A indústria quer mais cortes na taxa de juros. A Confederação Nacional da Indústria considerou correta, mas cautelosa, a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, nesta 4ª feira (16.set.
CNI e Fiesp dizem que juros ainda restringem crédito e pressionam endividamento de famílias e empresas; Selic foi reduzida para 13,75% ao ano.
A entidade defendeu a continuidade do ciclo de cortes e afirmou que o nível dos juros ainda impõe custos elevados para famílias e empresas.
A avaliação consta de nota divulgada pela CNI após a decisão do Banco Central. Para a entidade, a inflação corrente apresenta trajetória de desaceleração, enquanto as expectativas de mercado indicam convergência gradual para a meta de 3% ao ano no horizonte relevante da política monetária.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que manter a Selic em patamar restritivo por período prolongado eleva o custo para a economia.
A CNI calculou que, mesmo após o corte, a política monetária permanece fortemente contracionista. De acordo com a entidade, o juro real está em aproximadamente 9% ao ano, cerca de 4 pontos percentuais acima da taxa real neutra de 5% estimada pelo BC.
A entidade também citou a regra de Taylor, que, em cálculo próprio, indica uma taxa nominal de 10,3% ao ano no 2º trimestre de 2026. Para a CNI, a diferença entre esses referenciais e a Selic atual indica espaço para cortes adicionais.
O custo elevado dos juros também aparece nas taxas cobradas no mercado. Em julho, a taxa média das operações de crédito com recursos livres chegou a 47,7% ao ano, alta de 1,8 p.p.
em 12 meses. Para pessoas físicas, a taxa alcançou 60% ao ano. Para empresas, ficou em 25,4%.
Eduardo Palomine, sócio da EXM Partners, afirmou que, para as empresas, a discussão está menos concentrada no corte de 0,25 p.p. e mais no tempo necessário para que a redução dos juros tenha efeito sobre o custo de capital.
A CNI afirmou que o custo do crédito tem afetado a capacidade de pagamento dos tomadores. A inadimplência no crédito com recursos livres chegou a 7,8% entre pessoas físicas e a 4,2% entre pessoas jurídicas.
Entre as famílias, o endividamento alcançou 49,8% da renda em junho. O comprometimento da renda com o serviço da dívida chegou a 28,9%, maior nível da série histórica, de acordo com os dados citados pela entidade.
A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) também avaliou que o corte foi insuficiente diante do nível de endividamento. Em nota, o presidente da entidade, Paulo Skaf, afirmou que os juros elevados continuam pressionando famílias e empresas.
Pesquisa da CNI com 179 empresas de 28 setores mostra que os juros elevados devem continuar pressionando a necessidade de financiamento da indústria nos próximos 3 meses.
De acordo com a entidade, 56% das empresas esperam maior necessidade de financiamento para contas a pagar. A proporção é de 50% para manutenção de estoques e de 49% para contas a receber.
Entre as empresas que esperam demandar mais crédito, aproximadamente 60% projetam aumento das taxas cobradas.
O cenário também afeta as margens. Segundo a pesquisa, 57% das empresas esperam redução da margem líquida e aproximadamente 1/3 projeta aumento do endividamento bancário.
A possibilidade de repassar o aumento dos custos aos preços é limitada. De acordo com a CNI, 53% das empresas pretendem manter os preços e 35% planejam reajustá-los para cima.
A CNI também relacionou a necessidade de redução dos juros ao enfraquecimento da atividade econômica. O PIB cresceu 0,5% no 2º trimestre de 2026, abaixo dos 1,1% registrados nos 3 meses anteriores.
O consumo das famílias recuou 0,4%, enquanto a indústria de transformação ficou estagnada.
Outro indicador citado pela entidade foi o PMI Industrial do Brasil, elaborado pela S&P Global. O índice caiu de 47,5 pontos em julho para 46,3 em agosto, menor nível em 40 meses.
Para a CNI, a desaceleração da atividade e os custos do crédito reforçam a necessidade de continuidade da flexibilização monetária. A entidade afirmou ainda que o mercado de trabalho permanece aquecido, mas que a ocupação e a renda elevadas não têm se traduzido em maior demanda doméstica.
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