Menos pode ser mais, principalmente quando o assunto é equilibrar as alterações hormonais durante a transição para a menopausa. Foi o que demonstraram pesquisadores da Universidade de São Paulo ao testar uma estratégia alternativa à terapia convencional.
Experimento com ratas mostra que tratamento focado em só um receptor do estrogênio confere proteção metabólica sem risco de estimular tumores.
Em vez de repor o estrogênio como um todo, a equipe ativou nas células só um tipo de receptor desse hormônio, obtendo assim um efeito metabólico amplo e benéfico sem estimular o crescimento de tecidos reprodutivos –como o útero e as mamas–, algo importante para quem tem predisposição genética para o desenvolvimento de tumores.
O trabalho foi realizado em ratas que tiveram os ovários removidos para simular uma condição semelhante à menopausa. No modelo, os pesquisadores usaram uma droga experimental para ativar só o receptor de estrogênio beta (ERβ), um regulador importante para o metabolismo e que não estimula tecidos reprodutivos nem está associado ao risco de tumores sensíveis a hormônios.
Como explica Rocha, a queda expressiva do estrogênio durante a transição para a menopausa desorganiza todo o metabolismo, podendo favorecer o acúmulo de gordura visceral, a resistência à insulina e o risco cardiovascular.
A terapia de reposição hormonal convencional tenta reequilibrar essa perda por meio de comprimidos, adesivos ou cremes com estrogênio e progesterona. No entanto, ao ativar todos os receptores de estrogênio de modo indiscriminado, pode-se elevar o risco de crescimento de tumores em mulheres predispostas.
Solução pontual com benefícios amplos.
Os resultados do estudo mostram que a ativação isolada do ERβ promoveu uma reprogramação metabólica profunda. “Com a nova abordagem, restauramos a glicemia de jejum, normalizamos o perfil lipídico e reduzimos o tamanho das células de gordura.
As ilhotas pancreáticas [células que produzem insulina e outros hormônios] recuperaram sua forma normal e o sangue voltou a apresentar níveis saudáveis de colesterol, triglicerídeos e ácidos graxos livres.
Tudo isso sem qualquer efeito sobre o útero, o que indica a segurança da abordagem”, afirma Alicia Kowaltowski, professora do IQ-USP e coordenadora da pesquisa.
O estudo teve o fígado como foco principal. Isso porque, na transição para a menopausa e na ausência de estrogênio, o órgão passa a lidar de forma diferente com as gorduras.
O mesmo efeito foi observado na análise de células hepáticas isoladas. “A droga remodela o metabolismo de células do fígado [hepatócitos], fazendo com que oxidem mais os ácidos graxos [ou seja, “queimem” os blocos construtores de lipídios para gerar energia].
Isso reduz o acúmulo de gordura e melhora o perfil lipídico como um todo. Ao ativar essa via específica, modulamos o metabolismo do fígado e tornamos os lipídios circulantes mais saudáveis”, explica a pós-doutoranda.
Kowaltowski destaca outro achado importante do trabalho. “Ao ativar o ERβ, a droga faz com que as células hepáticas passem a oxidar totalmente os ácidos graxos, algo que normalmente não acontece, já que o fígado costuma fazer apenas uma oxidação parcial, gerando corpos cetônicos [fontes de energia alternativas que o corpo cria para compensar a falta de carboidratos].
Com essa ‘oxidação completa’, a gordura é totalmente convertida em CO₂, o que melhora de forma significativa o perfil lipídico do organismo. É importante saber que essa via pode ser ativada e trazer benefícios metabólicos, algo que não imaginávamos”, afirma.
Embora o tratamento não tenha impedido o ganho de peso característico da menopausa, ele melhorou de forma ampla a qualidade do metabolismo e o funcionamento do fígado, do pâncreas e do sangue, contam as autoras no artigo.
As investigações continuam em um novo projeto financiado pela Fapesp, agora focado na transição para a menopausa (perimenopausa), usando um modelo experimental mais próximo da realidade humana.
Em vez da remoção abrupta dos ovários das ratas, o novo estudo utilizará um modelo de queda gradual da reserva ovariana, permitindo observar a dinâmica das mudanças hormonais ao longo do processo.
O artigo Estrogen receptor beta activation coordinates liver lipid remodeling and metabolic fluxes, preventing lipotoxicity pode ser lido aqui.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 26 de agosto de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.