Mais de seis em cada dez mães negras que participaram de uma pesquisa sobre o mercado audiovisual em São Paulo ainda não conseguiram ingressar no setor. Das 356 mulheres ouvidas no estado, 227 (63,7%) disseram não ter conseguido entrar no mercado, enquanto 129 (36,2%) afirmaram que já estão atuando na área.
O levantamento foi realizado pelo Grupo Nexa Cine e ouviu 646 mães negras de diferentes regiões do Brasil. A dificuldade de acesso aparece acompanhada de uma percepção negativa sobre a inclusão racial no setor: 83,4% das entrevistadas em São Paulo não consideram o audiovisual brasileiro inclusivo para pessoas negras.
Entre as paulistas, 241 (67,6%) disseram que desejam iniciar uma carreira no audiovisual e 115 (32,3%) afirmaram que querem aprimorar técnicas e conhecimentos.
Os relatos apontam obstáculos como o custo da formação, a dificuldade de conciliar maternidade, trabalho e estudos, a falta de oportunidades para a primeira experiência profissional e o acesso restrito às redes de contatos, que muitas vezes são importantes para conseguir trabalhos no setor.
Para Mill Müller, CEO do Grupo Nexa Cine, os resultados mostram que o mercado ainda precisa transformar os discursos sobre diversidade em oportunidades concretas.
Segundo ela, a maternidade também aparece como um fator de exclusão.
Formada em Teatro, Cristina também construiu uma carreira de mais de 15 anos como executiva em grandes empresas. É mãe de dois meninos, de 12 e 8 anos, e conta que precisou conciliar a formação artística, a maternidade e o trabalho.
Apesar das dificuldades, ela diz que nunca abandonou o desejo de atuar.
A roteirista Paula Kristina da Silva, que também participou da pesquisa, diz que, quando retomou sua trajetória no audiovisual, há cerca de cinco anos, o filho já tinha 13 anos, e ela contava com o apoio da família e do marido.
Para ela, essa estrutura faz diferença e não deve ser considerada uma realidade de todas as mulheres.
Paula começou a trajetória na área em 2001, quando entrou na faculdade de Rádio e TV. Em uma turma de 37 estudantes, havia apenas duas alunas negras, segundo ela.
O curso foi interrompido no terceiro semestre por dificuldades financeiras.
Anos depois, voltou a estudar audiovisual. Fez cursos de roteiro, documentário e desenvolvimento de projetos e participou de produções independentes. Hoje, atua como roteirista e desenvolve projetos autorais.
Ela defende a ampliação de cursos gratuitos e bolsas para mães negras, mas afirma que é necessário ir além da capacitação.
Indicações, racismo e portas fechadas.
A publicitária Ainah Corrêa, de 44 anos, vive em Campinas, no interior paulista, e está há quatro anos em transição para o audiovisual. Mãe de dois filhos, de 16 e 15 anos, ela pretende trabalhar principalmente com roteiro e atualmente atua com edição de conteúdo para redes sociais.
Para ela, um dos principais problemas está na forma como as oportunidades circulam.
A maternidade, segundo Ainah, também pesa principalmente em projetos que exigem mais dedicação. Ela diz não ter colegas mães ou lideranças que sirvam de referência sobre a possibilidade de construir uma carreira no setor conciliando a profissão com a criação dos filhos.
Ela também relata experiências de racismo e machismo que considera estruturais e, muitas vezes, difíceis de identificar de maneira explícita.
Ainah afirma que hoje consegue trabalhos principalmente com pessoas que já conhecem sua produção. Segundo ela, a dificuldade aumenta quando tenta iniciar uma parceria com profissionais ou grupos novos.
As experiências relatadas pelas três mulheres têm diferenças, mas se encontram em um mesmo ponto: a formação, sozinha, não garante acesso ao mercado.
Para o Grupo Nexa Cine, os resultados apontam a necessidade de ações voltadas tanto à entrada quanto à permanência de mulheres negras no audiovisual.
A empresa afirma que produtoras, emissoras e plataformas de streaming têm papel importante nesse processo, especialmente por concentrarem grande parte das oportunidades profissionais do setor.
O Grupo Nexa Cine reúne Nexa Tech, Nexa Eventos, Nexa Estúdios e Instituto AfroRec. Segundo a empresa, o Instituto AfroRec já formou mais de 2. 500 profissionais.
A partir da pesquisa, o grupo afirma que pretende utilizar sua plataforma para ampliar a visibilidade de mães negras. Entre as medidas previstas estão maior destaque nos resultados de busca para empresas, valorização de portfólios e depoimentos de contratantes anteriores, além de formação e capacitação.
O Grupo Nexa Cine foi selecionado pelo programa de aceleração Amplifica Cine, iniciativa da Prefeitura de São Paulo executada pela Agência São Paulo de Desenvolvimento (ADE SAMPA) em parceria com a Spcine.
A pesquisa foi realizada pelo Grupo Nexa Cine, por meio da Nexa Tech Research, com metodologia quantitativa e questionário estruturado aplicado online. A coleta ocorreu entre 4 e 16 de junho de 2024 e reuniu 646 respostas voluntárias de mães negras de diferentes regiões do Brasil.
O questionário abordou temas como perfil sociodemográfico, maternidade, trajetória profissional, percepção sobre o mercado audiovisual, acesso à formação, empregabilidade e condições de vida.
Após a coleta, os dados passaram por tratamento estatístico e análise descritiva.
Os dados apresentados nesta reportagem consideram o recorte de 356 respondentes de São Paulo.
Fontes
Informação baseada em material público de G1 São Paulo, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.