade, o artefato caiu sobre uma árvore no quintal e estourou uma janela.
Um dos moradores conta que as explosões se tornaram frequentes e que a violência passou a atingir pessoas sem relação com a disputa entre criminosos. Ele cita a própria filha, que costuma andar de bicicleta pela região.
Outro morador foi atingido por estilhaços durante um dos ataques. Ele contou que ouviu primeiro o barulho da hélice do drone e, em seguida, uma explosão.
A presença dos drones mudou a rotina das comunidades. Em uma festa de rua atingida por explosivos lançados por um drone, duas crianças e um homem ficaram feridos.
A violência também restringe o uso de espaços públicos. Na Favela do Quitungo, na Zona Norte, campos de futebol ficam vazios durante a noite. Ao menor sinal de um drone, até criminosos evitam permanecer em áreas abertas.
Em algumas comunidades, ruas passaram a receber coberturas para tentar impedir que explosivos sejam lançados do alto. Segundo o delegado Marcos Mota, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT), essas estruturas são uma tentativa de proteção contra os ataques, mas também prejudicam o monitoramento policial.
Os drones já eram usados por criminosos para vigiar grupos rivais e acompanhar ataques por terra. Agora, passaram a ser empregados também para lançar explosivos.
Segundo a polícia, os artefatos usados nos ataques são granadas improvisadas conhecidas como “bombas tubo”. Elas são produzidas com tubos de PVC preenchidos com pólvora, parafusos e cacos de vidro.
A disputa também envolve equipamentos usados para localizar e impedir a ação dos drones. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, criminosos utilizam aparelhos capazes de detectar os equipamentos no céu e dispositivos conhecidos como “bazucas antidrone”, que podem interferir na comunicação entre o drone e o operador.
Para o delegado Marcos Mota, o domínio dessa tecnologia representa uma vantagem na disputa territorial.
Denúncias mostram crescimento dos ataques.
Os registros do Disque Denúncia indicam aumento do uso de drones equipados com explosivos. O primeiro relato de um aparelho com granada ocorreu em 2023. Em 2024, foram registradas quatro ocorrências.
No ano seguinte, houve 73 denúncias envolvendo traficantes e outras 14 relacionadas a milicianos, segundo os registros.
A polícia também já identificou criminosos operando drones para atacar comunidades rivais. Em um caso, investigadores acompanharam o voo de um equipamento depois que ele lançou um explosivo contra um blindado da Polícia Militar.
O drone pousou na cobertura de um prédio no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio. Dois homens foram presos.
A expansão do uso de drones com explosivos cria ainda riscos para a circulação de aeronaves. O tráfego de helicópteros é intenso no Rio, e drones que voam sem autorização ou coordenação podem cruzar rotas de aeronaves.
O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) informou que faz a gestão do espaço aéreo brasileiro com foco na segurança e na regularidade da navegação. Segundo o órgão, por se tratar de fatos que podem envolver investigações criminais, informações ou providências devem ser solicitadas às autoridades de segurança pública.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirmou que a segurança nas rotas utilizadas por drones perto de aeroportos envolve articulação com a Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio reconheceu os riscos do uso de drones por organizações criminosas e informou que o enfrentamento exige integração com o governo federal.
Segundo a pasta, serão destinados drones e equipamentos antidrone para reforçar o trabalho das forças de segurança. A secretaria também criou uma divisão especializada para combater esse tipo de crime.
Para os moradores, enquanto a tecnologia avança na disputa entre grupos criminosos, a sensação é de que o perigo pode chegar de qualquer direção — inclusive pelo céu.
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Rio, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.